Ciro Nogueira, ex-ministro da gestão bolsonarista, fez 8 voos em jatinho de sócio da JBS

Ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira. (Foto: Edilson Rodrigues - Agência Senado)

Senador, presidente nacional do PP (Progressistas) e ex-ministro de Bolsonaro, usou aeronaves de empresários com interesses no Congresso, ampliando questionamentos sobre conflito de interesses

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), que também é presidente da sigla, realizou ao menos 8 voos em 2025 em aeronave pertencente ao sócio da JBS, maior frigorífico do mundo.

A informação integra conjunto de reportagens, com base em informações da Revista Piauí e do portal G1, que vêm mapeando o uso frequente de jatos particulares por parlamentares.

A prática não é ilegal, mas levanta suspeitas relevantes sobre conflito de interesses e transparência no exercício do mandato parlamentar no Congresso.

PADRÃO RECORRENTE DE VIAGENS PRIVADAS

O episódio não é isolado. Segundo reportagem da Revista Piauí, também em 2025, Nogueira viajou a Mônaco em jato pertencente a Fernando Oliveira Lima, proprietário da One Internet Group, empresa do setor de apostas digitais investigada na CPI das Bets, comissão parlamentar de inquérito da qual o próprio senador fazia parte.

A sobreposição entre o papel institucional de investigar e o uso de benefícios privados oferecidos por agentes ligados ao objeto da investigação gerou questionamentos imediatos sobre a lisura da relação.

HELICÓPTERO DE BANQUEIRO E AGENDA POLÍTICA

Em março de 2026, o portal G1 revelou outro episódio: Nogueira utilizou helicóptero pertencente ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ao lado de Antônio Rueda.

O deslocamento, na ocasião, ocorreu durante o fim de semana do GP São Paulo de Fórmula 1, em Interlagos.

Registros da empresa PrimeYou indicam 3 voos realizados entre o kartódromo Ayrton Senna e o aeroporto de Congonhas (SP), em aeronave avaliada em R$ 16,4 milhões. Vorcaro, por sua vez, é citado em investigações no âmbito da CPMI do INSS, o que reforça a sensibilidade institucional do caso.

JBS E HISTÓRICO DE INFLUÊNCIA POLÍTICA

A nova revelação — os 8 voos em aeronave de sócio da JBS — adiciona peso ao padrão identificado. A empresa, controlada pela família Batista por meio da J&F Investimentos, firmou em 2017 um dos maiores acordos de delação premiada da história do País, com pagamento de R$ 10,3 bilhões e implicações profundas no sistema político.

Historicamente, a JBS mantém interlocução ativa com o Congresso em temas estratégicos como regulação ambiental, crédito público, relações trabalhistas e exportações.

Nesse contexto, a proximidade logística entre agentes públicos e representantes do capital privado torna-se ainda mais questionável.

LEGALIDADE NÃO ELIMINA QUESTIONAMENTO ÉTICO

O uso de aeronaves privadas não é, por si só, ilegal. No entanto, o Código de Ética do Senado e a Resolução 42/14 exigem que parlamentares declarem benefícios recebidos de terceiros, além de evitarem situações que configurem — ou aparentem — conflito entre interesse público e privado.

Diante da recorrência dos episódios, surge a questão central: todas essas viagens foram devidamente declaradas? E mais: há coincidência entre os deslocamentos e decisões legislativas de interesse dos grupos envolvidos?

TRANSPARÊNCIA SOB PRESSÃO

A aviação executiva brasileira, regulada pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), mantém registros detalhados de voos.

É a partir do cruzamento desses dados com agendas oficiais que investigações jornalísticas têm revelado relações que, de outra forma, permaneceriam fora do radar público.

O padrão observado sugere dinâmica conhecida em Brasília: deslocamentos que mesclam compromissos políticos e interesses privados, em circuitos que incluem eventos de alto padrão, articulações regionais e encontros informais.

SILÊNCIO E AUSÊNCIA DE EXPLICAÇÕES

Até o fechamento desta reportagem, o senador Ciro Nogueira não havia se manifestado sobre os voos realizados em aeronave ligada ao sócio da JBS.

Também não foram apresentados esclarecimentos sobre eventual contraprestação pelos deslocamentos ou sobre a formalização dessas viagens junto aos órgãos de controle do Senado.

No ambiente político, a ausência de explicações tende a ampliar o desgaste, especialmente quando os registros documentais já estão disponíveis.

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