“Nenhum asilo para pessoas fugindo da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas o secretário de Estado Marco Rubio está estendendo o tapete vermelho para Flávio Bolsonaro”, denunciam parlamentares
O Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, ligado ao Partido Democrata, repudiou a decisão do governo de Donald Trump de “ajudar Flávio Bolsonaro a fugir do Brasil” e conceder vistos ilegais ao candidato derrotado e familiares. Abatido e de cabeça baixa, Flávio foi filmado desembarcando no Aeroporto Executivo de Opa-locka, perto de Miami, na Flórida, um dia após seu passaporte ter sido cancelado pelas autoridades brasileiras depois que negou-se a entregá-lo.
“Nenhum asilo para pessoas fugindo da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti, mas o secretário de Estado Marco Rubio está estendendo o tapete vermelho para Flávio Bolsonaro. Aparentemente, fugir da violência não se qualifica. Negar os resultados eleitorais, sim”, afirmou o comitê.
Na avaliação dos parlamentares democratas, a derrota eleitoral não justifica pedido de refúgio, e há uma distância enorme entre o tratamento privilegiado concedido por Trump a Flávio e a política migratória em relação a pessoas que fogem desesperadas de países conflagrados.
Para o Comitê, é insustentável conceder asilo ao senador do PL-RJ em fim de mandato, que responde a dois inquéritos criminais no Supremo Tribunal Federal (STF). No caso do empresário Willer Tomaz – que também fugiu do país –, acusado de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas ligadas a negócios com apostas online (bets) e conexões com o advogado, parceiro e amigo, e no caso Dark Horse, por pedidos de R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro – já preso – para o financiamento de uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Após ser derrotado por quase 4,5 milhões de votos na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro escapuliu pela Argentina na noite de terça-feira (27) e embarcou em voo particular com destino aos Estados Unidos. A autoridade migratória da Argentina confirmou a fuga de Flávio e familiares pela fronteira por Misiones. O apoio de Milei à ação criminosa foi rechaçado por quase 70% da população vizinha.
Questionado sobre a doce acolhida, Trump disse que aprova, pois vê nos Bolsonaro “pessoas boas”. De olho nas imensas riquezas brasileiras – o Brasil é dono da segunda maior reserva de terras raras do mundo, com cerca de 21 milhões de toneladas (cerca de 23% do total global) – o xerife norte-americano avalia que a nossa eleição “foi muito estranha, e achei que foi terrível”.
LÍDER DEMOCRATA DEFENDE IMEDIATA DEPORTAÇÃO DE FLÁVIO
O comentarista político, líder e candidato democrata Isaiah Martin defendeu nesta terça-feira (27) a deportação de Flávio Bolsonaro dos Estados Unidos. A reação veio logo depois que o advogado Simón Levy, aliado de Trump, confirmou que o fugitivo seguia para os EUA sob proteção do governo.
“Nós o deportaremos no primeiro dia. Na verdade, deveríamos deixar o Brasil pegá-lo no meio da noite, de helicóptero!”, escreveu Martin no X, apontando a diferença entre a postura americana que capturou ilegalmente o presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro, e o apoio ao clã Bolsonaro.
Em vídeo publicado no Instagram, Martin afirmou que Flávio não deve ser aceito no país como refugiado político e criticou o possível uso de dinheiro público. “Agora, o contribuinte americano vai arcar com os custos para proteger sua família criminosa e suas viagens de luxo pelo nosso país. Não há razão para bancarmos o estilo de vida luxuoso dele e, potencialmente, sua equipe de segurança. É patético, especialmente quando Trump diz que não temos dinheiro para a saúde aqui na América”, condenou.
Outro democrata, o deputado Joaquin Castro, também rechaçou a possibilidade de Flávio obter asilo nos EUA. “Perder uma eleição não é motivo para pedir asilo”, escreveu Castro no Threads, denunciando que o candidato derrotado é investigado no Brasil por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, além de ter sido obrigado por decisão judicial a entregar os passaportes. “O governo Trump deve explicações ao Congresso sobre seu papel em ajudar Bolsonaro a fugir do Brasil em desacordo com a legislação brasileira”, acrescentou.
Nesta quarta-feira (28), ao voltar de uma viagem de campanha ao Texas, Trump disse que aprovaria a entrada e a acolhida de Flávio nos Estados Unidos e chamou os Bolsonaro de pessoas “fine” (finas, excelentes). Um assessor de Trump disse à CNN que o presidente havia autorizado a ação ilegal.
REPÚDIO AO USO DA MÁQUINA PÚBLICA EM DEFESA DA EXTREMA DIREITA CRESCE NOS EUA
O repúdio cresce às vésperas das eleições legislativas americanas, que definirão o equilíbrio de forças no Congresso nos dois últimos anos do mandato de Trump. Para os democratas, o episódio reforça a denúncia de que o presidente usa a máquina do Estado para proteger criminosos aliados ideológicos, mesmo quando enfrentam a Justiça de seus países.
Entre os inúmeros atropelos à legislação internacional, Trump concedeu um perdão presidencial total e libertou o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández (JOH), condenado a 45 anos de prisão por traficar mais de 400 toneladas de cocaína para os EUA e por crimes relacionados ao armamento do narcotráfico, corrupção e desvio de recursos públicos.
Tal como agiu em relação a Flávio, a Casa Branca justificou o perdão alegando que JOH, que governou o país centro-americano entre 2014 e 2022, foi alvo de “perseguição política” e de uma “armação” injusta promovida pela administração do ex-presidente Joe Biden.
A chancela pública de Trump à permanência de Flávio nos EUA tende a se tornar um novo ponto de atrito diplomático, e o Supremo Tribunal Federal ainda não disse que medidas adotará diante do descumprimento da ordem judicial.











