Desnacionalização: Shell se aproveita de crise para avançar sobre Raízen

Raízen atua na produção de etanol e açúcar e na distribuição de combustíveis. (Foto/Divulgação)

Empresa criada pela Cosan e a múlti britânica entrou com pedido de recuperação extrajudicial para renegociação de cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas

A Raízen, empresa que tem entre seus principais acionistas a multinacional britânica Shell e a brasileira Cosan, ambas com cerca de 44% das ações, anunciou nesta quarta-feira (11) que entrou com um pedido de recuperação extrajudicial para a negociação das dívidas financeiras no montante de R$ 65,1 bilhões.

A empresa atua na produção de etanol e açúcar e na distribuição de combustíveis, produtos e serviços por meio da marca Shell, licenciada pela Raízen no Brasil, Argentina e no Paraguai.

Segundo as empresas, a Raízen tem controle compartilhado entre Shell e Cosan. No entanto, a Shell, por ser dona da marca, é quem detém na prática a decisão final sobre os rumos do negócio.

“O ‘decision maker’ é a Shell, porque eles são os donos da marca e decidem quem pode ou não pode usar a marca, portanto, a Cosan respeita a decisão deles, mas não deverá participar do aporte porque não deve colocar dinheiro onde entende que não será recompensada”, afirmou uma fonte ao “Estadão”.

“Uma injeção de capital sem paralelo da Shell diluiria a participação da Cosan, mas a extensão dessa diluição dependerá do montante da dívida que será convertido em ações nas negociações com os credores”, disse uma fonte segundo reportagem da CNN Brasil.

Nas últimas semanas, a Cosan tentou articular uma solução para os problemas da companhia, que prevê a reestruturação de um passivo fiscal e a cisão dos negócios de etanol e distribuição, segundo divulgado pelo “Estadão”. Já a Shell, detentora da marca, propunha uma reestruturação sem separar o negócio de distribuição.

De acordo com o presidente da Shell Brasil, Cristiano Pinto da Costa, a companhia se comprometeu a aportar R$ 3,5 bilhões na Raízen. E esperava que a Cosan contribuísse de forma proporcional, ou seja, no mesmo montante apontado pela Shell, algo que seria completamente inviável para Cosan, que estava disposto a colocar R$ 1 bilhão no negócio, com recursos vindos do BTG Pactual, que se tornou sócio da empresa, e o sócio fundador da Cosan, Rubens Ometto Silveira Mello, complementaria com R$ 500 milhões, segundo a reportagem.

Em 2025, a família Ometto, por meio da holding Aguassanta Participações, fechou acordos com os fundos BTG Pactual e Perfin para um aporte de capital na Cosan.

No fim de dezembro, a dívida líquida chegou a R$ 55,3 bilhões,segundo dados divulgados anteriormente. A Raízen tinha R$ 17,3 bilhões em caixa na época. Estima-se que a empresa deve cerca de US$ 5 bilhões (dólares) a investidores no exterior. US$ 5 bilhões são dividas com bancos. Outros US$ 3 bilhões seriam dívidas com detentores de títulos no mercado interno.

Os bancos estão entre os principais credores da companhia, que incluem Itaú, Santander e Bradesco.

O grupo atribui a deterioração da situação financeira da Raízen ao cenário com juro alto e a safra menor.

“A alteração do cenário macroeconômico e setorial — decorrente de ciclos de colheita de menor produtividade, queda das margens e alto custo do endividamento financeiro — prejudicou a atividade das companhias operacionais e, por consequência, toda a operação estruturada pelas devedoras ao longo de anos de atuação no segmento”, segundo documento, obtido pelo Estadão.

O documento também destaca a “alta expressiva da taxa básica de juros no mercado doméstico” – devido a disparada da taxa básica de juros (Selic), que saiu de cerca de 2% em 2020 para 15% em 2026, o que resultou no elevamento do custo do endividamento das empresas da companhia, o que consequentemente agravou a situação da mesma.

Em nota divulgada nesta quarta-feira (11), a Raízen afirma que a renegociação envolve apenas parte das dívidas financeiras e não afeta as operações da companhia.

“A Raízen informa que protocolou nesta quarta-feira (11) pedido de homologação de um plano de recuperação extrajudicial, voltado à reorganização de parte de suas obrigações financeiras junto a credores da companhia”.

Em outro trecho, “a empresa ressalta que o escopo da recuperação extrajudicial é estritamente financeiro e não envolve dívidas ou obrigações operacionais. Dessa forma, permanecem integralmente preservadas as relações da Raízen com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros de negócios, que seguem regidas normalmente pelos respectivos contratos”.

O plano de reestruturação prevê um prazo de até 90 dias para a obtenção das adesões necessárias à sua homologação.

A Raízen, criada em 2011 como uma joint venture entre a Cosan e a Shell, possui atualmente mais de 46 mil funcionários e cerca de 1,3 milhão de hectares cultivados com cana-de-açúcar.

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