“Deus recusa orações de quem tem as mãos sujas de sangue”, diz o Papa a Trump e Netanyahu

Na Praça São Pedro, Papa se dirige a Trump para pedir fim à guerra ao Irã (AFP)

O papa Leão XIV protestou, neste domingo (29), contra os “líderes que iniciam guerras e têm as mãos cheias de sangue”. O pronunciamento papal marcou a data sagrada de Domingo de Ramos e também o início do segundo mês da guerra de agressão americano-israelense contra o Irã.

Para o papa o ataque ao Irã é “atroz” e Jesus nunca poderá ser invocado para que apoie uma guerra dessas.

No discurso proferido na Praça de São Pedro, durante as celebrações que marcam o início da Semana Santa para 1,4 bilhão de católicos do mundo, ele ressaltou que “este é o nosso Deus: Jesus, Rei da Paz”.

Dirigindo-se diretamente ao inquilino da Casa Branca, o Papa enfatizou: “Soube que o presidente Trump declarou recentemente que gostaria de pôr fim à guerra”.

Prosseguindo, em tom de dúvida, conclamou: “Espero que ele esteja buscando uma saída. Espero que ele esteja buscando uma maneira de diminuir a violência e os bombardeios, o que seria uma contribuição significativa para eliminar o ódio que está sendo gerado e que aumenta constantemente no Oriente Médio e em outros lugares”.

Indignado, o Papa acrescentou que a “morte e a dor provocadas por estas guerras são um escândalo para toda a família humana e um clamor diante de Deus”.

O Papa destacou ainda que continua “observando com consternação a situação no Oriente Médio” e que esse tipo de violência faz com que “outras regiões do mundo sejam dilaceradas pela guerra. Não podemos ficar em silêncio diante do sofrimento de tantas pessoas, vítimas inocentes destes conflitos”.

Para mostrar até que ponto Jesus rejeita as “orações dos que fazem guerra”, ele citou uma passagem da Bíblia que diz “Multipliquem as suas orações, eu não as ouvirei, porque as suas mãos estão cheias de sangue”.

CULTOS HERÉTICOS NA CASA BRANCA

O firme posicionamento do Papa veio logo após a informação de que autoridades norte-americanas invocaram a linguagem cristã para justificar os ataques conjuntos entre EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, que deram início à guerra.

O secretário de ‘Defesa” dos EUA, Pete Hegseth, que começou a liderar cultos de oração cristãos no Pentágono, orou em um culto na quarta-feira pedindo “ação violenta e avassaladora contra aqueles que não merecem misericórdia”.

Diante de tamanha diatribe da Casa Branca, Leão XIV afirmou ainda que “Jesus revelou a face gentil de Deus, que sempre rejeita a violência”.

O Papa pediu o fim do conflito e que todos rezem pelos feridos: “Mesmo enquanto a Igreja contempla o mistério da Paixão do Senhor, não podemos esquecer aqueles que, hoje, participam concretamente em seu sofrimento”.

“Elevemos nossa oração ao Príncipe da paz, para que sustente os povos feridos pela guerra e abra caminhos concretos de reconciliação e de paz”, continuou o pontífice.

O apelo do Papa a Trump e aos líderes mundiais: encontrem uma solução para pôr fim à guerra

O pontífice chamou os líderes mundiais a se voltarem “à mesa de diálogo e à busca de soluções para reduzir a violência”.

PÁSCOA, TEMPO DE PAZ

“Que a paz, especialmente na Páscoa, reine em nossos corações”, disse, destacando que “deveria ser o tempo mais santo, mais sagrado de todo o ano. É um tempo de paz, é um tempo de muita reflexão, mas, como todos sabemos, novamente no mundo, em muitos lugares, estamos vendo muito sofrimento, muitas mortes, inclusive de crianças inocentes”.

“Continuamente fazemos apelos pela paz, mas, infelizmente, muitas pessoas querem promover o ódio, a violência, a guerra”, destaca o Pontífice, que por isso pede a todos, “sobretudo aos cristãos”, que “vivam estes dias reconhecendo que Cristo continua crucificado hoje, Cristo continua sofrendo hoje nos inocentes, especialmente naqueles que estão sofrendo por causa da violência, do ódio e da guerra”.

“Rezemos por eles, pelas vítimas da guerra, rezemos para que haja realmente uma paz nova, renovada, que possa dar nova vida a todos”, é, em resumo a exortação do Papa Leão XIV.

A CRUZ DA VIA SACRA

Ao Papa também foi feita uma pergunta sobre a decisão, comunicada hoje, de que será ele mesmo a carregar a Cruz durante as 14 estações da Via-Sacra da Sexta-Feira Santa, no Coliseu. “Penso”, responde Leão XIV, “que será um sinal importante, por aquilo que o Papa representa: um líder espiritual no mundo de hoje, esta voz para dizer que Cristo ainda sofre. E eu também levo todos esses sofrimentos em minhas orações”.

Daí, mais uma vez, o apelo “a todas as pessoas de boa vontade, às pessoas de fé, para caminharem juntas, para caminharem com Cristo, que sofreu por nós, para nos dar a salvação, e para que também nós procuremos ser portadores da paz”.

O Vaticano informa que “o Papa levará a Cruz em cada estação. Leão XIV, na sexta-feira, 3 de abril, presidirá no Anfiteatro Flávio o rito que recorda o caminho de Jesus até o Gólgota”.

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