Alta foi puxada pelos grupos Transportes e Alimentação que, juntos, responderam por 76% do IPCA no mês, diz IBGE
Em março deste ano, o índice oficial de inflação (IPCA) subiu 0,88%, devido à especulação nos preços dos combustíveis (alta de 4,47%), que refletiu, em parte, na alta dos preços dos alimentos (1,56%) no mês. Também de acordo com os dados divulgados pelo IBGE, nesta sexta-feira (10), a gasolina, que em fevereiro caiu 0,61%, em março subiu para 4,59%, sendo o principal impacto individual (0,23 p.p.) do mês. O diesel, com menor peso no IPCA, disparou de 0,23% em fevereiro para 13,90% em março (peso de 0,03 p.p no índice).
No caso da gasolina, a Petrobrás não anunciou nenhum aumento neste ano. Pelo contrário, o último reajuste no preço do combustível foi a redução de 5,2% para as distribuidoras, em janeiro deste ano. O Brasil refina 90% da gasolina que consome. Ou seja, decisões de aumento pela estatal têm impacto direto nos preços da gasolina.
Contudo, os preços da gasolina e demais combustíveis voltaram a disparar no país por pura e simples especulação. Importadores, distribuidores e postos viram a agressão dos EUA contra o Irã como uma oportunidade para maximizar seus lucros.
Com isso Transportes liderou a alta dos preços em março (1,64%), seguido por Alimentação e bebidas (1,56%). Juntos, os dois grupos respondem por 76% do IPCA do mês. “No grupo alimentação, em especial na alimentação em casa, a aceleração no nível de preços foi mais evidente, com a alta de 1,94%, a maior desde abril de 2022 (2,59%), combinando efeitos de redução de oferta de alguns produtos com altas do frete, em decorrência dos combustíveis mais caros”, aponta o IBGE.
PREÇOS ABUSIVOS
Em março, as distribuidoras de combustíveis Vibra (antiga BR distribuidora privatizada no governo de Jair Bolsonaro), Ipiranga (Grupo Ultra) e Raízen (Shell) foram autuadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), após a fiscalização identificar indícios de elevação abusiva nos preços do diesel.
No caso da Vibra, a distribuidora aumentou o valor do combustível em cerca de R$ 1,06 por litro, enquanto o custo subiu apenas R$ 0,03 no mesmo período, segundo reportagem da Folha de São Paulo. Essa discrepância – que equivale a aproximadamente 35 vezes o aumento de custo – foi entendida pelos fiscais como um “forte indício” de prática irregular.
Desde o dia 9 de março, por determinação do governo Lula, uma força tarefa nacional composta pela Polícia Federal (PF), Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e Agência Nacional do Petróleo (ANP) tem atuado para coibir a prática abusiva nos preços dos combustíveis. Ao todo, foram fiscalizados cerca de 5,3 mil postos e 322 distribuidoras no país.
Por coincidência, a Vibra, Ipiranga (Grupo Ultra) e Raízen (Shell) decidiram boicotar à primeira fase do programa de subvenção ao diesel do governo federal, com o fim de amenizar os impactos da alta do petróleo no mercado internacional. A iniciativa financia até R$ 0,32 por litro de diesel às importadoras, variando conforme os preços praticados e os parâmetros definidos pelo governo para cada período. A segunda fase da subvenção acrescenta R$ 1,20 por litro, valor que será dividido entre a União e os governos estaduais. Dessa forma, o subsídio total chegará a R$ 1,52 por litro.
MEDIDAS DO GOVERNO PARA CONTER AUMENTO DOS PREÇOS
No início desta semana, o governo Lula anunciou uma nova subvenção de R$ 0,80 por litro de diesel produzido no Brasil. Além disso, divulgou outras medidas como: isenção de impostos federais sobre o biodiesel; subvenção ao gás de cozinha; subvenção ao querosene da aviação; e linhas de crédito para o setor aéreo.
As refinarias privatizadas por Bolsonaro também seguem elevando os preços dos combustíveis muito acima dos praticados pela Petrobrás.
Entre 27 de fevereiro e 31 de março, a refinaria Mataripe (antiga RLAM), na Bahia, elevou o preço do diesel S-10 para as distribuidoras de R$ 3,28 para R$ 6,00, segundo dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps), com base em informações das próprias empresas. O reajuste representa uma alta de 83%, valor 64% superior ao praticado pela Petrobrás.
No mesmo período, a gasolina sofreu quatro reajustes na refinaria, que fizeram o combustível sair de R$ 2,54 para R$ 3,97, acumulando uma alta de 56% (55% mais caro que a estatal).
Na Petrobrás também segue a pressão contínua por parte de acionistas privados – na sua maioria estrangeiros – para que a estatal alinhe seus preços domésticos às cotações internacionais. O objetivo é maximizar margens de lucro e dividendos.
No entanto, o governo – principal acionista da empresa – entende que a Petrobrás, como toda empresa estatal, tem que estar a serviço da sociedade brasileira. Foi nesse sentido que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o leilão de gás GLP – popular gás de cozinha – que teve ágio de mais de 100% e chegou a ser vendido por mais que o dobro do preço de tabela para as distribuidoras.
O certame do GLP de 31 de março, considerado uma “cretinice, bandidagem” pelo presidente Lula, foi cancelado e agora a Petrobrás devolverá aos clientes os valores pagos a mais no leilão, além de anunciar que executará “neutralização dos efeitos de preço decorrentes do leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP)”.
“A decisão é sustentada por análises econômicas e de risco, leva em conta a excepcionalidade do contexto mercadológico atual, decorrente do conflito no Oriente Médio. Considera também as manifestações de órgãos de controle e regulatórios, tais como ANP e Secretaria Nacional do Consumidor”, diz a estatal.
O Conselho de Administração (CA) da Petrobrás também destituiu Claudio Romeo Schlosser do cargo de diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados. Ele foi o responsável pela realização do leilão de GLP.











