“Linha do tempo” elaborada pelo Estadão mostra que Vorcaro explodiu de ganhar dinheiro com Jair Bolsonaro no Planalto e Campos Neto no BC. O banco foi liquidado no governo Lula. Tentar jogar a crise para cima do STF ou do Planalto chega às raias do ridículo
A “linha do tempo” do Banco Master, elaborada pelo Estadão neste domingo (8), não deixa dúvida. O banco de Daniel Vorcaro explodiu em captação fraudulenta de recursos e atuação temerária no mercado logo após a chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
No dia 14 de outubro de 2019, o Banco Central, sob Roberto Campos Neto, autorizou a transferência do controle societário do então Banco Máxima (posteriormente renomeado como Banco Master) para Daniel Vorcaro.
Em 2022, o Master aumenta a captação em mais 94%, praticamente dobrando de tamanho, para R$ 18,87 bilhões em passivos. Em 2023, saltou 79%, para R$ 33,81 bilhões. O crescimento era alavancado pela emissão de CDBs com altas taxas de retorno para os investidores – até 140% do CDI – cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Não foi por acaso que o banqueiro corrupto despejou, através de seu cunhado e cúmplice, Fabiano Zettel – pastor agora preso -, 5 milhões de reais nas campanhas de Jair Bolsonaro ao Planalto e Tarcísio de Freitas a governo de São Paulo em 2022.
Como o beneplácito e a cobertura do bolsonarista Roberto Campos Neto na direção do BC, o Master saltou da 91º colocação no ranking de tamanho dos bancos brasileiros, com apenas R$ 3,47 bilhões de passivos (recursos captados) em 2019, para a 20ª posição, com R$ 83,18 bilhões, em março de 2025 – o último dado disponível, a poucos meses antes de quebrar.
O Master cometeu fraudes bilionárias durante todos esses anos e Campos Neto fingia que não via nada. Ele só foi investigado com a ação da Polícia Federal no governo Lula e a mudança na direção do Banco Central.
Em dezembro de 2023, o Banco Central promove mudanças nas regras de uso do fundo garantidor de crédito (FGC). A alteração “repercutiu na estratégia de captação de recursos do conglomerado, que se voltou, então, para empresas e investidores institucionais”, disse o BC em relatório enviado do Tribunal de Contas da União (TCU).
Vorcaro obteve aval de Campos Neto e multiplicou por muito a captação de recursos através de consignados, CDBs e operações de alto risco. Nesta ocasião, ele já desviava recursos para os seus donos por meio de uma complexa cadeia de fundos de investimentos.
De um operador do mercado imobiliário sem grande expressão em Minas, que frequentava a mesma igreja evangélica do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira, na Lagoinha, em BH, Vorcaro enriqueceu depois de comprar o Banco Máximo, que estava em dificuldades. Depois, com a autorização de Campos Neto para operar mais amplamente usando o Fundo Garantidor de Crédito como meio de atrair suas vítimas, ele explodiu.

Além da força que Vorcaro recebia de Campos Neto, a 3ª fase da Operação Compliance Zero descobriu que havia muitos políticos bolsonaristas e até dois servidores do BC cooptados pelo Master. Quem deveria fiscalizar estava, na verdade, acobertando as ações do banco.
A roubalheira prosseguiu com a ajuda de senadores e governadores bolsonaristas. O maior deles foi o governador de Brasília, Ibaneis Rocha. Este autorizou a compra pelo BRB (banco público de Brasília), por R$ 12 bilhões, de uma carteira de títulos do Master completamente bichada, inclusive com títulos totalmente falsos. O escândalo acendeu a luz das autoridades já sob o governo Lula. Mesmo alertado sobre as fraudes, o governador insistiu na operação e chegou até ao absurdo de anunciar a compra do Master pelo BRB.
O próprio Roberto Campos Neto já havia sido alertado durante sua gestão para as operações ilegais e fraudulentas de Daniel Vorcaro no mercado. Não agiu porque Vorcaro fazia parte do esquema bolsonarista. Ele foi o maior contribuinte isolado da campanha de Jair Bolsonaro. Precisou a ação da PF sob o governo Lula, na operação Compliance Zero, para parar a roubalheira e colocar o banqueiro na cadeia.
O Banco Central, já sob a gestão de Gabriel Galípolo, impediu a compra do Master pelo BRB e decretou a liquidação do banco. Daniel Vorcaro foi preso e acusado de dar um golpe de mais de R$ 50 bilhões na praça.
A vinculação de Vorcaro com o bolsonarismo ficou ainda mais evidente quando o senador Ciro Nogueira saiu em campo para tentar viabilizar de qualquer maneira a compra do Master pelo BRB. Chegou a articular, junto com o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), um projeto para demitir o diretor do BC que impediu a negociata. Não satisfeito, tentou elevar as garantias do FGC para um milhão de reais. Mensagens recentes, obtidas pela PF, mostram Vorcaro comemorando com a namorada a emenda do “amigo” Nogueira.
Outros bolsonaristas também estavam vinculados à roubalheira de Vorcaro. Entre eles estava o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que privatizou a Emae e raspou o caixa da empresa para transferir R$ 260 milhões para o Master. Também o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que autorizou a injeção de R$ 1 bilhão dos aposentados do estado no banco de Vorcaro.
É realmente ridículo a oposição bolsonarista, e seus porta-vozes na mídia, tentarem jogar o escândalo do Master para o governo ou o Supremo Tribunal Federal (STF). É o cúmulo de cinismo um deputado que foi flagrado viajando para cima e para baixo no jatinho particular de Daniel Vorcaro, como foi o caso de Nikolas Ferreira, colega de Vorcaro na Lagoinha, discursar acusando Alexandre de Moraes e Lula pelo escândalo e a roubalheira no Master.
Mais irônico ainda é que um ofício mostra que o Master recebeu uma espécie de ultimato da autoridade monetária sob a gestão do ex-presidente Roberto Campos Neto um ano antes de ser liquidado. Já havia denúncias gravíssimas contra o banqueiro e Campos Neto disse: você tem um ano pra resolver tudo isso. Foi muita cara de pau. Precisou o governo Lula e a nova direção do Banco Central para liquidar o banco em 2025. Essa é que é a verdade. O resto é pura picaretagem dos bolsonaristas.
SÉRGIO CRUZ











