Galípolo blinda bolsonarista Campos Neto das fraudes do Master

Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, atua para blindar seu antecessor, Roberto Campos Neto, ao impor sigilo a documentos que podem esclarecer como o banqueiro Daniel Vorcaro adquiriu, em 2019, o controle do Banco Máxima – instituição que já estava sob suspeita de práticas fraudulentas no sistema financeiro. Essa negociata entre o banqueiro Saul Sabbá (antigo dono do banco) e Vorcaro foi aprovada na gestão de Campos Neto, oito meses após a administração anterior do BC ter vetado a operação, por unanimidade.

Segundo reportagem de Malu Gaspar, do jornal “O Globo”, sua equipe tenta desde 11 de fevereiro obter, via Lei de Acesso à Informação, a íntegra dos dois votos da diretoria do BC (na época do veto, presidida por de Ilan Goldfajn) e a que aprovou (já sob o comando de Campos Neto). Porém, a atual gestão do BC só enviou apenas os extratos dos votos.

No primeiro documento, de 13 de fevereiro de 2019, a colunista relata que a transferência de controle do banco Máxima para Vorcaro foi negada pela diretoria, por unanimidade. Segundo o  resumo, Vorcaro e seus sócios não conseguiram demonstrar a origem dos recursos utilizados na operação nem que tinham capacidade econômica e financeira para realizá-la. Naquela altura, destaca o colunista, “Vorcaro já havia apresentado a declaração de propósito de compra do Máxima ao BC três vezes desde setembro de 2017, mas só tinha recebido negativas”.

Em 28 de fevereiro de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro deu posse a Roberto Campos Neto como presidente do BC. Quase oito meses depois, em 14 de outubro do mesmo ano, Vorcaro finalmente conseguiu assumir o Máxima (em seguida renomeado de Master). 

No extrato liberado pelo BC apenas consta que a diretoria aprovou a transferência de controle, por unanimidade, porque o pedido atendia o disposto em lei. Pelo resumo, também destaca Gaspar, “não é possível saber de onde vieram os recursos que faltavam antes, nem qual a sua origem”.

Segundo a jornalista, o BC se negou a oferecer o material, alegando que ele contém informações protegidas por sigilo bancário e dados estratégicos que poderiam gerar “vantagem competitiva indevida a terceiros e possivelmente comprometer a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional”.

“Nós recorremos, solicitando que se avaliasse a possibilidade de encobrir com tarjas as informações pessoais protegidas por sigilo, mas o BC repetiu a mesma justificativa”, explicou a jornalista.

SIGILO

Outros órgãos de imprensa também  têm buscado obter acesso aos documentos de liquidação extrajudicial do Banco Master, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), mas sem sucesso. Isso porque o Gabriel Galípolo classificou como secretos os documentos. O sigilo sobre os processos vale por oito anos. Assim, somente em 2033 é que os brasileiros poderão conhecer os documentos do caso Master – já considerado o maior escândalo de fraude do sistema financeiro.    

De acordo com o BC, a divulgação imediata dos documentos do caso Master iria contra o “interesse público na preservação da estabilidade financeira, econômica e monetária do país”. Outro argumento, jurídico do BC, é que a exposição desses documentos também podem comprometer atividades de inteligência, bem como de investigação ou fiscalização em andamento, relacionadas com a prevenção ou repressão de infrações.

Antes da sua venda, o Máxima já era conhecido por envolvimento em esquemas de fraudes. Uma denúncia do Ministério Público Federal aponta que, entre 2014 e 2016, o ex-dono do banco, Saul Sabbá, praticou crimes contra o sistema financeiro nacional, por meio de simulações e fraudes. 

A Justiça chegou a condenar Sabbá no início de 2025 por gestão fraudulenta do Banco Máxima. No entanto, para substituir a condenação por uma pena alternativa (multa e serviços comunitários), o banqueiro admitiu que cometeu crimes e firmou acordo de não persecução penal, que foi homologado pela Justiça Federal de São Paulo, em fevereiro deste ano.

Daniel Vorcaro foi preso em 18 de novembro do ano passado – quando tentava sair do país – na Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF), que apura fraudes em instituições financeiras. Vorcaro chegou a ser solto alguns dias depois por decisão da Justiça, mas voltou a ser detido em 4 de março de 2026, na terceira fase da mesma operação, por determinação do STF (Supremo Tribunal Federal), a pedido da PF, que apontou que a organização criminosa continuava atuando.

É verdade que foi a gestão de Gabriel Galipolo que determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master. No entanto, Galipolo parece não medir esforços para proteger Campos Neto. 

Na semana passada, ele chegou a declarar que não há nada que aponte alguma culpa do seu antecessor no tratamento do caso do Banco Master.

“Não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-presidente Roberto Campos”, comentou, durante audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do crime organizado, no Senado, onde foi questionado sobre a atuação de Campos Neto no BC em relação ao banco de Daniel Vorcaro.

Contudo, a postura do BC sob a gestão Roberto Campos sinaliza que a autoridade monetária optou por deixar o Master livre com seus crimes. Segundo revelou uma reportagem do “Estado de São Paulo”, de janeiro deste ano, Campos Neto incluía apenas estratégias de mercado, com foco na separação de ativos bons e ruins (“good bank” e “bad bank”), além de notificações preventivas e um “ultimato informal” para uma solução definitiva, cujo prazo se estendia até março de 2025, meses após o fim de seu mandato.

O Master apresentou uma expansão atípica, saltando de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões em ativos nominais, sem considerar a inflação, de acordo com dados do próprio BC. Curiosamente, esse período coincide com o tempo que Campos Neto presidiu o BC, entre 2019 e 2024.

Relatórios enviados ao TCU indicam que Campos Neto atuou pessoalmente em pelo menos duas ocasiões em 2024 para evitar medidas drásticas contra a instituição, mesmo diante do agravamento da crise e do descumprimento de depósitos compulsórios.

Além disso, uma norma editada por Campos Neto em 2023 sobre a contabilização de precatórios criou uma brecha que favoreceu o balanço do Master, desobrigando o banco de realizar novos aportes de capital ou vender ativos e permitindo que a instituição continuasse operando apesar das fragilidades detectadas pela fiscalização.

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