Stalin construiu o socialismo na URSS e livrou o mundo do fascismo. Trechos das memórias de Lazar Kaganóvitch, que temos a satisfação de publicar hoje no HP, revelam as repercussões no PCUS da partida do grande dirigente comunista. Elas descrevem também com detalhes os primeiros passos da traição kruchoviana
Há exatos 73 anos o mundo se despedia de Josef Stalin, o construtor do socialismo na União Soviética. Ele não só foi responsável pela industrialização acelerada do país, pela modernização da agricultura e a derrota de Hitler, como colocou a URSS na vanguarda mundial da tecnologia e do desenvolvimento social.
Para lembrar Stalin e homenageá-lo nessa data, publicamos alguns trechos das memórias de Lazar Kaganóvitch, seu companheiro de lutas e de governo. Os trechos selecionados são referentes ao final da vida do grande dirigente da União Soviética e de como o partido reagiu à sua partida. Estes trechos selecionados da biografia de Kaganóvitch também nos trazem os relatos dos primeiros passos de Nikita Khruchov rumo à traição ao socialismo, que acabou sendo efetivada no XX Congresso do PCUS, em 1956.
Mais do que revolucionar profundamente a economia e a política da Rússia e construir a poderosa União Soviética, Stalin resolveu na prática uma grande questão teórica da ciência marxista, que ainda não tinha sido colocada pela vida prática aos revolucionários. Encontrar os caminhos para a distribuição da produção social – agora não mais apropriada pelos exploradores -, dirigindo-a para os novos donos dos meios de produção, ou seja, aos trabalhadores. (leia mais aqui)
Assim como, no feudalismo, a renda da terra se dirigia automaticamente para os senhores feudais e os lucros, para os burgueses, no capitalismo, se colocava para os marxistas o desafio de encontrar os caminhos que garantissem que a renda social, produzida coletivamente – antes apropriada por uma ínfima minoria -, chegasse automaticamente às mãos da nova classe produtora, que se tornara dona dos meio de produção. A questão já havia sido percebida durante a NEP e foi resolvida definitivamente em meados da década de 30.
Stalin compreendeu esta questão teórica fulcral para o desenvolvimento do socialismo na URSS ao criar as duas escalas de preços. Com ela e com a política de redução sistemática de preços para a população e a ampliação constante de um fundo social de bens e serviços gratuitos para o conjunto da sociedade, iniciou-se o sistema socialista na URSS. Ele percebeu que este é o único caminho para a distribuição da renda social.
O modelo de duas escalas de preços garantiu o avanço das forças produtivas e a distribuição socialista da renda social, segundo o trabalho. Os meios de produção deixaram de ser mercadorias e seus preços passaram a ser determinados segundo os custos de produção, enquanto os bens de consumo final, eram vendidos no mercado. Neste setor mantinham-se as relações monetário-mercantis e atuava a lei do valor.
A lei do valor ficou restrita apenas ao mercado de bens de consumo popular e a economia passou a ser impulsionada pelo plano e pela busca incessante de reduções nos custos de produção e, consequentemente, dos preços finais. A renda social criada pela produção coletiva passou a se materializar no imposto sobre a circulação, criado para imediatamente ser distribuída pelo Estado através da redução sistemática de preços e do crescimento constante do fundo social.
Iniciava-se um longo período de transição da distribuição da renda social segundo o trabalho para a distribuição segundo a necessidade, uma característica que Marx descreveu como pertencente ao período comunista.
Stalin lutou também até os últimos dias de sua vida para romper o cerco econômico que o imperialismo logrou impor ao campo socialista. Ele considerava isso fundamental para libertar a humanidade do domínio imperialista. Stalin comemorou muito o sucesso da Conferência Econômica de Moscou de 1952.
Esta reunião foi realizada em de 3 a 12 de abril de 1952. A URSS e o Conselho de Assistência Econômica Mútua propuseram a criação de um mercado comum para bens, serviços e investimentos de capital de países socialistas e em desenvolvimento como contrapeso à expansão econômica e política dos Estados Unidos. No total, 49 países participaram deste fórum. A Índia enviou 28 pessoas, Argentina e Indonésia 15 pessoas cada. Participaram também empresários, analistas e autoridades do Reino Unido, França, Itália, Dinamarca, Noruega, Canadá, Turquia, Alemanha, Japão, Benelux, Brasil, Arábia Saudita, Austrália, Libéria.
Em resumo, foi em abril de 1952 que começou em Moscou a formação de um mercado comum “não-dólar” de países socialistas e em desenvolvimento. As ideias de Stalin, apresentadas na conferência de Moscou, encontraram apoio até mesmo na Grã-Bretanha.
O ódio da oligarquia financeira e da reação ao gigantesco trabalho desenvolvido por Stalin e a grande campanha de difamação que se fabricou contra ele se devem não apenas à transformação da Rússia de um país atrasado numa grande potência e de o Exército Vermelho ter feito a poderosa máquina de guerra nazista virar pó. Não foi só por isso. Foi pelo fato do dirigente revolucionário ter desvendado pela primeira vez no mundo os caminhos para a construção efetiva da economia e da sociedade socialista.
Não por outro motivo, foi exatamente esse sistema que foi atacado violentamente, primeiro por Khruchov, depois por Kosygin e Lieberman e, finalmente, pelos traidores mais escrachados, Gorbachov e Yeltsin. Para fazer isso, eles precisaram atcar a imagem e os feitos de Stalin. Hoje quem está destruído são eles.
Confira abaixo os principais trechos das memórias de Lazar Kaganóvitch!
SÉRGIO CRUZ
LAZAR KAGANÓVITCH

A partida de Stalin
Stáline morreu inesperadamente. Apesar de, no último período da sua vida, alguns de nós visitarem a sua casa com menor frequência, nas reuniões e sessões oficiais víamos que Stalin tinha bom aspecto, não obstante o cansaço da guerra.
Estava ativo, vigoroso e como sempre conduzia o debate dos assuntos com vivacidade e riqueza. Quando durante a noite me chamaram à datcha «Blíjnaia», encontrei lá Béria, Khruchov e Malenkov. Disseramme que Stalin tinha sofrido um ataque, estava paralisado e perdera a faculdade de falar, que tinham chamado os médicos. Fiquei transtornado e chorei. Pouco depois chegaram os restantes membros do Politburo: Vorochílov, Mólotov, Mikoian e outros. Chegaram os médicos chefiados pelo ministro da Saúde. Quando entramos no quarto onde Stalin estava deitado com os olhos fechados, ele abriu os olhos e passou-os por nós, examinando-nos um a um.
Por este olhar era visível que conservava a consciência, tentou dizer algo, mas não conseguiu e fechou novamente os olhos. Todos nós, com grande dor e pesar, olhávamos para Stalin que se encontrava num estado grave. Durante alguns dias travou-se a luta pela vida de Stalin, os médicos fizeram todo o possível. Os membros do Politburo mantiveram-se lá durante todo esse tempo, ausentando-se apenas por breves períodos. Quando a morte adveio, em 5 de Março, juntamo-nos para elaborar um apelo aos membros do partido e aos trabalhadores da União Soviética. Neste apelo manifestamos profundos sentimentos de amargura, pesar e sofrimento a todo o partido e ao povo.
No apelo do CC, do Conselho de Ministros e do Presidium do Soviete Supremo afirmava-se: «Deixou de bater o coração do companheiro e continuador da obra de Lenin, o sábio líder e mestre do Partido Comunista e do povo soviético, Iossif Vissariónovitch Stáline.
PARTIDO DOS COMUNISTAS
Juntamente com Lenin, o camarada Stalin criou o poderoso partido dos comunistas, educou-o e orientou-o. Juntamente com Lenin, o camarada Stalin foi o inspirador e líder da Grande Revolução Socialista de Outubro, fundador do primeiro Estado socialista do mundo. Prosseguindo a obra universal de Lenin, o camarada Stlin conduziu o povo soviético à vitória histórica, com significado mundial, do socialismo no nosso país. O camarada Stalin conduziu o nosso país à vitória sobre o fascismo na Segunda Guerra Mundial, que alterou radicalmente toda a situação internacional. O camarada Stalin muniu o partido e todo o povo com um programa claro de construção do comunismo na URSS.

A morte do camarada Stalin, que dedicou toda a sua vida ao serviço abnegado da grandiosa causa do comunismo, constitui uma penosa perda para o partido, para os trabalhadores do País dos Sovietes e para todo o mundo».
O apelo do CC e do Governo não só expressou sentimentos de pesar, mas também proclamou os mais importantes objetivos da política futura, dos quais o principal «constitui a política inabalável de manutenção e consolidação da paz», a fidelidade ao internacionalismo proletário, a luta pela causa da paz, pela democracia e o socialismo, e, sobretudo, – «preservar a unidade do partido, reforçar ainda mais a ligação do partido com todas as massas trabalhadoras, pois é nesta ligação inquebrantável com o povo que reside a força e a invencibilidade do nosso partido».
Particularmente importante para a compreensão deste momento é o fato de que o apelo do CC e do Governo por motivo da morte de Stalin foi elaborado e aprovado unanimemente, por todos os membros do CC, do Governo e da esmagadora maioria do partido e do povo soviético.
Recordo-me do seguinte episódio: juntamente com Khruchov fui integrado na comissão encarregada de organizar o funeral de Stalin. Quando seguíamos no automóvel que transportava o corpo de Stáline, Khruchov tocou-me na mão e disse: «Lazar, como iremos viver e trabalhar sem Stalin? Vai ser difícil para nós.» Lembro-me da minha resposta: «Em 1924, quando morreu Lenin, a situação no país e no partido era mais difícil: havia a NEP, os nepman, o restabelecimento da economia destruída ainda não estava concluído, no partido agiam as oposições trotskista e outras, e no entanto não só sobrevivemos como conseguimos avançar, e de que maneira, porque os quadros fiéis ao leninismo uniram-se em torno do CC, que conduziu o partido pela via do leninismo. Se nos mantivermos firmemente nesta via do leninismo, pela qual Stalin nos conduziu, sobreviveremos e conseguiremos dar passos em frente com êxito.» Khruchov apertou-me a mão e disse: «Tens razão, camarada, seguiremos juntos nesta via pela qual nos conduziu Stalin.»
Khruchov, como todos nós, participou ativamente na redação do apelo do CC. Não penso que, nessa altura, Khruchov tenha procedido com sinceridade e sem astúcia como alguns supõem.
Em 7 de Março de 1953 foi convocada uma sessão conjunta do Plenário do CC do PCUS, do Conselho de Ministros da URSS e do Presidium do Soviete Supremo da URSS, na qual foi aprovada uma importante resolução.
Na parte introdutória desta resolução sublinhava-se, em particular, que «neste período difícil para o nosso partido e para o país, a tarefa mais importante do partido e do governo é garantir uma direção regular e justa da vida do país, o que, por sua vez, exige uma grande coesão da direção, a não admissão de quaisquer divisões ou pânico, com vista a deste modo garantir incondicionalmente a aplicação com êxito da política definida pelo nosso partido e pelo governo, tanto nos assuntos internos como nas questões internacionais».
UNIDADE
Nem é preciso referir a enorme importância desta resolução para a coesão do partido e dos povos soviéticos. Proclamando a sua fidelidade à política até então seguida, o CC partia naturalmente do método dialético leninista de acompanhar as necessidades reais da vida e introduzir complementos e alterações às decisões e métodos de trabalho adotados. Um exemplo desta atitude verificou-se logo na constituição dos órgãos de direção, em cuja estrutura o CC procedeu a sérias alterações. Em vez de dois centros de direção do CC – o Presidium e o Bureau – foi criado um único órgão – o Presidium do Comité Central, que equivalia, no essencial, ao Politburo.
Da mesma forma, no Conselho de Ministros, em vez de dois órgãos – o Presidium e o Bureau – foi criado um único órgão – o Presidium do Conselho de Ministros.
Sem divergências e discussões (ao contrário do que hoje pretendem alguns embusteiros) foi definida a composição da direção. Para o Presidium do CC foram eleitos os camaradas Malenkov, Béria, Vorochílov, Mólotov, Kaganóvitch, Khruchov, Bulgánine, Mikoian, Sabúrov e Pervúkhine. Eram candidatos os camaradas Chvernik, Ponomarenko, Melnikov e Baguirov. Vorochílov foi eleito presidente do Presidium do Soviete Supremo e Chvernik foi recomendado para o lugar de Presidente do Conselho Central de Toda a União dos Sindicatos. Gueórgui Maksimiliánovitch Malenkov foi nomeado presidente do Conselho de Ministros da URSS e os camaradas Mólotov, Béria, Bulgánine e Kaganóvitch designados primeiros vice-presidentes do Conselho de Ministros. Mólotov foi nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros; Mikoian, ministro do
Ministério unificado do Comércio Interno e Externo; Bulgánine, ministro da Guerra; Béria, ministro do Ministério unificado do Interior e da Segurança do Estado; Pervúkhine, ministro do Ministério unificado das Centrais Eléctricas e da Indústria Eléctrica; Sabúrov, presidente do Gosplan.
Khruchov foi transferido para as funções permanentes de secretário do CC, sendo libertado das funções de secretário do Comité de Moscovo. Grande importância teve a decisão aprovada na mesma resolução sobre a diminuição do número de ministérios mediante a sua fusão.
O Soviete Supremo ratificou todas estas recomendações do CC e do Governo na sessão realizada em 14 de Março. Nesse dia teve também lugar o Plenário do CC que satisfez o pedido de Malenkov de ser libertado das funções de primeiro secretário do CC devido à dificuldade em conjugar estas funções com as de presidente do Conselho de Ministros. O Plenário elegeu o Secretariado do CC, no qual entraram os camaradas Khruchov, Suslov, Pospelov, Chatáline e Ignátiev, sem definição do primeiro secretário.
O CC e o Conselho de Ministros desenvolveram um intenso e frutuoso trabalho de direção do país, do partido e da economia. Em Setembro de 1953 realizou-se o Plenário do CC, que ouviu e debateu o relatório de Khruchov sobre «As Medidas de Desenvolvimento Ulterior da Agricultura». O CC aprovou a correspondente resolução elaborada pelo Presidium do CC. Na preparação desta resolução participaram todos os membros do Presidium do CC, em particular, Khruchov, Malenkov, Kaganóvitch, Mólotov e Andréiev.
Khruchov, primeiro secretário do CC
Passado meio ano, por volta de Março de 1954, o CC debateu novamente a questão da agricultura e aprovou uma resolução com medidas práticas para o aumento subsequente da produção de cereais no país e a exploração das terras virgens e baldios. Nesta resolução foi feita uma apreciação ainda mais crítica que na anterior resolução com as correspondentes conclusões. O CC e o Governo elaboraram medidas para o melhoramento da situação do campesinato kolkhoziano, em particular, a diminuição de impostos, e incumbiram Malenkov de apresentar um relatório ao Soviete Supremo (atualmente isto é atribuído a Khruchov). Mobilizador foi também o trabalho do CC e do Conselho de Ministros tanto no domínio da indústria como em matéria de aperfeiçoamento das condições da vida interna partidária. Numa palavra, pode-se dizer que se o estilo de trabalho de Khruchov, neste primeiro ano como primeiro secretário, se tivesse mantido nos anos de 1955/1956 e seguintes, os resultados teriam sido outros.
INÍCIO DA TRAIÇÃO
Porém, passado pouco tempo da sua eleição como primeiro secretário do CC, Khruchov começou a agir como se quisesse dizer-nos: «Pensam então que não sou um “verdadeiro”primeiro secretário, mostrar-vos-ei que sou “verdadeiro”», e a par de aspectos bons, de iniciativas positivas, começou a fanfarronar-se. É oportuno contar aqui como decorreu a eleição de Khruchov para o cargo de primeiro secretário. De Março a Setembro, Khruchov era um dos secretários do CC, o Secretariado funcionava de modo coletivo e, além do mais, considero que funcionava bem. Durante o Plenário de Setembro do CC, num intervalo entre sessões, na sala de repouso onde habitualmente os membros do Presidium trocavam opiniões sobre um ou outro assunto, Malenkov disse inesperadamente para todos: «Proponho a eleição de Khruchov neste Plenário para primeiro secretário do CC».

Digo «inesperadamente» porque normalmente éramos informados previamente de assuntos de tão grande importância. Quando depois perguntei a Malenkov por que razão não tinha falado a ninguém desta proposta, ele disse-me que pouco antes do plenário começar, Bulgánine foi ter com ele e instou-o a apresentar a proposta da eleição de Khruchov para primeiro secretário do CC. «”Caso contrário”», disse Bulgánine, «“eu próprio apresentarei a proposta”. Pensei que Bulgánine não agia sozinho», disse Malenkov, «e decidi apresentar a proposta». Na reunião, Bulgánine foi o primeiro a gritar com entusiasmo: «Vamos decidir!» Os outros concordaram discretamente, e evidentemente que não o fizeram, como hoje alguns podem dizer, porque receavam opor-se, mas simplesmente porque, se a questão era eleger o primeiro secretário, então não havia outra candidatura – assim eram as coisas.
Devo dizer que eu conhecia Khruchov melhor e mais e há mais tempo que todos, com as suas facetas positivas e negativas. Pode dizer-se que estive diretamente relacionado com a apresentação e promoção de Khruchov para cargos partidários de direção desde 1925 (sobre este processo ainda irei referi-me em particular). Considerava-o, e mantenho essa opinião, como um quadro do partido em crescimento de origem operária, com capacidade para se tornar uma figura dirigente à escala de um oblast, de um krai, de uma república, e se integrar na direção colectiva à escala de toda a União. Mas não estava convencido das suas capacidades para desempenhar o papel de primeiro secretário do CC do PCUS, tendo em conta, sobretudo, o seu nível teórico cultural insuficiente, apesar de, através de um trabalho intenso, como se costuma dizer, essa questão compõe-se. De resto, ele tinha uma sólida experiência prática.
Em qualquer atividade, e muito mais no trabalho de um quadro em promoção, é preciso testar as pessoas na prática, no processo do seu crescimento e desenvolvimento. Aqui o principal foi que, nas condições criadas, não tínhamos outra candidatura no Secretariado. Por isso, todos nós votamos a favor da proposta com a intenção firme de ajudar Khruchov, por todos os meios, a assimilar o novo papel.
CASUALIDADE E NECESSIDADE
Assim, no caso da candidatura de Khruchov como primeiro secretário do CC entrelaçaram-se a casualidade com a necessidade. Sem entrar aqui nas profundezas da filosofia, deve-se assinalar que o materialismo dialético marxista leninista parte do fato de que a necessidade histórica natural não exclui a casualidade, que esta constitui um complemento e uma forma de manifestação da necessidade. A casualidade pode existir ou não, e não decorre forçosamente da necessidade histórica, das leis do desenvolvimento, mas, em regra, a casualidade e a necessidade estão interligadas. Houve casos na história em que indivíduos promovidos «casualmente» cresceram, desenvolveram-se no processo da sua atividade, apoiando-se e acompanhando o processo histórico objetivo da necessidade natural, e amadureceram enquanto chefes.
Todavia, sempre que os indivíduos promovidos casualmente ignoraram as leis objetivas e as necessidades da sociedade, sempre que a manifestação da vontade subjetiva, o voluntarismo, se sobrepôs à necessidade objetiva e à consciência científica, permitindo que o cérebro fosse invadido por ervas daninhas, a planta não amadureceu e o fracasso deste indivíduo promovido acidentalmente tornou-se inevitável.
Lamentavelmente foi precisamente isto que aconteceu com Khruchov. Trata-se aqui não das funções, mas da essência do comportamento na direção político partidária, não obstante terem existido também aspectos positivos na sua atividade, apesar até das suas capacidades e inteligência natural, anteriormente reforçada pela modéstia, mais tarde minada pela presunção e o voluntarismo.
O Presidium do CC, constituído por Vorochílov, Molotov, Kaganóvitch, Mikoian, Malenkov, Khruchov, Bulgánine, Sabúrov e Pervúkhine funcionava coletivamente e reunia regularmente com frequência. Os membros do Presidium não se limitavam a examinar os assuntos, mas participavam na preparação das decisões e, quando, após o debate havia alterações importantes, participavam nas comissões encarregadas da redação final das decisões do CC. Deve dizer-se que, no que respeita à formulação das questões e à sua preparação, Khruchov, enquanto primeiro secretário, desempenhava naturalmente um papel ativo, em particular nas questões da construção civil e da agricultura.
Deve também dizer-se que Khruchov desempenhou um papel importante no desenvolvimento da construção civil numa escala mais ampla, em especial na introdução da construção por painéis e do betão. Quando era preciso pressionar os construtores, Khruchov fazia-o, e com frequência não pela via democrática, mas o Presidium do CC apoiava estas ações. É verdade que, no interesse da unidade, o Presidium teve uma reação fraca mesmo em relação aos erros cometidos por Khruchov, por exemplo, quando realçou desmesuradamente o papel dos construtores em detrimento da arquitetura, sob a consigna da inadmissibilidade dos exageros decorativos e da necessidade do embaratecimento, ignorando que o papel da arquitetura não se reduz ao embelezamento. Chegou mesmo a ser extinta a Academia de Arquitetura e aligeirou-se a inspeção arquitetural, o que conduziu à diminuição da qualidade da construção.
AJUDA DE BENEDIKTOV
No domínio da agricultura, Khruchov desenvolveu uma assinalável atividade. Evidentemente que ele não era um grande «especialista» no assunto, como depois o descreveram. Posso garantir que antes de ser secretário do Comité de Moscovo, ele conhecia pouco de agricultura, simplesmente porque sempre trabalhou em regiões industriais e urbanas. Antes de ser eleito secretário do Comité do Oblast de Moscovo, aconselhei-o a concentrar-se no estudo da agronomia e liguei-o estreitamente a Mikhálkov, secretário para a Agricultura do Comité de Moscovo, que era um conhecedor qualificado nesta área. Khruchov, diga-se, aceitou o meu conselho de boa vontade e empenhou-se no estudo da agronomia. Também foi ajudado por Benedíktov, que viria a ser comissário da Agricultura, e eu próprio, apesar de ter passado para o Comissariado das Vias de Comunicação, ajudei-o com conselhos. Quando se tornou primeiro secretário do CC disse-lhe que o primeiro mandamento do CC era prestar atenção prioritária à agricultura, ao campo, à aliança do proletariado com o campesinato.
E é preciso dizer que Khruchov dedicou-se ativa e diligentemente à agricultura, penetrou de forma ativa e empreendedora nas questões do fomento da agricultura, colocando-as nas decisões do CC. Lamentavelmente, foi aqui que começou mais cedo e com mais intensidade a revelar os seus traços excêntricos de sabichão. Isto levou-o, por exemplo, a insurgir-se contra os ensinamentos do grande cientista Víliams sobre a rotação das culturas, o que teve efeitos nefastos. Felizmente que localmente os práticos não seguiram esta «inovação» anti-Víliams, e que o Presidium do CC não a aprovou oficialmente, apesar de infelizmente não a ter abolido. Khruchov apoiou ativa e empenhadamente as pretensões erradas e sem fundamento de Lissenko de comandar a ciência da agronomia, sendo que Khruchov, como é evidente, percebia pouco desta ciência.
A questão do desenvolvimento da cultura do milho foi colocada justamente. Há muito que a questão fora colocada em particular na Ucrânia. Lembro-me de Rakóvski, quando ainda não era trotskista, baseando-se na sua grande experiência na Romênia, pugnar na imprensa e nas reuniões pelo desenvolvimento, por todos os meios, da cultura do milho. Khruchov bateu-se justamente pelo milho, mas não observou as exigências científicas, a possibilidade e racionalidade da sua implantação, e exigiu a expansão das culturas de milho por toda a parte, independentemente das condições locais, o que levou ao malogro desta boa ideia.
Lamentavelmente, estes erros de Khruchov fizeram malograr a própria ideia da cultura do milho, numa altura em que era necessário, eliminando os erros de Khruchov, implantá-la por todos os meios nas regiões com condições adequadas: na Ucrânia, Cáucaso, Moldávia, etc.
LIQUIDAÇÃO DAS MTS
A adoção pelo Comité Central e pelo Governo de determinadas medidas organizacionais de descentralização da direção dos kolkhozes, a concessão de mais direitos, foi uma decisão positiva e pertinente. Mas a liquidação das MTS (Estação de Tratores e Máquinas), sem a sua compensação por qualquer outra forma de ligação e assistência técnica aos kolkhozes, produziu resultados negativos. A própria descentralização – a atribuição de mais direitos aos kolkhozes sem medidas econômicas – não deu os resultados necessários. Naturalmente, Khruchov empenhou-se em apresentar uma série de propostas (incluindo propostas erradas) que foram aprovadas pelo Presidium. Mas estas medidas, que tinham sobretudo um caráter organizacional administrativo, não deram o correspondente e necessário resultado. Os clamores de Khruchov, que se reputava de democrata, tiveram um resultado inverso.
Khruchov envolveu-se ativamente no trabalho da agricultura. Protegeu e defendeu o movimento kolkhoziano e os sovkhozes e tomou medidas para a aplicação da referida resolução do Plenário do CC e outras. Mas, lamentavelmente, rapidamente a sua direção foi monopolizada pela agricultura e cometeu erros políticos que impediram o cumprimento das decisões do CC.
Um destes erros foi a linha de liquidação dos kolkhozes de pequena dimensão, com as respectivas vilas e aldeias, e a construção de grandes aglomerados rurais. Na ideia de Khruchov, estes aglomerados deviam ser construídos à imagem dos aglomerados de tipo urbano, com edifícios de vários andares, sem parcelas rurais, sem vacas, avicultura e outras produções familiares, o que contradizia o Estatuto dos Artéis Agrícolas, aprovado com a participação pessoal de Stalin em 1935.
Isto conduziu seguidamente à ruína de milhares de pequenas vilas e aldeias e à não construção dos aglomerados kolkhozianos. Daqui também resultou um êxodo massivo de camponeses para as cidades, que começou com Khruchov e prosseguiu com Bréjnev. Disse pessoalmente a Khruchov que não se podia fazer tal coisa, que era possível, dada a necessidade de aumentar a dimensão dos kolkhozes, criar brigadas kolkhozianas nos kolkhozes de pequena dimensão, sem liquidar as vilas e aldeias habitadas, mas ele já tinha «o freio nos dentes» e não levava em conta os conselhos. O próprio Presidium do CC não suspendeu este processo no seu conjunto. Isso foi um erro.
Se os êxitos de Khruchov e dos seus «próximos» eram atribuídos ao próprio Khruchov, já face a insucessos ele gostava de procurar culpados alhures. E se até ao final da primeira metade de 1955 observou as normas da direção colectiva, a partir da segunda metade desse ano começou a violá-las grosseiramente. Revelava cada vez mais uma excentricidade no sentido de «fora de série» ou a ânsia de se evidenciar, como explica o dicionário esta palavra.
O primeiro a quem Khruchov quis demonstrar que era um «verdadeiro» líder e dirigente foi o presidente do Conselho de Ministros, Malenkov, pessoa capaz, modesta, prática e rabugenta, mas uma figura de princípios quer do ponto de vista do Estado quer do partido.
SAÍDA DE MALENKOV
É possível encontrar deficiências no trabalho de qualquer um, mesmo do dirigente mais aplicado, sobretudo quando o líder do partido se empenha nisso. Em suma: depois de vários ataques contra Malenkov, Khruchov propôs a sua exoneração das funções de presidente do Conselho de Ministros. É preciso dizer que os membros do Presidium, incluindo eu próprio evidentemente, que o conhecia no seu lado melhor pelo trabalho no Comitê de Moscovo e no CC, inicialmente não concordamos com esta proposta de Khruchov, mas depois, perante a sua reiterada e insistente apresentação, para não provocarmos uma crise na direção do CC, concordamos com a exoneração de Malenkov, mantendo-se embora como membro do Presidium do CC enquanto destacado dirigente do partido.
Khruchov propôs Bulgánine para presidente do Conselho de Ministros, apesar de a candidatura de Mólotov devesse ter sido considerada mais natural. Alguns camaradas admitiram que Khruchov contava com uma permanência breve de Bulgánine neste posto. Por exemplo, passado pouco tempo de Bulgánine tomar posse, quando nós, membros do Presidium, visitamos a exposição de produtos da indústria ligeira, Khruchov atirou-se publicamente a Bulgánine a propósito de uma qualquer observação feita por ele sobre seda artificial: «Vêem, é presidente do Conselho de Ministros e não percebe nada da economia, só diz disparates», etc.
Ficamos estarrecidos com tal tirada de Khruchov, tanto mais que Bulgánine, antes de ser presidente do Soviete de Moscovo, tinha sido diretor de uma grande fábrica de material elétrico da capital, ou seja, era um gestor econômico experiente, enquanto Khruchov, nessa altura, ainda desconhecia em absoluto as questões da economia. Todavia, em nome da unidade, deixamos passar também este ataque.

Nas sessões do Presidium do CC, os assuntos da política externa eram discutidos regularmente. Mólotov, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, apresentava as suas propostas que eram em grande parte aprovadas. Mas Khruchov, que justamente passou a dar atenção às propostas de Mólotov, embora menos competente nestes assuntos, levou as coisas a tal ponto que propôs a exoneração de Mólotov do posto de ministro dos Negócios Estrangeiros. Pessoalmente manifestei-me contra, demonstrando que Mólotov não só possuía uma grande experiência em política externa, como tinha uma grande firmeza na defesa dos interesses da nossa Pátria. Todavia, como o próprio Mólotov declarou que estava disposto a mudar de funções, o Presidium do CC libertou-o do Ministério dos Negócios Estrangeiros e nomeou-o ministro do Controlo Estatal.
ATAQUES A MOLOTOV
Posso ainda referir aqui outro episódio. Aconteceu ainda em 1954, na Crimeia, onde estava a descansar com Khruchov, Mólotov e Vorochílov, com os quais naturalmente tinha encontros. Uma vez durante um passeio pelo parque perguntei a Khruchov como ia o trabalho e ele respondeu-me: «Razoavelmente, mas Mólotov não tem consideração por mim, por isso temos relações tensas.» Disse-lhe que ele estava errado, Mólotov era uma pessoa honesta, um militante ideologicamente convicto e incapaz de se dedicar a intrigas. «Devias analisar-te criticamente a ti próprio. Não será que és tu que atacas com demasiada frequência e ligeireza tanto Mólotov como as suas propostas? Se alterares a relação para com ele tudo acabará.» Infelizmente, Khruchov não seguiu este meu conselho.
Como é compreensível, o trabalho desenvolvido entre o XIX e o XX congressos tocou todos os aspectos da vida do partido e do país, abrangendo a indústria, a cultura ou ainda a vida do partido. Foi desenvolvido um grande trabalho sobre o qual, por incumbência do Presidium do CC, o primeiro secretário do CC, o camarada Khruchov, elaborou o relatório ao XX Congresso.
Preparamos e chegamos unidos ao XX Congresso do partido. O relatório do CC refletia o trabalho de todo o CC, do seu Presidium, e a sua linha de princípio. Todos os membros do Presidium trabalharam com esmero no projeto de relatório, discutindo-o várias vezes. Durante a discussão do projeto no Comité Central foram introduzidas várias alterações. Não vou aqui alargar-me sobre a natureza dessas alterações, algumas das quais incidiam sobre questões de princípio. Na série de alterações que fiz, estavam, por exemplo, as seguintes: propus que, na passagem do relatório onde se refutavam as mentiras dos imperialistas sobre o alegado propósito da União Soviética de implantar o comunismo por via da exportação da revolução, fosse acrescentado: «A luta pelo socialismo e o comunismo travava-se nos países capitalistas muito antes do surgimento da União Soviética. A luta do proletariado pelo socialismo e o comunismo decorre das próprias contradições de classe do sistema capitalista. O marxismo-leninismo fundamentou cientificamente a inevitabilidade da vitória do socialismo e do comunismo muito antes da Revolução Socialista de Outubro na Rússia. Decorre daí a nossa convicção de que mesmo sem exportação da revolução esta vitória acontecerá. Repudiamos a “exportação da revolução”, sabendo pela história que a revolução vence como resultado das agudas contradições de classe internas criadas em cada país.»
OS COMUNISTAS E A GUERRA
Sobre a questão da guerra considerei ser necessário sublinhar que os comunistas, a força dirigente da União Soviética, aplicam a política leninista de paz há 40 anos e sempre se manifestaram e manifestam contra o desencadeamento de guerras, enquanto as potências imperialistas preparam a guerra e minam a causa da consolidação da paz entre os povos. Propus não entrar em polêmica a propósito da teoria marxista leninista sobre o imperialismo e a guerra, tanto mais que a tese posterior sobre inexistência da inevitabilidade fatal da guerra não permite afirmar que Marx e Lenin teriam alegadamente falado em inevitabilidade fatal da guerra. Pelo contrário, Lenin, por exemplo, sempre lutou pela prevenção da guerra por via de enérgicas manifestações revolucionárias do proletariado mundial e das massas populares trabalhadoras que vão na sua esteira, bem como dos partidários da paz em geral.
Houve, evidentemente, outras alterações semelhantes. Todas foram apresentadas e discutidas sem qualquer exaltação ou ardor polêmico. E no relatório sublinhava-se: «O nosso partido está unido como nunca, com fileiras cerradas em torno do Comité Central, e conduz firmemente o país pela via indicada pelo grande Lenin. A unidade do partido foi construída ao longo de anos e de décadas, cresceu e reforçou-se na luta contra os múltiplos inimigos.» (Isto refuta a afirmação posterior, em Junho de 1957, de que alegadamente o grupo de Malenkov, Kaganóvitch, Molotov e Chepílov, que se juntou a eles, socavou a unidade desde o momento da designação de Khruchov como primeiro secretário do CC).
O XX Congresso aproximava-se do seu fim. Mas, de repente, fez-se uma pausa. Os membros do Presidium são chamados à sala nas traseiras que servia para descansar. Khruchov coloca a questão de ler no Congresso o seu relatório sobre o culto da personalidade de Stalin e as suas consequências. Nesse momento é-nos distribuído um livrinho vermelho impresso em tipografia – era o projeto de texto do relatório.
A reunião decorreu em circunstâncias anormais – estávamos apertados, alguns sentados, outros de pé. Era difícil ler em pouco tempo aquele caderno volumoso e refletir sobre o seu conteúdo para se poder tomar uma decisão de acordo com as normas da democracia interna partidária. Tudo isto em meia hora, uma vez que a ordem de trabalhos do Congresso já estava concluída e os delegados permaneciam sentados na sala à espera de algo que desconheciam.
XX CONGRESSO
Refira-se que já antes do XX Congresso, o Presidium do CC tinha analisado a questão das repressões ilegais e dos erros cometidos. O Presidium do CC constituiu uma Comissão encarregada de investigar os processos dos reprimidos, que incluía deslocações às regiões, a elaboração de conclusões gerais e de propostas concretas.
Após o debate desta questão no Presidium foi proposto que o Plenário do CC reunisse depois do XX Congresso para ouvir o relatório da Comissão e as respectivas propostas.
Foi exatamente sobre isto que falaram os camaradas Kaganóvitch, Mólotov, Vorochílov e outros ao apresentarem as suas objeções. Além disso, os camaradas disseram que não podíamos, simplesmente, rever ali o relatório e efetuar as correções necessárias. Dissemos que mesmo uma leitura superficial mostrava que o documento era unilateral e errôneo. A ação de Stalin não podia ser vista só de um lado, era necessário mostrar de forma mais objetiva toda a sua obra positiva para que os trabalhadores percebessem e pudessem rechaçar as especulações dos inimigos do nosso partido e do nosso país.
A reunião prolongava-se, os delegados impacientavam-se, por isso terminamos sem nenhuma votação e voltamos ao Congresso. Foi então anunciado como aditamento à ordem de trabalhos a leitura do relatório de Khruchov sobre o culto da personalidade de Stalin. Depois do relatório não houve nenhuma discussão, e o Congresso encerrou os seus trabalhos.

Depois do XX Congresso, o partido realizou de forma organizada reuniões; todos os membros do Presidium do CC e membros do CC intervieram com relatórios e discursos. Nos relatórios abordaram-se todas as questões da ordem de trabalhos do Congresso e a última questão, não incluída na ordem de trabalhos, sobre o culto da personalidade. É importante sublinhar que os membros do Presidium Kaganóvitch, Mólotov, Vorochílov e outros, nos seus relatórios abordaram com honestidade e disciplinadamente a questão sobre o culto da personalidade, de acordo com a resolução do XX Congresso. As decisões do Congresso foram aprovadas nas reuniões. No entanto, não se pode deixar de assinalar que havia estados de espírito distintos entre os membros do partido.
Havia pessoas atarantadas e hesitantes em aprovar uma questão colocada de forma tão unilateral. Os inimigos do nosso partido utilizaram tudo isto para intensificar o seu anticomunismo, os apologistas do imperialismo e a emigração branca tornaram-se particularmente desbragados.
RELATÓRIO
Os nossos partidos comunistas irmãos viram-se numa situação difícil; a confusão e as vacilações no seu interior foram até mais fortes do que no interior do nosso partido. Ao examinar a informação que chegava, o Presidium do CC reconheceu a necessidade de uma exposição mais ampla e objetiva da questão do culto da personalidade de Stalin do que aquela feita no XX Congresso. Por isso, foi convocada uma conferência com a participação dos camaradas dos partidos irmãos para a elaboração de uma resolução comum sobre o culto da personalidade.
Depois de um debate sério e profundo, com a participação não só dos membros do Presidium do nosso CC, mas também de Thorez, Ulbricht, Rákosi e outros foi aprovada uma extensa resolução do Comitê Central, em 30 de Junho de 1956, «Sobre a Superação do Culto da Personalidade e das suas Consequências». Esta resolução teve uma grande importância.
Depois da aprovação desta resolução foram lidos relatórios nas reuniões do nosso partido e nos partidos irmãos. Os membros do Presidium do CC intervieram novamente e as organizações do partido realizaram em conformidade um grande trabalho de esclarecimentos junto das massas.
Tanto o partido como o povo valorizaram altamente o fato de o próprio partido e o seu CC revelarem de forma autocrítica os erros ocorridos e as ilegalidades cometidas, devido às quais, a par de verdadeiros inimigos do povo, sofreram pessoas inocentes. O povo soviético compreendeu bem as medidas tomadas pelo partido e pelo governo com vista a que isso não se repetisse no futuro. Entretanto, no trabalho prático, em particular no domínio da agricultura, as medidas eram insuficientes. Isto preocupou o Presidium do CC.
Sobre esta e uma série de outras matérias, houve discussões no Presidium do CC, designadamente com Khruchov, que depois do XX Congresso começou a «entrincheirar-se», violando os métodos coletivos de direção. Começou a comportar-se como se diz numa canção ucraniana: «Canto sozinho, passeio sozinho, faço a cama sozinho, e deitome sozinho. SOZINHO!» Isto não podia deixar de provocar descontentamento.
Junho de 1957
Espera-se-ia que depois do XX Congresso do partido o trabalho prático melhorasse, mas infelizmente tal não aconteceu. Depois do XX Congresso, os últimos resquícios de modéstia, que alguma vez Khruchov teve, desapareceram, como se costuma dizer, «se queres conhecer o vilão, põe-lhe uma vara na mão».
DIREÇÃO COLETIVA
Sentindo-se o «líder», em primeiro lugar deixou de preparar cuidadosamente os assuntos para as sessões do Presidium. A colegialidade da direção era violada grosseiramente, e o mais grave foi que isto conduziu a erros grosseiros em aspectos essenciais da direção política e econômica. Por exemplo, quando uma vez se deslocou a Górki, fomos informados de supetão que, no comício, cumprindo alegadamente a vontade manifestada pelos operários da cidade, havia anunciado que o prazo de reembolso de todos os títulos obrigacionistas da dívida do Estado seria prorrogado por 20 anos. É verdade que esta decisão foi depois tomada com base numa votação, feita através de inquérito por telefone, mas o caso foi criado pelo próprio Khruchov. É conhecido o descontentamento que isto provocou na população, para além de ter minado a confiança no Estado.

Desde há algum tempo que Khruchov começara a dar provas de atividade nas questões de política externa. É claro que isso era positivo. Eu próprio o aconselhei nesse sentido. Desde os tempos de Lenin que nenhuma questão de política externa era decidida à margem do Politburo, o próprio Stalin colocava todas estas questões no Politburo e ocupava-se delas pessoalmente. Também Khruchov, como primeiro secretário do CC, precisava de acompanhar estes assuntos. Inicialmente observou este procedimento, mas depois começou a indisciplinar-se. Demonstrando que «dominava a técnica» como um «perito» em diplomacia, Khruchov começou a introduzir alterações em quase todos os projetos do Ministério dos Negócios Estrangeiros ou então rejeitava-os liminarmente, sobretudo depois de Mólotov, por proposta sua, ter sido afastado do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros (apesar de seguir uma rigorosa política de paz).
Houve uma questão em que o Presidium não apoiou Mólotov, foi a questão da Jugoslávia. Mólotov resistiu ao restabelecimento das relações com a Jugoslávia, incluindo as relações entre estados. O Presidium do CC tomou a decisão de restabelecer as relações entre estados, mantendo as divergências em matéria ideológica e partidária. Khruchov foi mais longe e restabeleceu também as relações entre partidos, violando as diretivas do CC.
Khruchov «desenfreou-se» completamente, e começou a dar entrevistas a estrangeiros sem o acordo prévio do Politburo, isto é, violando o regime anteriormente estabelecido.
FIM DAS DISCUSSÕES
Subitamente, por exemplo, o Politburo foi informado de que Khruchov interveio na televisão sobre questões internacionais, sem antes ter dito nada a ninguém. Isto era uma violação grosseira de todos os fundamentos da direção do partido em assuntos externos. O Politburo nunca concedera a ninguém o direito de falar publicamente, sem a sua autorização e controlo prévios, mesmo a diplomatas altamente eruditos, tanto mais neste caso em que conhecíamos a competência insuficiente, a «graça» e expressividade da sua arte oratória, e estávamos preocupados com a possibilidade de que «fosse para o lado errado».
Colocamos esta questão no Presidium. A conversa foi longa e incisiva. Khruchov prometeu ao Presidium que não haveria mais casos semelhantes e respeitaria as regras daí em diante. Depois dos acontecimentos de 1957 e da mudança do Presidium, qual «amo» soberano, aboliu estas regras e passou a intervir por toda a parte, sem importar onde e como. Nessa altura já tinha a ajuda de funcionários «literários», «robôs» modernos que não paravam de escrever, e ele não parava de ler, em contrapartida a cabeça descansava.
O «talento» organizador de Khruchov revelou-se principalmente na «grande» reorganização do aparelho do Estado. Não vou aqui descrever em detalhe esta reorganização, ela é conhecida. Foram extintos quase todos os ministérios econômicos. Foram criados os Conselhos da Economia Nacional. Em si a ideia dos Conselhos da Economia Nacional poderia ter sido benéfica se os ministérios tivessem sido conservados, ainda que reduzidos, se estes Conselhos da Economia Nacional estivessem ligados aos centros de poder territorial, das repúblicas, dos oblast, e dispusessem de um determinado conjunto de empresas inteiramente sob a sua alçada. Isto no que toca sobretudo à indústria local em sentido lato. Mas se no início os Conselhos da Economia Nacional estavam próximos das divisões de oblast, em breve começaram a separar-se destas.
Alguns membros do Presidium do CC apresentaram a proposta de criar o Conselho Superior da Economia Nacional da URSS. Khruchov começou por declarar esta proposta como «uma resistência conservadora» a qualquer reforma, mas depois ele próprio passou a convocar os Conselhos da Economia Nacional das repúblicas, incluindo os da RSFSR, e mais tarde foi criado e organizado o Conselho da Economia Nacional de Toda a União. Em cada Conselho da Economia Nacional foram criados organismos de ramo e combinados territoriais, o que criou uma confusão total e permanente. Depois, quando a vida fez sentir que o moderno processo de especialização da indústria exige uma organização correspondente, em vez dos ministérios extintos foram criados os comités de ramo, inicialmente no quadro do Gosplan, depois como comités estatais autônomos, quase com as mesmas competências e funções dos ministérios (e para sublinhar a sua importância até foram chamados de ministérios, mas eram órgãos castrados e por conseguinte impotentes). Por isso, estes sucedâneos dos comitês estatais conjugados com Conselhos da Economia Nacional gigantes não puderam resistir à severa crítica da realidade da vida.
“REFORMAS”
No que respeita aos Conselhos da Economia Nacional locais, pessoalmente considerava que podiam existir organismos de administração econômica, com esta ou aquela designação, adstritos aos comités executivos de Oblast. Estes organismos deveriam ligar certos grupos de empresas: produtos de consumo geral, metalurgia, materiais de construção, indústria alimentar e outras, com vista a satisfazer uma parte significativa das necessidades da população local. Poderiam desempenhar um papel importante na cooperação territorial das empresas, por exemplo, na produção de peças para viaturas, em particular no transporte automóvel, e em geral reduziriam o número de transportes longínquos e em sentidos opostos. Estes organismos (Conselhos da Economia Nacional ou com outra designação) deveriam estar subordinados aos comités executivos de Oblast, aos sovietes, deveriam ter rentabilidade e elevar o nível de vida da população, em primeiro lugar dos respectivos operários.
Mas também aqui, na questão dos Conselhos da Economia Nacional, Khruchov estragou uma ideia que não era má. Com uma organização correta poderia ter sido benéfica, não fosse a ambição de Khruchov de ter a sua «eureka» de escala mundial.

Foi organizado um plebiscito nacional, as propostas foram aprovadas, mas não se revelam consistentes. Podemos supor que o objectivo de tudo isto foi obter como efeito secundário, e talvez mesmo principal, a embaralhação, a dispersão, ou como os trotskistas dizem, a remoção dos quadros dos ministérios e dos seus organismos locais e a substituição dos que não eram politicamente «leais» e dos infiéis à nova direção por outros quadros. Pode-se duvidar que isto tenha dado os resultados desejados, mas são inquestionáveis os danos que esta «grande» reorganização khruchoviana provocou.
Particularmente insensata, contrária aos fundamentos da organização do nosso partido, foi a divisão, efetuada por sua proposta, dos órgãos de direção do partido de oblast em industriais e agrícolas. Os malefícios de tal inovação são de tal modo evidentes que não é necessário demonstrá-los.
É sabido que a pecuária constituía um grande problema. Ainda antes do XX Congresso, nos plenários do CC e no próprio congresso, esta questão foi colocada com toda a acuidade. No relatório do CC prevenia-se contra uma atitude ligeira nesta matéria. Mas eis que após o congresso, não conseguindo nenhum avanço significativo na aplicação das diretivas do congresso sobre a pecuária, Khruchov resolveu alterar radicalmente as orientações do congresso. E fê-lo não através de propostas de trabalho para um debate sério da decisão mas, mais uma vez, num comício, durante a abertura da Exposição da Agricultura, na Primavera de 1957.
PROMESSAS VOLUNTARISTAS
Sem informar o Presidium do CC e o Conselho de Ministros, não falando sequer com nenhum dos camaradas (pelos vistos para nos surpreender mais uma vez), Khruchov, na presença de todos os membros do Presidium, proclamou um novo objetivo geral do partido e do Estado. «Nós» – afirmou – «colocamos como nosso objetivo geral no domínio da pecuária alcançar e ultrapassar os EUA, em 1960, no desenvolvimento da pecuária, em número de cabeças de gado». Proclamando este atrativo e sedutor objectivo, não apresentou quaisquer cálculos, e isto porque não os tinha. «Nós» – concluiu – «podemos e devemos alcançar este objetivo.
Todo o partido, o povo, os kolkhozianos devem empenhar-se no cumprimento desta tarefa.» Foi um apelo de comício e não um plano cientificamente fundamentado, o qual nunca fora discutido em sítio nenhum, nem no Presidium do CC, nem no Conselho de Ministros. Todos os membros do Presidium ficaram indignados com este novo disparate de Khruchov. Quebrando o costume, os membros do Presidium não seguiram para o almoço conjunto depois do comício, separaram-se e cada um foi para casa. Isto deixou Khruchov desconcertado, apesar de inicialmente se ter juntado a nós com aquele ar vanglorioso do inventor de uma «grande ideia». No dia seguinte foi convocado o Presidium onde discutimos esta questão. Os membros do Presidium criticaram Khruchov, antes de mais por não ter informado da sua proposta. Sugeriram-lhe que apresentasse os cálculos e medidas que demonstrassem a possibilidade e o realismo do cumprimento do objectivo definido. Khruchov, reconhecendo que a sua conduta tinha sido errada, insistiu na justeza da sua intervenção no essencial, mas não apresentou quaisquer cálculos ou demonstração.

O Presidium encarregou o Gosplan de efetuar os correspondentes cálculos e comunicar qual o prazo necessário para cumprir a tarefa de alcançar e ultrapassar os EUA em número de cabeças de gado bovino. Ao fim de várias semanas de trabalho, o Gosplan apresentou finalmente à sessão do Presidium do CC os seus cálculos e conclusões sobre a possibilidade de alcançar os EUA, em número de cabeças de gado bovino, lá para 1970/72, isto é, dez anos mais tarde que o prazo referido por Khruchov. A sessão decorreu tempestuosamente. Khruchov apelidou de conservadores os funcionários do Gosplan, zangou-se, levantou ameaçadoramente o seu pequeno punho, mas não conseguiu refutar os números do Gosplan. Os membros do Presidium estavam inclinados a aprovar a proposta do Gosplan, mas os serviços já lhe tinham solicitado o aprofundamento da questão. Em simultâneo, o Ministério da Agricultura e o aparelho do CC foram encarregados de elaborar medidas para acelerar o desenvolvimento da pecuária nas diferentes regiões territoriais. Infelizmente, mesmo os cálculos do Gosplan revelaram-se demasiado imprudentes. A pecuária era o setor mais atrasado da nossa agricultura. Como é evidente, não se pode lançar a culpa unicamente sobre Khruchov, mas aqui o seu voluntarismo manifestou-se de forma particular.
OS INTELECTUAIS
A par da «conquista de posições» nos assuntos do Estado e da economia, Khruchov resolveu ocupar-se também da literatura e da arte, com vista a ganhar a auréola de «democrata» e de pessoa «culta». Pode-se avaliar até que ponto o conseguiu por uma das suas intervenções anteriores aos acontecimentos de 1957.
Numa das datchas governamentais nos arredores da cidade, o Comité Central e o Conselho de Ministros da URSS organizaram um almoço de gala ao ar livre para escritores e personalidades dos meios artísticos, no qual participaram os membros do Governo e do Presidium do CC.
Antes do almoço, as pessoas passeavam pelo grande parque, andavam de barco na represa, conversavam. Grupos e casais improvisavam números e alguns membros do CC cantavam com os convidados. O ambiente era de fato informal e agradável.
A boa disposição manteve-se durante algum tempo com todos já sentados à mesa a degustar as entradas. Depois iniciou-se a parte principal da representação: Ele – Khruchov – interveio… Apesar de este discurso ter sido depois apresentado na imprensa com bastante fluência, isso resultou de «apontamentos», já que não foi estenografado (e mesmo que lá estivesse uma estenógrafa, é pouco provável que conseguisse escrever o que foi dito). Mesmo numa tribuna habitual, quando intervinha sem um discurso previamente escrito, a sua oratória nem sempre se enquadrava na lógica ou acertava nas expressões, mas aquela não era uma tribuna habitual e as mesas estavam engalanadas com «ordens» arquitetônicas produzidas pela indústria cristaleira e outras, cujos nomes, para a dicção, estavam repletos de conteúdos excitantes. Pode-se imaginar que tipo de frutos «culturais» produziu a combinação híbrida do que estava na mesa com a mente e a linguagem de Khruchov. Foi uma «obra prima da arte oratória» insuperável.
Não pretendo reproduzir todo o discurso, refiro apenas o que ficou gravado na minha memória. Primeiro que tudo, Khruchov tentou «mastigar» para os pintores, escritores e artistas uma boa parte do que tinha dito sobre o culto da personalidade de Stalin no XX Congresso do partido, com a diferença de que lá tinha lido, e aqui «exprimiu-se» oralmente, de improviso, porque isso era mais «elegante».
Deve-se dizer que as passagens «sensacionalistas» foram recebidas por uma parte do auditório como um prato agradável, pelo qual estariam dispostos até a atribuir lhe o título de «laureado em literatura elegante». Recordo-me de que, quando Khruchov sublinhou a culpa dos dirigentes do CC, nomeadamente de Mólotov, no amordaçamento da literatura russa e da arte, o escritor Sóboliev zarpou da «costa marítima» e, como um marinheiro, por pouco que não alcançou o «mar alto». Mas para a maioria isto não só provocou embaraço como até desagrado, não falando sequer dos quadros dirigentes do partido que estavam presentes.
ATAQUES A ESCRITORES
O ataque de Khruchov a um membro do Presidium do CC, Mólotov, num círculo da intelligentsia sem partido era algo de extraordinário e visava objetivos mais vastos. Não é por acaso que se costuma dizer: «O que está no pensamento do sóbrio, está na língua do ébrio».
O «número» seguinte na sua intervenção foi a crítica a alguns escritores, igualmente com um critério determinado. Lembro-me de que os alvos dos seus ataques extravagantes foram duas mulheres escritoras: Marietta Chaguinian e a poetisa Aliguer. Não me alongarei sobre o conteúdo da crítica, mas em todo o caso não se tratou da defesa das posições marxistas leninistas sobre a literatura e a arte.
A ambas, Chaguinian e Aliguer, é devido um merecido reconhecimento: intervieram corajosamente e com lógica rebatendo Khruchov após o seu discurso. Recordo a gargalhada geral que provocaram as primeiras palavras da roliça e graciosa Aliguer, que, voltando-se para Khruchov, disse: «Pois bem vê, sou eu própria aquela horrível Aliguer!».
De qualquer modo, por muito que o círculo próximo de Khruchov se tenha esforçado para colorir o seu discurso, este gerou perturbação e não coesão nas fileiras dos presentes, com exceção, é claro, daqueles que gostavam de brigas nas cúpulas. Estes puderem não só sentir isso, como até o ouviram da boca do novo «defensor» da parte da intelligentsia «ofendida» pelo Poder Soviético. No entanto, mesmo entre a intelligentsia vacilante, uma parte significativa ficara chocada, desconcertada, com o ataque contra Mólotov, o qual sempre haviam considerado como um verdadeiro intelectual russo culto. Enquanto o outro, pensaram, embora se afeiçoe a nós, por muito que o «novo líder» se esforce para se apresentar como nosso defensor, é um aliado de pouca confiança. A parte melhor da intelligentsia presente saiu consternada do almoço, e alguns mesmo indignados.

Assim, o recém surgido «dialético» Khruchov transformou o positivo em negativo, em contrapartida conseguiu um agravamento da situação no Presidium do CC. Se até aqui podia contar com o apoio da maioria no Presidium do CC, depois desta intervenção atacando um membro do Presidium, pode-se dizer abertamente que a maioria dos membros do Presidium passou a ter uma posição mais crítica em relação a Khruchov e aos seus métodos de direção.
O seu pensamento primário dizia-lhe que o apoio do Secretariado do CC, a sua fortaleza, era suficiente, que mais poderia precisar?
INDIVIDUALISMO
Mas a maioria dos membros do Presidium do CC, que durante um determinado período tinham demonstrado tolerância em nome da unidade, acabou por perceber que não se podia continuar a tolerar tais erros na política e este tipo de direção, que Khruchov era incompetente e pouco apto para o papel de primeiro secretário, que tarde ou cedo o partido e o CC teriam de se livrar dele, por isso era melhor cedo que tarde.
Nesta altura, as relações de Khruchov com os membros do Presidium adquiriram um carácter tenso. Nas sessões interrompia ostensivamente as intervenções dos camaradas. Já falei de Mólotov e Malenkov, mas isso também se aplicava a Vorochílov e a mim próprio, Kaganóvitch, e outros. Isto apesar de inicialmente Khruchov se comportar comigo de forma comedida. Mais que isso, quando partiu de férias, em 1955, até propôs que Kaganóvitch ficasse encarregado de escrever o discurso sobre o 38.º aniversário da Revolução de Outubro.
Em 1956 telefonou-me do local onde estava de férias a propósito da ordem de trabalhos do XX Congresso. Disse-me o seguinte: Mólotov propõe incluir na ordem de trabalho do XX Congresso a questão do programa do partido. Ao que parece, Mólotov pretende que o relator sobre esta questão seja ele próprio. Mas se for preciso incluir na ordem de trabalhos o programa, então és tu quem deve ser nomeado como relator, uma vez que te ocupaste destas questões no XIX Congresso. No entanto, em geral» – disse ele – «nós não estamos preparados para discutir esta questão». Respondi lhe que também considerava que não conseguiríamos preparar esta questão e por isso não devia ser incluída na ordem de trabalhos do XX Congresso.
Estes fatos, para além do mais, refutam as acusações e decisões do Plenário de Julho (1957) de que, eu e todo o chamado grupo, havíamos combatido Khruchov desde a sua eleição como secretário do CC. Foi precisamente o contrário. Embora se comportasse comigo da maneira referida, ao mesmo tempo, em relação a questões importantes, Khruchov fazia fortes arremetidas. Por exemplo, quando o vice presidente da Academia das Ciências, Bardine, solicitou ao Presidium a concessão de verbas para a realização da iniciativa «O Ano do Progresso Técnico» (parece que se chamava assim), manifestei na reunião o meu apoio à proposta. Desagradado,
KAGANÓVITCH NA MIRA
Khruchov berrou-me: «Ena, temos aqui um rico, tu tens muitos milhões. Apoias Bardine porque és amigo dele!» Efetivamente, conhecia Bárdine desde 1916, quando trabalhamos em Iuzovka e depois também no Comissariado da Indústria Pesada, mas o caso nada tinha a ver com amizade, simplesmente apoiava uma boa ideia em prol do progresso técnico, enquanto Khruchov, manifestando-se em palavras pelo progresso técnico, contradizia-se a ele próprio, opondo-se à proposta da Academia das Ciências. A exaltação aumentou ainda mais quando o Presidium satisfez o pedido da Academia das Ciências.
Eis outro exemplo. Em 1955, o CC decidiu criar o Comité Estatal para as Questões Laborais e Salariais. Para o lugar de presidente foram apresentadas duas candidaturas, a de Chvernik e a de Kaganóvitch. Foi decidido nomear o vice presidente do Conselho de Ministros, Kaganóvitch, para presidente deste comitê.
Enquanto antigo sindicalista, aceitei. Um dos primeiros assuntos foi a elaboração da nova lei das pensões. Envolvi-me nesta tarefa e apresentei um primeiro projeto. E logo, numa troca de opiniões no Presidium, Khruchov atirou-se a mim alegando que os valores propostos das pensões eram demasiado elevados. Esperava objecções por parte do Ministério das Finanças, mas estava longe de pensar que enfrentaria um tal ataque por parte de Khruchov, que demonstrava sempre um «humanitarismo» ou, com mais exatidão, um «amor aos operários». Disse-lhe que não esperava a sua oposição. Procurando justificar o seu ataque com os interesses do Estado, respondeu que o Estado não podia suportar as propostas de Kaganóvitch. A sua cólera aumentou quando retorqui: «O Estado não és tu. O Estado encontrará reservas para os pensionistas. Pode-se, por exemplo, diminuir quadros de pessoal excessivos e outras despesas não produtivas.» O Presidium constituiu uma Comissão dirigida pelo presidente do Conselho de Ministros, Bulgánine, que aprovou o projeto com algumas alterações. Foi Bulgánine quem apresentou o relatório sobre este projeto na sessão do Soviete Supremo. Mais uma vez, Khruchov contradisse-se a si próprio.
Poderia referir mais exemplos dos seus ataques também em relação a outros membros do Presidium do CC. Boas pessoas, eficientes e, digamos, obedientes e leais como Pervúkhine ou Sabúrov acabaram por manifestar um descontentamento extremo com Khruchov, sobretudo devido à extroversão hipertrofiada da sua «criatividade» em qualquer assunto, estivesse ou não dentro dele, e os últimos eram a maioria. A partir de determinada altura, como se costuma dizer, a paciência acabou-se, e não tanto por ressentimentos pessoais quanto pelos critérios errados de Khruchov na decisão das grandes questões em que não tinha em conta as condições objetivas.
E eis que, numa das sessões do Presidium, na segunda quinzena de Junho, o descontentamento com a direção de Khruchov saltou cá para fora.
DESTEMPERO
Lembro-me de que na ordem do dia estava a questão da preparação da colheita e aprovisionamentos de cereais. Khruchov propôs incluir ainda a questão da deslocação de todos os membros do Presidium a Leningrado para as comemorações do 250.º aniversário da cidade. Depois de debatida a colheita, ao se passar para a questão da ida a Leningrado, Vorochílov foi o primeiro a objetar. Porque é que têm de ir todos os membros do Presidium, disse ele, será que não têm outros assuntos para tratar? Eu apoiei as dúvidas de Vorochílov e acrescentei que tínhamos muitos assuntos relacionados com a colheita e a preparação dos aprovisionamentos de cereais, e muito provavelmente alguns de nós teriam de se deslocar aos locais, o próprio Khruchov deveria visitar as terras virgens, onde muito continuava por fazer. Nós respeitamos profundamente Leningrado, disse eu, mas os leningradenses não se ofenderão se lá estiverem apenas alguns membros do Presidium. Malenkov, Mólotov, Bulgánine e Sabúrov concordaram com estas objecções. E aí o nosso Nikita levantou-se e começou a «malhar» nos membros do Presidium, um após outro. Perdeu de tal modo as estribeiras que até Mikoian, que se distinguia pela sua capacidade de «manobrar rapidamente», tentou acalmá-lo. Mas os membros do Presidium levantaram-se e declararam que era impossível trabalhar assim e que se devia, antes de mais, discutir o comportamento de Khruchov.

Foi proposto incumbir Bulgánine de presidir à sessão, o que foi aprovado pela maioria do Presidium, como é evidente, sem qualquer conluio prévio. Depois de Bulgánine ter ocupado o lugar de presidente, Malenkov tomou a palavra. «Os camaradas sabem que nós apoiamos Khruchov» – disse Malenkov –. «Tanto eu como Bulgánine apresentamos a proposta de eleger Khruchov para primeiro-secretário do CC. Mas agora vejo que nos enganamos. Ele revelou-se inapto para presidir ao CC. Comete erros atrás de erros no trabalho, tornou-se presunçoso, e o seu relacionamento com os membros do Presidium, sobretudo depois do XX Congresso, é inadmissível. Substitui-se ao aparelho do Estado, comanda diretamente passando por cima do Conselho de Ministros. Não é isto a direção partidária dos órgãos soviéticos. Temos de tomar uma decisão sobre a exoneração de Khruchov das funções de primeiro secretário do CC.»
Este foi, muito sucintamente, o discurso de Malenkov, após o qual interveio Vorochílov. Disse que votara voluntariamente a favor da eleição de Khruchov como primeiro secretário do CC e apoiara o seu trabalho, mas que ele começou a cometer atos indevidos na direção. «E cheguei à conclusão de que é necessário exonerar Khruchov das funções de primeiro secretário do CC. Trabalhar com ele tornou-se impossível.» Contou quando e como Khruchov se lhe dirigiu pessoalmente aos gritos, mostrando-se indelicado e escarnecedor. «Não podemos tolerar mais isto. Decidamos.» – concluiu.
Depois de Vorochílov interveio Kaganóvitch. «O assunto que estamos a tratar é difícil e desagradável. Eu não estive entre aqueles que apresentaram a proposta de eleger Khruchov como primeiro secretário do CC porque conheço há muito as suas facetas positivas e negativas. Mas votei a favor desta proposta, considerando que a própria situação exige e força o quadro dirigente a um desenvolvimento intensivo e a crescer no processo de trabalho. Conhecia Khruchov como uma pessoa modesta, que estudou obstinadamente, cresceu e tornou-se um dirigente capaz ao nível de república, de oblast e da União, e como secretário do CC inserido no coletivo do Secretariado do CC.
RETIRADA DO POLITIBURO
«Após a sua eleição como primeiro secretário demonstrou durante algum tempo as suas facetas positivas, mas depois começaram a manifestar-se cada vez mais as suas facetas negativas, tanto na decisão das tarefas do partido, em aspectos essenciais, como no relacionamento com as pessoas. Eu, como outros camaradas, falei sobre o seu trabalho positivo e sublinhei os seus erros nas questões do planeamento da economia nacional, nas quais Khruchov revelou uma atitude particularmente subjectiva e voluntarista, assim como nas questões da direção do partido e do Estado. Por isso apoio a proposta de exonerar o camarada Khruchov das funções de primeiro secretário do CC. Isto, naturalmente, não significa que não se mantenha como quadro dirigente do partido. Penso que Khruchov aprenderá a lição e conseguirá elevar a sua atividade a um novo nível.
Mas há ainda um outro lado da conduta de Khruchov que é necessário condenar: Khruchov, como agora se sabe, consolidou a sua fracção no Secretariado. Dedicou-se a desacreditar sistematicamente o Presidium e os seus membros, criticou-os não no próprio Presidium, o que é legítimo e necessário, mas no Secretariado do CC, apontando as suas setas contra o Presidium que constitui o órgão máximo do Partido entre os Plenários do CC. Tais ações de Khruchov prejudicaram a unidade, em nome da qual o Presidium tolerou até hoje os seus caprichos. Teremos de falar sobre isso no Plenário do CC que é necessário convocar. Ainda acrescento um fato, na minha opinião, importante. Numa das sessões do Presidium, Khruchov disse o seguinte: “Temos ainda de tirar a limpo os processos de Zinóviev e de Kámenev e outros, isto é, dos trotskistas”. Eu lancei-lhe em réplica: “Diz o roto ao nu: porque não te vestes tu?”. Khruchov ficou furioso e gritou-me: “Estás sempre com insinuações, estou farto disso”.
TROTSKISMO
«Na altura não revelei no Presidium o conteúdo desta insinuação, mas agora faço-o. Entre 1923 e 1924 Khruchov foi trotskista. Em 1925 reviu os seus pontos de vista – arrependeu-se da sua falta. Foi precisamente em 1925 que o conheci no Donbass, e vi nele um sincero leninista, defensor da linha do CC do PCU(b). No seu destino posterior – na sua promoção – houve uma certa intervenção minha enquanto secretário do CC da Ucrânia e depois como secretário do CC responsável pelos quadros. Avaliei-o como um funcionário capaz, em crescimento, de origem operária e parti do princípio de que o partido e o CC não impedem o desenvolvimento das pessoas que, tendo cometido erros no passado, os superaram. Informei Stalin deste assunto na altura em que a Conferência de Moscovo elegeu Khruchov para secretário. Estive com Khruchov no gabinete de Stalin e este recomendou que Khruchov falasse na Conferência sobre o seu percurso pessoal e que Kaganóvitch confirmasse que o CC estava a par dos fatos e que confiava em Khruchov. Assim aconteceu. Naturalmente que as faltas do passado perdoam-se e só se evocam em caso de reincidência. «A declaração de Khruchov no Presidium foi uma reincidência. E eu lembrei-lhe as faltas antigas para que estas reincidências não se repetissem.»
Depois de Kaganóvitch interveio Mólotov. «Por muito que Khruchov se tenha esforçado para me provocar» – disse Mólotov – «eu não permiti um agravamento das relações. Mas não se pode suportar isto mais. Khruchov agudizou não só as relações pessoais, mas também as relações no Presidium no seu conjunto durante a resolução de importantes assuntos do Estado e do partido». O camarada Mólotov analisou em detalhe a questão da reorganização da administração, considerando-a errada, e disse não ser verdade que ele era alegadamente contra as terras virgens. A verdade é que se tinha manifestado contra o aumento imediato para uma área de 20 a 30 milhões de hectares, considerando preferível concentrar as forças em 10 ou 20 milhões de hectares, preparando bem a exploração de forma a obter boas colheitas. O camarada Mólotov rejeitou a acusação de ter travado a política de paz. Tal não é verdade mas, ao que parece, esta mentira serviu para justificar alguns passos na política externa. A sua intervenção contra a Jugoslávia foi motivada não por assuntos da política externa, mas por ações anti-partido e anti-soviéticas dos jugoslavos, que nós criticamos e devemos continuar a criticar.
A VOTAÇÃO
«Com Khruchov como primeiro secretário do CC não é possível continuar a trabalhar» – disse Mólotov. – «Pronuncio-me pela exoneração de Khruchov das funções de primeiro secretário do CC».
Depois de Mólotov interveio Bulgánine. Começou por referir factos relacionados com métodos incorretos de direção do trabalho dos órgãos do Estado, incluindo o Conselho de Ministros, e atitudes pouco fraternas, até em relação a si próprio. Bulgánine falou de erros essenciais numa série de tomadas de decisão. «Apoio inteiramente a proposta de exoneração de Khruchov» – concluiu.
Intervieram ainda Pervúkhine e Sabúrov. Ambos declararam que no passado tinham boas relações com Khruchov, tal como este com eles. «Mas agora constatamos que ultrapassou todos os limites, tornou-se presunçoso e dificulta-nos o trabalho. É preciso exonerá-lo.»
O camarada Mikoian, fiel à sua táctica de manobrar, admitiu que de facto existiam insuficiências no trabalho de Khruchov, mas eram corrigíveis, por isso considerava que não se devia exonerar Khruchov.

A seguir interveio o próprio Khruchov. Rejeitou algumas acusações, mas sem grande veemência, pode-se dizer até com algum embaraço. Reconheceu uma parte dos reparos, disse que efetivamente tinha tido um relacionamento errado com os camaradas, que cometera erros essenciais na tomada de decisão de certos assuntos, mas prometia ao Presidium que ia corrigir estes erros.
Em defesa de Khruchov intervieram os secretários do CC Bréjnev, Suslov, Furtseva, Pospelov, que, apesar de mencionarem que naturalmente havia insuficiências, disseram que se podiam corrigir.
O único secretário do CC a intervir num tom diferente foi Chepílov. Com honestidade, rigor e convicção falou da atmosfera inadmissível de descrédito e crítica destrutiva do Presidium criada por Khruchov no Secretariado do CC. Khruchov denegria em particular Vorochílov, como «um conservador atrasado e caduco». (Ao mesmo tempo, Khruchov demonstrava hipocritamente a Vorochílov grande afabilidade e «respeito») Chepílov falou de uma série de decisões erradas do
Secretariado tomadas nas costas do Presidium do CC. Na prática, Khruchov tinha transformado o Secretariado num órgão que agia de forma independente do Presidium.
O GOLPE
O Presidium reuniu quatro dias. Bulgánine, que presidiu às sessões, conduziu os trabalhos democraticamente, não limitou o tempo dos oradores, permitindo por vezes segundas intervenções também aos secretários do CC.
Entrementes, o Secretariado khruchoviano organizava à margem do Presidium do CC a vinda dos membros do CC a Moscovo, enviando através dos órgãos de segurança do Estado e do Ministério da Defesa dezenas de aviões para os transportar para a capital. Isto foi feito à revelia de qualquer decisão do Presidium e até sem aguardar que este decidisse sobre o assunto que estava em debate. Tratou-se de um autêntico ato fraccionário, astuto, ao estilo trotskista.
Na sua maioria, os membros do Presidium do CC não eram nenhuns simplórios ou maus organizadores. Se tivessem enveredado de fato pela via da luta fraccionária, como depois foram acusados, teriam organizado facilmente a destituição de Khruchov. Mas na crítica que fazíamos a Khruchov seguíamos os princípios do partido, respeitando estritamente as normas estabelecidas com vista a preservar a unidade.
Khruchov conduziu o caso de forma fraccionária. Perto do final da reunião do Presidium, uma delegação de membros do CC reunidos na Sala Sverdlov, encabeçada por Kóniev, comunicou que os membros do CC solicitavam que o Presidium informasse o Plenário do CC dos assuntos que estavam a ser discutidos.
Alguns membros do Presidium reagiram irados a esta convocação dos membros do CC sem autorização do Presidium, considerando-a um ato usurpador por parte do Secretariado e, naturalmente, do próprio Khruchov.
Por exemplo, o camarada Sabúrov, que antes idolatrava Khruchov, exclamou com ira e indignação: «Considerava-o uma pessoa honesta, camarada Khruchov. Agora vejo que estava errado, você é uma pessoa desonesta. Permitiu-se organizar de maneira fraccionária, nas costas do Presidium do CC, esta reunião na Sala Sverdlov.»
Após um pequeno intervalo, o Presidium tomou a decisão de, apesar de o Secretariado do CC ter violado grosseiramente os Estatutos do Partido, mas em respeito pelos membros do CC e tendo em conta que esperavam a chegada dos membros do Presidium, interromper a sua reunião e dirigir-se à Sala Sverdlov.
Tirando a máscara de perturbação e já animado, Khruchov marchou ao lado de Júkov e de Serov13 para a Sala Sverdlov.
Pode-se imaginar o estado psicológico dos membros do CC, transportados para Moscovo num quadro deveras extraordinário. Ainda antes da abertura do Plenário, os membros do CC foram naturalmente informados da reunião do Presidium do CC (o aparelho do CC já tinha cuidado disso). Todavia, quando o plenário se inicia, em vez do relatório sobre a reunião do Presidium, que os membros do CC aguardavam, foi lhes servido o «prato» do «Grupo Antipartido de Malenkov, Kaganóvitch e Mólotov».
Ou seja, em vez da questão sobre «A Direção Insatisfatória de Khruchov, Primeiro Secretário do CC» foi colocada a questão inventada e totalmente oposta do «Grupo Antipartido de Malenkov, Kaganóvitch e Mólotov».
Na realidade, não foi apresentado um relatório sobre a reunião do Presidium e os assuntos nela debatidos, em contrapartida desfiou-se todo um rol de acusações políticas contra o inventado grupo anti-partido de Malenkov, Kaganóvitch, Mólotov e o candidato ao Presidium que se lhe juntou Chepílov.
GRUPO ANTI-PARTIDO
Sentindo que era absurdo e insensato declarar a maioria do Presidium como uma fracção, os acusadores khruchovianos recorreram à sofisticada mentira do «grupo dos três» – Malenkov, Kaganóvitch e Mólotov, separandoos dos sete membros do Presidium que se manifestaram contra Khruchov, condenandoos e exigindo a sua exoneração (quanto aos restantes quatro camaradas – Vorochílov, Bulgánine, Pervúkhine e Sabúrov – os primeiros três até foram reeleitos para o Presidium do CC).
Deste modo, isolando três – Malenkov, Kaganóvitch e Mólotov –, procurou-se esconder que dos nove membros do Presidium, apenas dois – Mikoian e o próprio Khruchov – eram a favor de que Khruchov permanecesse como primeiro secretário, enquanto a maioria – sete – pronunciou-se pela sua exoneração devido à aplicação medíocre da linha do CC do partido na prática.
Mais tarde os «vencedores» inventaram o novo argumento de que, contando com a maioria aritmética, este grupo pretendia mudar também a composição dos órgãos dirigentes e alterar a linha do partido.
Contudo, em primeiro lugar é absurdo falar em maioria aritmética – e qual outra maioria pode existir na decisão destes ou daqueles assuntos? Sim, a maioria do Presidium foi a favor da substituição de Khruchov, apenas dele, será que os órgãos do partido eram compostos unicamente por Khruchov? Não será que todo o Presidium constitui o órgão dirigente entre os Plenários do CC? Por isso, é ridículo falar e escrever que o Presidium queria mudar a composição dos órgãos dirigentes do partido, ou seja, mudar-se a ele próprio.
O resultado é conhecido: foi aprovado o projeto de resolução publicado no Pravda sobre «O Grupo Antipartido de G.M. Malenkov, L.M. Kaganóvitch e V.M. Mólotov».
Na resolução aprovada afirma-se que «este grupo através de métodos anti-partido e fracionários pretendia a mudança …» Será que se pode chamar fração à maioria do Presidium? Não há quaisquer fatos de métodos fracionários porque estes não existiram, tal como não existiram quaisquer grupos ou reuniões especiais, nem antes nem depois da reunião do Presidium – não houve qualquer conspiração. Se houvesse um grupo fracionário, não seríamos tão maus organizadores que nos deixássemos chegar a uma situação em que Khruchov e a sua fração tivessem podido cercar desta forma a maioria do Presidium. Foi precisamente Khruchov e aqueles que se lhe juntaram que agiram organizadamente como uma fração, reunindo secretamente os membros do CC, nas costas do Presidium. Nós, não éramos um grupo, mas a maioria do Presidium.
Preservando a unidade do CC, reunimos, discutimos, demonstramos e pretendíamos resolver o assunto sem as astúcias que Khruchov e os seus engenhosos conselheiros utilizaram.
Khruchov foi sem dúvida astuto. Mas esta foi uma astúcia trotskista, anti-partido. Todavia, compreendendo que não seria convincente isolar três membros do Presidium e excluí los do CC e do seu Presidium, apenas na base de acusações mal alinhavadas de atividade fracionária e anti-partidária, a nova equipa khruchoviana, ainda antes de ser eleita, elaborou o projeto de resolução do Plenário do CC do PCUS, repleto de outras mentiras e acusações políticas de princípio contra o chamado grupo anti-partido de Malenkov, Kaganóvitch e Mólotov.
EXPULSÃO DO PARTIDO
No projeto foram esboçadas acusações que nem vale a pena refutar dado que tudo é uma invenção. Não é referido nenhum fato nem sequer uma citação do que foi dito. Não há fatos porque não existiram na realidade. Nós interviemos com relatórios, discursos, defendemos a linha do partido, as decisões do CC e dos congressos do partido, incluindo do XX Congresso.
É possível encontrar erros e insuficiências no trabalho concreto de qualquer pessoa. Nós também os tínhamos, mas a resolução pouco diz sobre eles. Em contrapartida está repleta de acusações gerais, infundamentadas, sonoras.
«Entretanto, no momento em que o partido, sob a direção do Comité Central, com o apoio de todo o povo, conduz um enorme trabalho para o cumprimento das decisões do XX Congresso (…)» – está escrito na resolução – «o grupo anti-partido de Malenkov, Kaganóvitch e Mólotov interveio contra a linha do partido». Onde? Quando? Em que consistiram essas intervenções? Fatos, fatos não há. Mas poder-se-ia referir dezenas ou centenas de fatos que demonstram o contrário no trabalho dos citados camaradas, que refutam as afirmações gratuitas e inventadas sobre a sua alegada intenção de alterar a linha política do partido e do CC.
Na resolução do CC de 1957 afirma-se: «No decurso dos últimos três a quatro anos, altura em que o partido adotou firmemente a orientação de corrigir os erros e insuficiências gerados pelo culto da personalidade e conduz uma luta intensa contra os revisionistas do marxismo-leninismo, os membros do grupo anti-partido, agora descoberto e totalmente desmascarado, têm oposto uma resistência constante, direta e indiretamente, a esta orientação aprovada pelo XX Congresso.»
Esta afirmação é inteiramente refutada pela resolução igualmente do Comité Central de 30 de Junho de 1956 sobre «A Superação do Culto da Personalidade e das Suas Consequências».
Nesta resolução, aprovada após o XX Congresso do Partido, afirma-se: «O XX Congresso e toda a política do Comitê Central, após a morte de Stalin, testemunha com clareza que dentro do Comitê Central se formou um núcleo leninista de dirigentes que compreenderam corretamente as necessidades amadurecidas tanto no domínio da política interna como externa.
«Não se pode afirmar que não houve resistência aos fenômenos negativos que estiveram ligados ao culto da personalidade e travaram o avanço do socialismo.
O núcleo leninista do Comité Central, imediatamente após a morte de Stalin, enveredou pela via da luta decidida contra o culto da personalidade e as suas pesadas consequências.»
A contraposição destas duas resoluções mostra que a resolução de 1957 é uma invenção. Isto porque após o XX Congresso foi eleito o Presidium do CC, composto pelo referido núcleo leninista do CC, e neste núcleo estavam Vorochílov, Mólotov,
NÚCLEO LENINISTA
Kaganóvitch, Malenkov, Bulgánine, Mikoian, Pervúkhine, Sabúrov, Chvernik e outros. Poderse-á reduzir o núcleo leninista do CC a Khruchov e Mikoian, excluindo e difamando os restantes, particularmente Mólotov, Kaganóvitch, Malenkov e Vorochílov? A fracção khruchoviana precisou de tudo isto para encobrir os erros reais e as insuficiências que foram criticadas pelo Presidium do CC. E foi para justificar as exclusões do CC que se inventaram todas estas acusações «políticas de princípio».
Tratou-se de um ajuste de contas anti-partido e anti-leninista com os mais antigos dirigentes do partido e do Estado Soviético pela sua crítica a Khruchov, primeiro secretário do CC, que se engrandeceu a ponto de se julgar insubstituível.
Para além disso, Malenkov, Kaganóvitch e Molotov, depois de terem sido excluídos do CC, trabalharam honesta e aplicadamente, como se exige de comunistas, nas tarefas que lhes foram dadas, participando ativamente nas organizações do partido, no trabalho e na batalha pelo cumprimento das decisões do partido e do seu CC. Nesse período não foram alvo de quaisquer reparos ou acusações.
Não obstante, passados quatro anos da resolução de 1957, foram expulsos do partido. Lutando pela sua reintegração no partido – atualmente sem cartão do partido – mantêm-se comunistas fieis, marxistas leninistas, e internacionalistas proletários, combatentes pela linha do partido do CC, pelo socialismo e pelo comunismo!
Tenho esperança, acredito que o partido, o seu Comité Central e Politburo, apurarão a verdade e nos reintegrarão como membros do nosso querido partido leninista.
Lazar Moisséievitch Kaganóvitch (1893-1991) foi um dos mais destacados dirigentes soviéticos nas primeiras três décadas da construção do socialismo na URSS. Membro do partido desde 1911, do CC desde 1922 e do Politburo desde 1926, participante na Revolução de Outubro, secretário-geral do PC(b) da Ucrânia (1925-28), primeiro secretário do Comité de Moscovo (1930-1935), dirigiu a reconstrução de Moscovo e a obra do metropolitano, foi ministro das Vias de Comunicação (1935-44) e da Indústria Pesada (1937), entre outros cargos. Em 1957 é declarado membro do «grupo anti-partido» e exonerado de todos os cargos, sendo definitivamente expulso do PCUS em 1961.
As memórias de Lazar Kaganóvitch encontram-se em História do Socialismo











