“O Irã nunca abandonará seus irmãos e irmãs libaneses”, disse o presidente Pezeshkian.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, advertiu Washington que a continuação dos ataques de Israel ao Líbano “tornariam sem sentido as negociações” com os EUA marcadas para Islamabad, capital do Paquistão, neste sábado, e são “uma violação flagrante do acordo de cessar-fogo”.
“A renovada incursão de Israel no Líbano é uma flagrante violação do acordo inicial de cessar-fogo. Isso é um sinal perigoso de engano e falta de compromisso com possíveis acordos. A continuidade dessas ações tornará as negociações sem sentido. Nossos dedos continuam no gatilho. O Irã nunca abandonará seus irmãos e irmãs libaneses”.
Menos diplomático, um alto comandante da Guarda Revolucionária Islâmica foi direto ao ponto: para que o cessar-fogo seja mantido, “contenha seu cão raivoso, Israel”.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Aragchi, advertiu Washington de que deve “escolher” entre respeitar o cessar-fogo ou continuar a guerra “através de Israel”, porque o cessar-fogo é incompatível com “massacres”.
“As condições para um cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos são claras e explícitas: os Estados Unidos devem escolher entre um cessar-fogo ou continuar a guerra por meio de Israel. Não podem ter ambos”, escreveu X em suas redes sociais.
Na quarta-feira, o regime fascista de Israel tentou explodir o recém-declarado acordo de cessar-fogo de duas semanas, perpetrando um crime de guerra dantesco, o bombardeio de áreas civis no Líbano, que matou em dez minutos 254 civis e feriu mais de mil – um “bombardeio de cachorro doido”, como se dizia na época do Vietnã. Quando, explicitamente citado pelo mediador da trégua, o premiê paquistanês Shehbaz Sharif, o Líbano estava coberto pelo acordo.
Sem qualquer aviso, bairros inteiros foram devastados pelas bombas fornecidas pelos EUA, com a matança atingindo áreas de maioria sunita ou cristã, onde o pretexto do ‘combate ao Hezbollah’ era notoriamente falso.
O Irã já tinha reaberto o Estreito de Ormuz mas, diante da chacina desencadeada por Netanyahu, se viu forçado a voltar a fechá-lo. Pelo estreito, transitam 20% do petróleo, gás, fertilizantes e gás hélio de que o mundo precisa.
A suposta “exclusão” do Líbano do acordo de trégua havia sido anunciada, em uma linha, na véspera, pelo genocida-mor Netanyahu, e foi endossada, no dia seguinte, por Trump – talvez por pressão de alguns dos seus principais financiadores de campanha.
Mas está patente, conforme o próprio mediador, o premiê Shehbaz Sharif, que, pelo acordo, o cessar-fogo se aplica ao Líbano, como um dos dez pontos apresentados pelos Irã e aceitos por Trump como “base viável” para as negociações de fim da guerra.
O esforço para alcançar o cessar-fogo, com um decisivo apoio da China e da Rússia, e mediação do Paquistão, havia trazido alívio ao mundo, após as desvairadas ameaças de Trump de “destruir uma civilização inteira esta noite”, e diante da crise do choque da falta de petróleo, que já é pior do que as verificadas nos choques de 1973 e 1979, somadas.
O próprio Sharif condenou na quinta-feira a “agressão contínua de Israel contra o Líbano”, antes das esperadas negociações EUA-Irã em Islamabad.
“O primeiro-ministro disse que o Paquistão está empenhado em esforços sinceros pela paz regional e que foi nesse espírito que as negociações de paz entre Irã e EUA estão sendo convocadas”, disse seu escritório de Sharif em um comunicado.
REPÚDIO GENERALIZADO À CHACINA EM BEIRUTE
Um comunicado conjunto do Reino Unido, União Europeia, Canadá e Japão chamou “todos os lados a implementarem o cessar-fogo, inclusive no Líbano”. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, condenou os ataques aéreos de Israel a Líbano como “inaceitáveis”, ainda mais ao “minarem o cessar-fogo temporário alcançado”. Sua contraparte britânica, Yvette Cooper, advertiu que a exclusão do Líbano do cessar-fogo “desestabilizaria a região inteira”. O primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, conhecido entusiasta do ‘direito de autodefesa de Tel Aviv’, se viu forçado a alertar sobre a “gravidade” dos ataques israelenses ao Líbano, alertando que eles poderiam “descarrilar todo o processo de paz e que isso não deve ser permitido.”
Também o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres,condenou os ataques e a matança de civis, enfatizando que representam “um grave risco para o cessar-fogo e os esforços para uma paz duradoura e abrangente na região”. O Brasil condenou o bombardeio israelense ao Líbano e apoiou o cessar-fogo.
A China – cujas garantias dadas a Teerã foram fundamentais para a formalização do cessar-fogo – condenou o bombardeio a Beirute e chamou a manter a trégua. O cessar-fogo deve incluir o Líbano, disse o chanceler russo Sergey Lavrov em telefonema ao seu homólogo Abbas Araghchi, de saudação pela trégua.
MOMENTO SUEZ DE TRUMP
O atual quadro no Golfo já vem sendo visto como o Momento Suez dos Estados Unidos, uma referência ao episódio, em 1956, quando a Grã Bretanha, na tentativa de manter seu império, se juntou à França e Israel para agredir o Egito de Abdel Nasser, que nacionalizara o canal de Suez, conseguiu fazer a invasão, mas teve de recuar sob a oposição da União Soviética e dos EUA, então sob a presidência de Eisenhower. O momento em que a condição de hegemon ficou aplastada aos olhos de todos, fechando os tempos em que o sol nunca se punha no império britânico, e abrindo caminho para a libertação das colônias africanas e asiáticas.
A resistência iraniana surpreendeu os EUA e mostrou os limites de seu poder, em meio ao indisfarçável declínio, enquanto seu mundo unipolar – forma diplomática de se referir à ditadura norte-americana sobre o planeta nas últimas quatro décadas – se esvai. Enquanto a Grã Bretanha e a França pretenderam barrar o movimento de descolonização pelo assalto ao canal de Suez, EUA e Israel pretenderam fazer o mesmo no Estreito de Ormuz, não apenas para submeter o Irã, mas para tentar manter controle sobre o mercado de energia – o substrato do petrodólar e do privilégio exorbitante -, pela guerra de conquista, a exemplo do que ensaiou na Venezuela.
A sete meses das eleições e com a gasolina tendo subido 35% em um mês de guerra, 66% dos americanos querem o fim imediato da guerra contra o Irã. Os limites da máquina de guerra norte-americana também ficaram expostos, com a derrubada dos tidos como infalíveis aviões norte-americanos, num ritmo que não se via desde o Vietnã, de 80% dos radares estratégicos, bases norte-americanas no Golfo abandonadas, e desmoralização do Domo de Ferro, transformado em peneira pelos mísseis e drones do Irã.
Também os palavrões de Trump e suas alucinadas ameaças, bem como a declaração de que seu único limite é “própria moralidade”, expuseram em toda a sua crueza a real concepção de mundo dos imperialistas – e sua incapacidade de submeter os povos soberanos.











