A Justiça de São Paulo determinou na terça-feira (10) que a polícia investigue a morte da policial militar Gisele Santana, encontrada morta em casa com um tiro na cabeça, como feminicídio.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita após a família dela contestar essa versão, e agora deve ser investigado como feminicídio.
Gisele Santana tinha 32 anos e foi encontrada morta no imóvel onde morava com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos. Ele estava no local no momento da ocorrência e foi o responsável por acionar o socorro. Até o momento, a defesa dele não se pronunciou sobre o resultado do laudo.
A juíza Giovanna Christina Colares determinou que o caso seja redistribuído para uma Vara do Tribunal do Júri, que só analisa crimes contra a vida, atendendo a um pedido feito “a partir da natureza do delito investigado”.
LAUDO NECROSCÓPICO
A decisão ocorre após o laudo necroscópico ter apontado que havia lesões no rosto e no pescoço da vítima. Segundo peritos, há sinais de que ela desmaiou antes de ser baleada na cabeça e que não apresentou defesa.
O laudo necroscópico produzido após a exumação do corpo da policial militar Gisele Santana apontou a existência de lesões no rosto e no pescoço da vítima, encontrada morta com um tiro na cabeça, dentro do apartamento onde vivia, no Brás, região central de São Paulo. A análise pericial indica que a policial pode ter desmaiado antes de sofrer o disparo que atingiu sua cabeça e que não apresentou reação de defesa.
O documento descreve que os ferimentos eram “contundentes” e produzidos “por meio de pressão digital e escoriação compatível com estigma ungueal”. As marcas, segundo os peritos, correspondem a arranhões que indicam a presença de unhas pressionando a pele.
Inicialmente, o caso havia sido registrado como suicídio. A investigação, porém, passou a tratar a morte como suspeita depois que familiares da policial contestaram essa versão. Diante das dúvidas levantadas, o corpo foi exumado e submetido a novos exames no sábado (7) no Instituto Médico-Legal (IML) Central da capital, incluindo uma tomografia.
HORÁRIO DO DISPARO LEVANTA DÚVIDAS
Entre os elementos analisados pelos investigadores está o horário da morte. Uma vizinha do casal relatou à polícia que acordou às 7h28 após ouvir um estampido único e forte vindo do apartamento.
O relato chama a atenção porque o barulho teria ocorrido cerca de meia hora antes da primeira ligação feita pelo marido da vítima aos serviços de emergência. Na chamada feita à Polícia Militar às 7h57, ele afirmou que a esposa havia tirado a própria vida.
“Minha esposa é policial feminina. Ela se matou com um tiro na cabeça. Manda o resgate e uma viatura aqui agora, por favor”, afirmou Neto na ligação.
Pouco depois, às 8h05, ele telefonou ao Corpo de Bombeiros informando que a mulher ainda estava respirando. As equipes chegaram ao apartamento às 8h13.
POSIÇÃO DA ARMA
A forma como a arma foi encontrada também despertou questionamentos. Um dos socorristas relatou que o armamento parecia estar “bem encaixada” na mão da mulher, de uma maneira incomum em situações de suicídio. Diante da estranheza, ele decidiu registrar a cena com fotografias.
O mesmo profissional afirmou que, quando as equipes chegaram ao apartamento, o sangue já estava coagulado e que não havia cartucho de bala no local.
CONTRADIÇÕES SOBRE O BANHO
Depoimentos colhidos no inquérito também levantam dúvidas sobre o relato do marido da policial. Ele declarou que estava tomando banho no momento em que ouviu o disparo.
Segundo o tenente-coronel, ele entrou no banheiro por volta das 7h e cerca de um minuto depois ouviu um barulho que interpretou como o de uma porta batendo. Ao sair do banheiro, afirmou ter encontrado Gisele caída na sala.
No entanto, os primeiros bombeiros que chegaram ao apartamento relataram uma situação diferente. Um sargento do Corpo de Bombeiros com 15 anos de experiência afirmou que encontrou Geraldo de bermuda, sem camisa e completamente seco.
O socorrista registrou em depoimento: “O declarante afirma que não havia nenhum tipo de pegada molhada que indicasse que o tenente-coronel teria saído imediatamente durante o banho, inclusive ele estava seco”.
Ele também afirmou que o chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas não havia poças de água no chão nem no corredor do apartamento.
A observação foi reforçada por um tenente da Polícia Militar cuja equipe foi a primeira a chegar ao local. Segundo ele, nem o marido nem a vítima apresentavam sinais de terem tomado banho antes do disparo.
COMPORTAMENTO DO MARIDO
Outro aspecto destacado nos depoimentos foi o comportamento do tenente-coronel após o ocorrido. O sargento do Corpo de Bombeiros afirmou não ter visto sinais de desespero por parte dele e disse que não o viu chorando.
Um segundo bombeiro também relatou estranhamento com a postura do oficial, que “falava calmamente” ao telefone, questionava com frequência o atendimento prestado pelas equipes de resgate e insistia para que a vítima fosse retirada rapidamente e levada ao hospital.
Os socorristas também afirmaram que ele não apresentava manchas de sangue no corpo ou nas roupas, o que indicaria que não teria tentado realizar os primeiros socorros.
LIGAÇÃO PARA DESEMBARGADOR
Entre as ligações feitas por Geraldo na manhã da ocorrência, uma chamou a atenção da família da policial: o contato com o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu até o apartamento acompanhado do tenente-coronel. O advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Junior, questionou a presença do desembargador no local.
“Ele vai ter que explicar por que estava lá. Pelo relato que temos, o desembargador foi a primeira pessoa acionada após o disparo.”
Imagens de monitoramento indicam que às 9h18 o desembargador reaparece no corredor do prédio. Às 9h29, cerca de 11 minutos depois, o tenente-coronel surge novamente, já com outra roupa.











