O fascismo não concede green card

Agentes do ICE prendem uma pessoa, dias depois de um agente do ICE ter atirado em Renee Good, em Minneapolis - Foto: Tim Evans/ REUTERS

Quando o servilismo ideológico encontra a realidade fria do Estado punitivo

MARCOS VERLAINE*

Há ironias que dispensam o riso porque funcionam como diagnóstico político. A prisão do influenciador brasileiro Junior Pena, capturado por agentes do ICE em Newark, Nova Jersey, nos EUA, pertence à essa categoria. Entenda o fato lendo também “Brasileiro bajulador de Trump se dá mal e é capturado por agentes do ICE”.

O episódio não é apenas contratempo burocrático nem acaso administrativo: é a exposição crua da inconsciência política travestida de convicção, do servilismo ideológico apresentado como lucidez, e do choque inevitável entre propaganda e realidade. Trata-se, pois, de o ocaso de Junior Pena. Será que vai aprender?

Pena construiu sua persona digital a partir da defesa entusiasmada de Donald Trump e de suas políticas migratórias draconianas. Repetia, com convicção quase catequética, que deportações eram instrumento legítimo contra “bandidos”, nunca contra “cidadãos de bem”.

Mais do que apoiar Trump, internalizou a retórica presidencial, assumindo o papel de tradutor tropical do trumpismo. Inclusive no ataque sistemático a imigrantes, paradoxalmente própria condição dele nos Estados Unidos.

O erro não foi apenas político. Foi conceitual.

IDEOLOGIA NÃO SUBSTITUI VISTO

Segundo a defesa, a detenção decorreu de problema técnico: ausência registrada em audiência migratória relacionada à infração de trânsito, após adiamento que não teria sido corretamente lançado no sistema.

Pode ser verdade. Mas o detalhe burocrático é quase irrelevante diante do que ele simboliza.

A contradição central não está no formulário, mas na crença de que alinhamento ideológico produz imunidade jurídica. Junior Pena apostou que repetir o discurso do poder o colocaria fora do alcance desse.

Descobriu, da forma mais concreta possível, que o Estado não opera por afinidade política, mas por classificação administrativa.

Para a máquina migratória, não há “imigrante do bem”. Há apenas status regular ou irregular. E nenhum slogan, nenhuma “live”, nenhum ataque a outros imigrantes altera esse dado.

IMIGRANTE QUE NEGAVA O IMIGRANTE

Aqui reside a contradição mais profunda. Pena não apenas defendia políticas restritivas; naturalizava a exclusão como virtude moral, afirmando que deportações eram seletivas, racionais e justas.

Ao fazer isso, colaborava para legitimar sistema que depende da arbitrariedade para funcionar.

O trumpismo, como todo projeto autoritário, precisa fabricar inimigos permanentes. O problema é que essa categoria é elástica. Hoje são “os outros”; amanhã, qualquer um que caiba na definição conveniente do momento.

O influenciador acreditou que bastava se diferenciar retoricamente da massa indesejada. Não percebeu que, para o Estado punitivo, a diferença simbólica não existe. A propósito, como figurinha assim pode ser chamado de “influenciador”? Tempos bicudos este que vivemos.

ESTADO PUNITIVO NÃO TEM AMIGOS

A gestão Trump jamais escondeu que suas políticas migratórias operam pela lógica do exemplo, não da exceção.

A rigidez serve para mostrar força, não para premiar a fidelidade. Nesse sentido, a prisão de apoiador não é falha do sistema. É prova de sua coerência interna.

Autoritarismos não funcionam com gratidão, mas com medo. Não cultivam aliados; produzem obediência temporária. Quem imagina que o entusiasmo ideológico cria blindagem pessoal não compreendeu a natureza do poder que defende.

SERVILISMO COMO IDENTIDADE POLÍTICA

O caso Junior Pena revela algo maior do que equívoco individual. Revela fenômeno recorrente: o do servilismo como projeto político.

Atacar os próprios pares, reproduzir o discurso do dominador e apostar que isso garantirá pertencimento. É aposta sempre perdida.

O fascismo contemporâneo oferece apenas a sensação momentânea de proximidade com o poder. Nunca inclusão real. Quando a engrenagem gira, não pergunta quem a aplaudiu. Executa.

LIÇÃO INCÔMODA

Junior Pena segue sob custódia enquanto tenta evitar a deportação. O desfecho jurídico ainda está em aberto. O político, não. A lição já foi dada, com a frieza característica do Estado que ele defendeu com tanto afinco e aplicação cega.

É como diz o ditado popular: “fé cega, faca amolada”.

Convém registrar, sem ironia excessiva, apenas com rigor analítico: o autoritarismo não concede salvo-conduto, não reconhece lealdade e não respeita bajuladores.

Esse apenas aplica a regra. E a regra, como sempre, vale inclusive para quem acreditou estar acima dessa.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *