Perita de vídeo falso contra Padre Júlio Lancellotti se filia ao partido do MBL e anuncia pré-candidatura

Padre Julio Lancellotti foi acusado por integrantes do MBL de pedofilia

No último final de semana, a perita judicial Jacqueline Tirotti, que atuou em casos como o vídeo com suposto conteúdo sexual envolvendo o padre Júlio Lancellotti, filiou-se ao Missão, partido recém-criado pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Ela pretende se candidatar a deputada distrital em Brasília.

A denúncia contra o religioso veio à tona em 2024 e foi explorada por políticos de direita, inclusive do próprio MBL. Na época, Tirotti deu entrevistas em que atestou que a imagem era real, mas outras análises afirmaram que o conteúdo era fake.

O padre sempre negou o conteúdo sexual e disse ser vítima de uma armação. A Arquidiocese de São Paulo chegou a abrir uma investigação, mas arquivou o caso por não ter “confirmado a verossimilhança” das imagens.

Em uma rede social, Tirotti afirmou que relutou em aceitar o convite do Missão. “Fiquei com medo, pois vivo de perícias e essa exposição pode me levar a perder a simpatia de muitos. Meu coração falou mais alto e eu tomei coragem para assumir mais esta missão. É com muita honra que eu anuncio minha pré-candidatura”, declarou.

Ela também esteve envolvida em outros casos de grande repercussão. No ano passado, atestou que a assinatura de um dirigente da CBF numa ata confirmando a eleição do então presidente da entidade, Ednaldo Rodrigues, havia sido forjada.

Jacqueline é filha e sócia de Reginaldo Tirotti, co-autor da perícia fake, que estava nos atos golpistas bolsonaristas e chegou a receber uma mensagem com “um abraço hétero” de Jair Bolsonaro (PL). O vídeo teria sido editado e foi propagado novamente nas redes pelo bolsonarista Rafael Moreno, que também participou dos atos golpistas.

Para sustentar a perseguição do MBL e de Rubinho Nunes contra Padre Júlio, Jacqueline e Reginaldo Tirotti ressuscitaram um vídeo antigo em que um homem aparece em atos libidinosos para tentar atrelar ao religioso.

DEEPFAKE

No entanto, perícia encomendada pelo portal Fórum e o jornal O Estado de S.Paulo ao professor de engenharia de informação na UFABC e instrutor de computação forense no MBA de segurança de dados da USP, Mário Gazziro, mostra que o vídeo é falso.

“As evidências indicam que os vídeos e montagens NÃO PERTENCEM AO SUPOSTO ACUSADO, Padre Júlio Renato Lancellotti, após constatação de montagens sobre vídeos para simular vídeo-chamadas”, diz a conclusão da perícia de Gazziro.

Com a farsa desmascarada, oito vereadores retiraram os nomes do pedido de CPI, que visava “investigar” o trabalho de Padre Júlio junto à população de rua no centro de São Paulo – como parte da cultura higienista da prefeitura. Esvaziada, a tentativa de criar a comissão foi esvaziada e arquivada.

Na perícia encomendada pela Fórum, Gazziro afirmou que “o que realmente prova que não se trata do padre (Júlio) é a edição para inserção dos ícones do WhatsApp”.

Porque se fosse realmente um caso real, em que uma suposta vítima tivesse gravado a tela do próprio celular com alguma ferramenta, não teria aparecido o ícone do aplicativo como artefato de edição em destaque na análise forense. Aquilo foi editado e colocado lá”, explica o especialista.

Sobre o “rosto” de padre Júlio Lancellotti nas imagens viralizadas, o professor explicou que isso é possível de ser feito com qualquer pessoa hoje em dia, com um recurso relativamente banal, chamado “deepfake”.

“Com relação às supostas imagens onde o rosto do padre aparece, é muito simples de gerar isso por softwares de geração de deepfake, e o alinhamento e proporções com o resto do corpo foram deliberadamente enquadrados para evitar a análise sumária de deepfake. Quem fez, fez para não deixar esses vestígios, fez sem esses elementos”, acrescentou.

Gazziro explicou que, pelo conjunto total de imagens apresentadas, houve um cuidado técnico e minucioso para não deixar passar um só frame de qualquer centímetro do pescoço da pessoa que é gravada, justamente para não deixar rastros em que se identificasse uma edição por deepfake.

“Eu procurei por artefatos de edição de montagem no pescoço, mas os falsificadores provavelmente filmaram o vídeo gerado, justamente para evitar detecção… E a gente pode constatar que se trata de falsificação porque novamente o ícone indicador do chamado foi adicionado posteriormente outra vez. Mas como eu disse, embora pareça ser bem tosca, essa foi uma falsificação realizada por gente que entende bem do assunto, tecnicamente”, seguiu explicando Gazziro.

Por fim, o professor esclarece que, embora o vídeo numa primeira análise pareça “simples” e feita de qualquer jeito, para dar naturalidade, a gravação foi algo profissional do ponto de vista técnico, já que não deixou rebarbas e pontos à mostra que pudessem ser analisados, além das inserções dos ícones do WhatsApp constatadas em ferramenta forense de edição.

“A aparência final foi de algo tosco, mas na verdade esse vídeo foi muito bem-produzido pra evitar análises forenses”, concluiu o perito.

Padre Júlio já tinha sido chantageado com história de “pedofilia”. 

Em 2011 uma história de extorsão e ameaças veio à tona e levou um casal à cadeia. Anderson Marcos Batista, um ex-interno da antiga Febem, atual Fundação Casa, local e ocasião em que conheceu o religioso, e a companheira dele, Conceição Eletério, que vinham há anos tomando dinheiro ao padre Júlio Lancellotti para não o acusar falsamente de pedofilia, foram condenados a sete anos e meio de prisão. O pároco já tinha dado R$ 56 mil em dinheiro aos dois, por medo de ser acusado e ter seu nome e sua obra manchada. No entanto, depois de perceber que seguiria sendo ameaçado, resolveu levar o caso à polícia.

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