A Fundação Lagoinha aparece em relatórios do Coaf como beneficiária de transações milionárias consideradas suspeitas envolvendo estruturas relacionadas ao Banco Master
A destinação de R$ 3,6 milhões em recursos públicos à Fundação Lagoinha, entidade ligada à igreja homônima e citada em investigações sobre o chamado “caso Master”, abriu nova frente de tensão política em Brasília.
O repasse foi autorizado pelo presidente da CPMI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG) —, comissão criada justamente para apurar irregularidades bilionárias —, o que acirra questionamentos sobre conflito de interesses e uso indevido da máquina pública.
Segundo registros oficiais e informações cruzadas com relatórios de órgãos de controle, os valores foram encaminhados por meio de emendas parlamentares ou instrumentos equivalentes, com justificativas ligadas a projetos sociais. No entanto, o vínculo indireto com investigações financeiras em curso levanta suspeitas sobre a real finalidade dos recursos.
Viana admitiu ter enviado o dinheiro para a igreja, mas deu a desculpa de que não tinha relação com Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro de Daniel Vorcaro, ambos presos. Zettel foi pastor da igreja, hoje afastado.
Vorcaro tem amizade de longa data com André Valadão, líder da Lagoinha Global, rede evangélica que começou em Belo Horizonte. Vorcaro já apresentou um programa de música na Rede Super, emissora ligada à igreja.
Relatório de inteligência financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) identificou uma transferência de aproximadamente R$ 3,9 milhões do Banco Master para a empresa Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda., ligada à Lagoinha, liderada pelo pastor André Valadão.
ELO COM O CASO MASTER
A Fundação Lagoinha aparece em relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) como beneficiária de transações consideradas atípicas envolvendo estruturas relacionadas ao Banco Master.
As apurações indicam movimentações milionárias e relações financeiras complexas entre empresas, instituições religiosas e operadores investigados.
Embora não haja, até o momento, condenação judicial que implique diretamente a fundação, o simples fato de figurar em relatórios de inteligência financeira já seria suficiente para acender alertas, sobretudo, quando recursos públicos entram na equação.
A coincidência entre o fluxo de dinheiro público e a presença da entidade em relatórios do Coaf é, no mínimo, perturbadora. Isso exige explicações claras e imediatas.
CPMI SOB DESGASTE
Instalada para investigar fraudes que podem ter drenado bilhões dos cofres do INSS, a comissão agora se vê no centro de um paradoxo: o próprio comando da CPMI é alvo de questionamentos éticos.
Parlamentares da oposição e até aliados passaram a cobrar esclarecimentos formais, além da possível reavaliação da condução dos trabalhos.
Nos bastidores, cresce a pressão por medidas mais duras, incluindo pedidos de afastamento da presidência da CPMI ou abertura de investigação paralela no Conselho de Ética.
A credibilidade da comissão está em jogo. Não há como investigar desvios com independência quando pairam dúvidas sobre a conduta de quem conduz os trabalhos.
RELIGIÃO, POLÍTICA E DINHEIRO
O episódio também reacende o debate sobre a relação entre organizações religiosas, financiamento público e influência política. A Igreja Lagoinha, uma das maiores denominações evangélicas do País, possui forte presença institucional e conexões com lideranças políticas, o que amplia a sensibilidade do caso.
Especialistas alertam que, embora entidades religiosas possam receber recursos públicos para projetos sociais, a transparência deve ser absoluta, em particular quando há qualquer menção a investigações financeiras.
O problema não é a natureza religiosa da entidade, mas a opacidade. Quando há dinheiro público envolvido, o escrutínio precisa ser máximo.
SILÊNCIO E PRESSÃO
Procurada, a assessoria do presidente da CPMI não apresentou, até o fechamento desta reportagem, justificativas detalhadas sobre os critérios técnicos para o repasse.
Representantes da Fundação Lagoinha afirmam que todas as atividades são regulares e que a instituição “atua estritamente dentro da legalidade”.
Ainda assim, o silêncio parcial e a falta de transparência alimentam a crise.
Mais do que episódio isolado, o caso expõe fragilidades estruturais no controle de recursos públicos e na governança política.
Em momento em que o País tenta avançar no combate à corrupção e no fortalecimento institucional, episódios como este colocam em xeque a própria capacidade de o Estado investigar a si mesmo.
Quando os investigadores passam a ser questionados, o sistema inteiro entra em colapso de confiança.











