Nem mesmo a simbólica Avenida Paulista – centro financeiro e polo hospitalar de referência da cidade de São Paulo, com cerca de 20 hospitais de alta complexidade – parece imune à pressão da especulação imobiliária e à sanha mercadológica. A intenção da Sabesp de vender uma área nos Jardins que abriga uma antiga estação de bombeamento lança preocupação sobre a segurança do abastecimento em uma das áreas mais estratégicas da capital paulista. O imóvel fica a poucos metros da avenida, que, além de reunir esse complexo hospitalar, concentra intensa atividade comercial, financeira e empresarial.
As informações foram reveladas pela Agência Pública, que teve acesso a estudos internos da companhia. Embora a estação esteja desativada há mais de dez anos, documentos técnicos apontam sua reativação como medida prevista em todos os cenários analisados no plano diretor de expansão do abastecimento até 2045. A estrutura é classificada como “importante conexão entre os sistemas Guarapiranga e Cantareira” e sua recuperação representaria, segundo os próprios estudos da própria Sabesp, um “grande aumento na segurança de atendimento”.
A empresa alega que o prédio foi classificado como “ativo não operacional” no processo de revisão do portfólio imobiliário e afirma que o abastecimento da região ocorre atualmente por outro arranjo técnico, a partir de estação localizada na Vila Mariana, na zona Sul de SP. A eventual venda, segundo a companhia, está em fase final de avaliação técnica e econômica e depende de análise da agência reguladora.
Engenheiros ouvidos pela reportagem, sob condição de anonimato, divergem da avaliação oficial. Um deles alerta que a área da Paulista exige redundância superior à média da cidade. “Se essa via colapsar, a Sabesp não vai ter capacidade de abastecer toda essa região”, alertou. Outro técnico lembra que “todos os estudos de projeção de abastecimento para o futuro dizem que a estação do Jardins deveria ser recuperada”, classificando a estrutura como “estepe para uma região que não pode ficar sem água”.
O caso também envolve o atual diretor regional de Operações e Manutenção da Sabesp para a zona Leste e outros municípios da região metropolitana, Cláudio Hermolin. Antes de ingressar na companhia, ele foi CEO da Primaz, empresa responsável pela intermediação da venda do imóvel junto a incorporadoras interessadas. Segundo a companhia, o diretor não teve relação com o processo, pois seu vínculo com a empresa anterior já havia sido encerrado quando assumiu o cargo. Funcionários ouvidos pela Pública, entretanto, afirmam que Hermolin tem forte interlocução com a atual diretoria e pode assumir funções ainda mais estratégicas na área operacional.
A alienação do imóvel integra o movimento de revisão patrimonial iniciado após a privatização da Sabesp, efetivada em 2024 no governo ultraliberal de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Sob o pretexto de aumentar o caixa e racionalizar ativos, a companhia passou a mapear mais de 11 mil imóveis em todo o estado. O próprio CEO declarou, em entrevistas, que a venda de parte desse patrimônio poderia contribuir para reduzir tarifas.
QUESTÃO DE SEGURANÇA
Críticos da medida veem na iniciativa a expressão de uma orientação ultraliberal que submete bens públicos à lógica estritamente mercadológica, tratando infraestrutura estratégica como ativo imobiliário passível de valorização e liquidação. Para esses setores, a política de privatização conduzida pelo governo estadual reforça uma concepção em que a rentabilidade se sobrepõe ao planejamento de longo prazo e à segurança operacional.
“A Sabesp não está apenas vendendo a água, está também colocando à venda terrenos que pertencem à empresa. Com a privatização, essas áreas passaram a ser comercializadas. Estamos falando de terrenos que, em muitos casos, cumprem função pública e coletiva – áreas que poderiam abrigar praças, parques e equipamentos de interesse social, e não empreendimentos voltados exclusivamente ao mercado imobiliário”, diz o vereador Nabil Bonduk (PT), arquiteto e professor da USP.
O tema foi discutido na 6ª Conferência das Cidades, onde representantes da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo) associaram o caso ao que chamam de “processo acelerado de desmonte” da companhia. Durante o encontro, afirmaram que “barrar as privatizações é uma questão de segurança” e que a venda de estruturas estratégicas pode ampliar riscos à população.
A venda do imóvel da companhia de saneamento no Jardins ocorre em meio ao processo de alienação de ativos da companhia e chama atenção pela movimentação profissional de um de seus atuais diretores. O responsável pela Diretoria de Operações e Manutenção da região Leste da capital e de outros nove municípios da Grande São Paulo, Cláudio Hermolin, foi CEO da Primaz até janeiro de 2025, empresa que intermediou a venda do imóvel às incorporadoras interessadas. Dois meses depois, em março, passou a integrar a diretoria da Sabesp.
A sequência – a atuação da Primaz na negociação e, em seguida, o ingresso de seu então principal executivo na companhia que vendeu o ativo – levanta questionamentos internos sobre a governança do processo, segundo relatos de funcionários ouvidos pela Agência Pública. Hermolin também integra conselhos de construtoras com atuação em São Paulo e preside o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-RJ).
À Pública, a Sabesp afirmou que ele não participou da negociação. “O ingresso do referido diretor na Sabesp ocorreu após o encerramento de qualquer vínculo profissional anterior com a empresa citada”, declarou a companhia. Hermolin não respondeu ao pedido de entrevista do veículo.











