Trump recusa saída do atoleiro oferecida pelo Irã

No âmbito das negociações do Irã com EUA, delegação iraniana é recebida pelo premiê paquistanês Shehbaz Sharif (segundo a partir da direita) (Al Arabiya)

“O inimigo americano, que é vil, perverso e desonesto — tentou alcançar na mesa de negociações o que não conseguiu por meio da guerra”, manifestou-se o Conselho de Segurança Nacional do Irã. O próprio Trump descrevera o plano de 10 pontos do Irã como uma “base viável” para um acordo.

Terminaram sem acordo as negociações entre EUA e Irã em Islamabad, capital do Paquistão, com mais de 20 horas de duração, e as duas delegações já retornaram a seus países. Impasse que prorroga as preocupações com a estabilidade na Ásia Ocidental e com o choque da escassez de petróleo.

O Irã responsabilizou as “exigências excessivas” de Washington pela falta de acordo para pôr fim à guerra, especialmente sobre o enriquecimento de urânio e o controle do Estreito de Ormuz, enquanto o vice-presidente JD Vance declarou que Teerã se recusou a aceitar a “melhor e final” proposta dos EUA. 20% do petróleo e gás de que o mundo necessita passam pelo Estreito de Ormuz.

Antes das negociações, o vice-presidente iraniano, Mohamad Reza Aref, enfatizara que um acordo com os EUA era possível, desde que seus negociadores tivessem uma agenda “America First” e não uma “Israel First”.

Foram as maiores negociações desde 2015 – aquelas que geraram o acordo JCPOA de troca do mais rígido regime de inspeção nuclear já exercido pela AIEA pelo fim das sanções (rompido por Trump) – e as de mais alto nível desde a Revolução Iraniana de 1979.

Nas negociações, o Irã também reafirmou suas exigências de que o cessar-fogo se estenda ao Líbano, garantias contra nova agressão, levantamento de todas as sanções, liberação dos ativos iranianos ilegalmente congelados em bancos sob jurisdição americana e pagamento de reparações de guerra.

O chanceler paquistanês Mohammad Ishaq Dar pediu que o cessar-fogo temporário, que vai até o dia 22 de abril, seja respeitado.

Para a realização das negociações também pesaram a recusa dos europeus de se juntarem a Trump&Netanyahu no ataque a Ormuz e o veto da Rússia e da China à resolução do Conselho de Segurança da ONU que pretendia liberar aos “países dispostos” o ataque militar ao Irã, sob pretexto do Estreito.

A aceitação da proposta iraniana também significaria, para Trump, que não teria que ir às às eleições de novembro, que decidirão o controle do Congresso dos EUA, sob a rejeição dos americanos à guerra de 66% – recorde em relação a qualquer guerra anterior -, ao que se soma ao desgaste do aumento de 35% no preço da gasolina nos postos em um mês de guerra, empurrando mais gente contra o voto nos republicanos.

GUERRA NÃO PROVOCADA

As negociações ocorreram depois do fracasso da agressão não provocada do eixo EUA-Israel contra o Irã, um ataque de tentativa de decapitação que assassinou o líder supremo Ali Khamenei e os altos mandos militares iranianos, traiçoeiramente, em meio a negociação em curso em Genebra.  

A blitzkrieg da decapitação do governo iraniano fracassou e o esperado “levante contra o regime” só existia nas pranchetas dos imperialistas. A resposta iraniana surpreendeu Washington pelo seu alcance e eficácia, com mísseis e drones destruindo radares estratégicos, uma quantidade de aviões derrubados não vista desde o Vietnã, fuga do maior porta-aviões nuclear americano após um “incêndio na lavanderia” e colapso de uma operação por terra para roubar urânio enriquecido em Isfahan, sob disfarce de resgate de um piloto.

As bases e interesses americanos no Golfo foram severamente atingidos em retaliação aos ataques dos EUA-Israel, enquanto a operação Promessa Verdadeira 4 transformava o Domo de Ferro israelense em peneira.

Ao que se somou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da energia do mundo, provocando um choque de escassez de petróleo pior que os de 1973 e 1979 somados e uma alta do barril de petróleo para três dígitos.

“PASSEIO” VIRA PESADELO

O que deveria ser um passeio de “uma ou duas semanas” virou um pesadelo de 40 dias para Washington e sua ânsia por capturar reservas de petróleo no empenho de evitar o desmanche do petrodólar, substrato do privilégio exorbitante e de seu mundo unipolar em declínio.

Pouco mais de duas horas antes de recuar de sua ameaça de “destruir uma civilização inteira, que não ressuscitará”, Trump na terça-feira anunciou a aceitação do plano de paz de 10 pontos do Irã como uma “base viável” para as negociações.

No sábado à noite, Trump disse em entrevista que “não se importava” com o resultado das negociações porque estava “vencendo”, postou que seus navios de guerra estariam “limpando” o Estreito de Ormuz e foi desmentido por Teerã, e na manhã de domingo remendou anunciando um “bloqueio naval ao Estreito de Ormuz”.

A BATALHA DIPLOMÁTICA EM ISLAMABAD

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, disse que as negociações em Islamabad, no Paquistão, não produziram resultados devido às exigências excessivas dos americanos, mas observou que a diplomacia nunca termina.

Ele disse que o Irã e os EUA “chegaram a um entendimento sobre uma série de questões” e que havia “divergências de opinião em 2 ou 3 assuntos importantes”. Ele assinalou que esta rodada de negociações foi a mais longa do último ano, durando um total de 24 ou 25 horas.

 “Estas negociações ocorreram após 40 dias de guerra imposta e num ambiente de desconfiança e suspeita. É natural que não esperássemos, desde o início, chegar a um acordo numa única reunião”, afirmou. “Ninguém esperava isso.”

Baqaei afirmou que o sucesso das negociações dependia da “seriedade e boa-fé da parte contrária” e da aceitação dos direitos e interesses legítimos do Irã. Ele enfatizou que “a diplomacia nunca termina” e disse: “Essa ferramenta serve para proteger os interesses nacionais, e os diplomatas devem cumprir seus deveres tanto em tempos de guerra quanto de paz”.

Baqaei notou, ainda, “algumas novas questões, como a do Estreito de Ormuz, foram adicionadas a essas negociações, cada uma com suas próprias complexidades.”

No acordo JCPOA assinado pelo antecessor de Trump na Casa Branca, Obama, a disposição do Irã de chegar a um entendimento com os EUA já havia ficado comprovada, e foi ele quem rasgou o acordo no primeiro mandato. E cumpriu rigorosamente tudo nos três anos que vigorou.

MENTIRA REQUENTADA

Como observou o ex-agente da CIA e respeitado analista da cena internacional, Larry Johnson, ao anunciar o fracasso das negociações o vice-presidente Vance “acusou falsamente o Irã de se recusar a abandonar sua suposta busca por uma arma nuclear. Isso é apenas uma peça reciclada de propaganda sionista”.

Na verdade, a única coisa que impede de ser declarada uma “zona livre de armas nucleares” no Oriente Médio são as bombas nucleares de Israel e há 15 anos que Washington e Tel Aviv juram que “dentro de um ou dois meses o Irá terá a bomba” – embora Trump haja sido o único presidente disposto a embarcar na aventura nazi-sionista.

É a repetição da farsa das “armas de destruição em massa de Saddam”, agora sob o título de “programa nuclear do Irã” – e dez meses depois de ter anunciado a “destruição inconteste” do programa nuclear iraniano, Trump começou sua guerra de agressão exatamente sob o mesmo pretexto. Há 15 anos, Tel Aviv repete quase diariamente que o Irã está a “um mês ou dois de ter uma arma nuclear” – enquanto Israel possui a bomba desde a década de 1970.

E é essa agressão de parte de uma superpotência nuclear mais outra potência nuclear, contra um país sem armas nucleares, o que desmoraliza e mina o tratado de Não-Proliferação.

“INIMIGO VIL, PERVERSO E DESONESTO”

O Conselho de Segurança Nacional do Irã emitiu um comunicado sobre as negociações. “O inimigo americano, que é vil, perverso e desonesto — tentou alcançar na mesa de negociações o que não conseguiu por meio da guerra.”

Entre essas demandas “estão a entrega de urânio enriquecido e a abertura do Estreito de Ormuz sem soberania iraniana confirmada sobre ele”.

“O Irã decidiu rejeitar esses termos e continuar a defesa sagrada de sua pátria por quaisquer meios necessários, militares ou diplomáticos.”

O Irã agradeceu ao governo e ao povo do Paquistão pelo esforço pela paz na região e se disse confiante de que os contatos com “Islamabad e outros nossos amigos na região continuarão”.

O presidente Pezeshkian telefonou ao presidente russo Vladimir Putin comunicando os resultados da rodada de negociações com os EUA e agradecendo à Rússia pela “defesa firme dos princípios”.

MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA

Para Larry Johnson, “a ação real que vai colocar mais pressão sobre Trump começará na manhã de segunda-feira, quando o mercado de ações dos EUA despencar… De novo… E o preço do petróleo voltar a subir para o território de três dígitos.”

Ele acrescentou que Vance “fez um favor ao Irã ao se retirar primeiro e sair andando. Isso pinta o Irã sob uma luz muito favorável aos olhos do sul global, ou seja, o Irã estava disposto a negociar, mas os EUA se recusaram a negociar de boa-fé e desistiram.”

Neste domingo, Trump também fez questão de elogiar a relação de seu país com Israel, descrevendo-a como uma “parceria incrível”. “Vejam a relação com Israel. Vejam a incrível parceria que temos nisso”, afirmou Trump em entrevista por telefone à Fox News. “E como disse [o primeiro-ministro israelense Benjamin] Netanyahu, nós somos o irmão mais velho e eles são o irmão mais novo”, acrescentou.

Para alguns observadores, mais parecia uma evocação de uma antiga amizade – aquela entre ele, Trump, e seu best friend, Jeffrey Sachs, aliás, recentemente trazida por sua esposa, Melania, de volta à ordem do dia na mídia americana.

Na análise de Larry Johnson, “o Irã não iniciará novas ações militares contra Israel ou os EUA… Eles vão esperar para absorver o primeiro golpe e então lançar uma retaliação massiva. Acho que agora entendem que os EUA estão sob controle excessivo do lobby sionista para agir no interesse do povo americano.”

Outro analista assinalou que, quando começou a guerra, o objetivo declarado de Trump era a “mudança de regime”, mas a realidade no campo de combate o forçou a anunciar outro, o de “manter o Estreito de Ormuz aberto” – “um Estreito que esteve aberto nos últimos 47 anos” da revolução iraniana.

Neste domingo, no Vaticano, ao final do rosário pela paz na Praça de São Pedro, o papa Leão XIV condenou as pretensões daqueles que “exigem que o mundo inteiro se ajoelhe” diante de suas demandas – e quem mais poderia ser, senão Trump ? – e conclamou “nunca mais à guerra!”.

Dirigindo-se diretamente aos líderes mundiais, o papa os convocou a sentarem “à mesa do diálogo e da mediação, não à mesa onde se planeja o rearmamento e se decidem ações letais”. “Chega de idolatria do eu e do dinheiro! Chega de ostentação de poder! Chega de guerra! A verdadeira força se demonstra a serviço da vida”, concluiu.

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