Quatro dias após o Bureau de Análise Econômica revelar que a economia dos EUA desacelerou para pífios 1,4% (anualizado) no último trimestre de 2025 e com as pesquisas dando forte desaprovação a seu governo, o presidente Donald Trump, no mais longo discurso de Estado da União da história, asseverou que o país vive “uma transformação nunca antes vista”, prometeu seguir com a perseguição aos imigrantes, anunciou ter restaurado a “dominação americana sobre o Hemisfério Ocidental” e ameaçou o Irã, além de ter que chamar de “lamentável” a decisão da Suprema Corte que declarou ilegal seu tarifaço.
“Nosso país está vencendo novamente. Aliás, estamos vencendo tanto que realmente não sabemos o que fazer. As pessoas me dizem: ‘Por favor, por favor, por favor, Sr. Presidente, estamos vencendo demais. Não aguentamos mais. Não estamos acostumados a vencer em nosso país. Até o senhor chegar, sempre perdíamos, mas agora estamos vencendo demais.’ E eu digo: ‘ Não, não, não. Vocês vão vencer de novo ‘”, declarou Trump no delirante discurso com que buscou afastar os temores de derrota nas eleições de meio de mandato em novembro.
Também se autoelogiou pelo ataque à Venezuela e pela execução de um chefe do narcotráfico no México. Ameaçou de novo o Irã, que estivera prestes a bombardear no final de semana passado.
Trump “tentou impor sua versão de uma realidade que não existe para a maioria dos americanos” e “contrariando todas as evidências declarou que a economia está em plena expansão”, destacou o jornalista David Brooks.
Com a brutalidade da perseguição aos imigrantes afetando especialmente o eleitorado latino e gerando enormes protestos, como o repúdio ao assassinato, pelo ICE, de dois cidadãos americanos, uma mãe de três filhos e um enfermeiro de veteranos, Trump tentou inverter a questão afirmando que era seu dever “defender os americanos, não os imigrantes ilegais”.
No discurso, Trump também fez provocações contra a combativa deputada somali-americana Ilhan Omar, cuja voz se fez ouvir: “mentiroso” e “assassino de americanos”. O deputado Al Green, que exibia um cartaz com os dizeres “pessoas negras não são macacos”, em alusão ao vídeo fake do presidente, foi escoltado pela segurança para fora do Congresso. A deputada Norma Torres exibiu um cartaz com as fotos dos assassinados pela Gestapo de Trump em Minneapolis: Alex Pretti e Rennee Good.
Trump também se vangloriou de ter trazido todos os reféns israelenses de Gaza, sem citar as mais de 75 mil vítimas palestinas do genocídio, e teceu loas à sua “paz pela força”.
Como reforço às suas “conquistas”, amedalhou a equipe masculina de hockei; a feminina se recusou a ir. Condecorou o piloto do helicóptero que cometeu crimes de guerra na Venezuela e trouxe sequestrado o presidente legítimo, Maduro.
A CHAGA ABERTA DE EPSTEIN
A bancada democrata tinha outros convidados: a família de Victoria Giuffre, a mais conhecida vítima do bilionário pedófilo Epstein, e que se suicidou no ano passado. As fotos dos “best friends” Epstein e Trump, mais as respectivas damas, seguem lembrando a todos até onde vai a podridão.
No dia do discurso veio a público que o Departamento de Justiça está escondendo documentos que incriminam diretamente Trump, denúncia feita por uma então menina de 14 anos apresentada a ele por Epstein, segundo a Rádio Pública Nacional.
Em outro momento, Trump foi ovacionado de pé pela bancada republicana ao cinicamente se gabar de ter cortado o vale-alimentação de 2,4 milhões de pessoas. “Em um ano, retiramos 2,4 milhões de americanos — um recorde — dos vale-alimentação”. Trump também exigiu o fim das cidades-santuário, cuja legislação local apoia os imigrantes.
Para o senador democrata Alex Padilla, Trump fez no discurso o que faz de melhor: “mentir”. Se a performance vai ser suficiente para reverter um quadro que diariamente parece mais difícil nas eleições de novembro, ou não, fica para ser visto. Quase todas as eleições fora de calendário feitas no período recente tiveram os democratas como vencedores.
A “transformação nunca vista” citada por Trump também inclui deportar menos gente que Obama, mas fazê-lo com extrema brutalidade e arbítrio.
ESTADO DO PÂNTANO
Oposicionistas realizaram em paralelo atos contra o discurso de Trump, como o denominado “Estado do Pântano”, que teve lugar no Pen Club, em que também participaram artistas como Robert De Niro e Mark Rufallo, e o “Estado da União Popular”, cujo nome ironiza a promessa do primeiro mandato de “acabar com o pântano”.
No evento, o prefeito democrata de Chicago, Brandon Johnson, contestou a declaração de Trump de que trouxe riqueza e prosperidade ao país. “Ele deixou de lado que a riqueza e prosperidade estão concentradas nas mãos de poucos”. O prefeito também rechaçou a alegação de Trump de que desencadeou um tsunami de investimento na manufatura.
“Ao invés de fazer frente aos problemas urgentes da pobreza e desinvestimento, ao invés de restaurar o financiamento da Saúde que ele cortou, ao invés de fazer qualquer coisa para enfrentar a crise do custo de vida, o fato de que o aluguel é alto demais e os salários muito baixos neste país, este presidente falou de uma América que não existe para centenas de milhões de americanos no país inteiro”.
De acordo com uma pesquisa divulgada na segunda-feira pelo Pew Research Center, 72% dos americanos classificam as condições econômicas atuais como regulares ou ruins. 52% afirmam que as políticas de Trump pioraram a situação econômica e apenas 28% dizem que melhoraram.
Conforme pesquisa da AP, 69% dos americanos acreditam que o país está seguindo na direção errada (contra 29% ). Pesquisa da CNN divulgada na véspera do discurso revelou que 68% dos entrevistados consideram que “Trump não está dando atenção necessária aos problemas mais importantes do país”. Outra sondagem, Washington Post/ABC News/Ipsos apontou que o desempenho de Trump é desaprovado por 60%. Sendo que 57% desaprovam seu trato da economia; 65%, a inflação; e 64% as tarifas.
GOVERNO DOS BILIONÁRIOS, PELOS BILIONÁRIOS E PARA OS BILIONÁRIOS
Trump também tentou capitalizar que os 250 anos da independência dos Estados Unidos vai ocorrer no próximo 4 de Julho, e em seu discurso disse demagogicamente que a revolução de 1776 “continua” e que, “quando Deus precisa que uma nação realize milagres, Ele sabe a quem pedir”. Em caso de dúvida, é só perguntar na Coreia, Vietnã, Iraque, Líbia e Hiroshima.
Agora, com Trump e seus cúmplices, os EUA vivem sob um governo de bilionários, pelos bilionários e para os bilionários e, como mostrou o escândalo Epstein, marcado pela degeneração e em estado avançado de decomposição.
O nível de desigualdade social é historicamente sem precedentes. O 1% mais rico das famílias agora controla 31,7% de toda a riqueza, a maior parcela desde que o Fed começou a monitorar esses dados em 1989. Eles detêm 55 trilhões de dólares, quase tanto quanto os 90% mais pobres juntos. A riqueza combinada de 935 bilionários americanos disparou para 8,1 trilhões de dólares no final de 2025.
O dólar caiu mais de 9% em 2025, seu pior desempenho anual desde 2017, enquanto os países BRICS aumentam os acordos comerciais em moeda local de 35% para 50%. Os aumentos acumulados de preços desde 2020 têm sido devastadores: alimentos subiram mais de 25%, os custos da moradia ainda sobem 3% ao ano, o gás natural subiu quase 10%. O salário mínimo federal está congelado desde 2009.
Também sua promessa de que iria reindustrializar o país com o tarifaço não foi cumprida. No ano passado, a indústria teve uma perda de 83.000 postos de trabalho. O déficit comercial aumentou.
A dívida nacional é de 38,4 trilhões de dólares, e está aumentando a 8 bilhões de dólares por dia. O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) projeta o déficit em 1,9 trilhão de dólares este ano, crescendo para 3,1 trilhões de dólares até 2036, com a dívida alcançando 120% do PIB, maior do que em qualquer outro momento da história do país.
“ERA DE OURO” PARA POUCOS
“Vivemos em um país onde temos uma realidade para as pessoas comuns e outra para os ricos, os bem conectados e os bem protegidos”, disse a deputada Summer Lee, antecipando a afirmação de Trump de uma “era de ouro da América” apesar dos custos crescentes, da desigualdade crescente e da corrupção impressionante.
No ato, o senador Chris Murphy disse à multidão reunida a poucos quarteirões do Capitólio dos EUA que “estes não são tempos normais, e os democratas precisam parar de agir normalmente.”
Também presente, o deputado Greg Casar, presidente do Caucus Progressista do Congresso, disse porque não foi ao Capitólio”. “Por uma ou duas horas, ou três ou quatro, um homem que ganhou 4 bilhões de dólares sendo presidente vai dar uma palestra para vocês, o povo americano, sobre o quanto vocês estão bem”, disse Casar. “Um homem que está construindo um salão de baile dourado vai te dizer que, se você está lutando para sobreviver, a culpa é sua, porque ele está arrasando”.











