“Fechamento generalizado de salas por Tarcísio causa evasão recorde em SP”, dizem professores

Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Foto: Agência Brasil)

Estado registrou queda de matrículas no Ensino Médio 2,5 maior que a média nacional 

São Paulo foi o estado que registrou a maior queda de matrículas no ensino médio em todo o país. Dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram que a rede estadual paulista perdeu 17% dos estudantes nessa etapa em apenas um ano – um recuo 2,5 vezes maior que a média nacional, que foi de 6,62%.

Em números absolutos, a rede estadual de São Paulo passou de 1.514.428 alunos em 2024 para 1.257.489 em 2025, uma redução de 256.939 matrículas. A queda ocorre no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), cuja política educacional tem sido marcada pelo fechamento de turmas, avanço das escolas cívico-militares, imposição do chamado “novo ensino médio” e demissões de professores.

Enquanto a rede pública perde estudantes, o ensino privado cresce. No mesmo período, as escolas particulares de São Paulo registraram aumento de 2,46% nas matrículas, passando de 301.555 para 308.999 alunos — movimento que evidencia o avanço do processo de privatização da educação no estado.

A Secretaria de Educação paulista afirma que a redução se deve a mudanças na forma de contabilização das matrículas, alegando que antes um mesmo estudante poderia aparecer mais de uma vez quando vinculado a diferentes itinerários formativos. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo Censo Escolar, informou que solicitou uma análise para verificar a contestação apresentada pelo governo estadual.

Mesmo com essa justificativa, os dados divulgados no último dia 26 revelam forte diminuição de estudantes em diferentes faixas etárias. Apenas entre jovens de 15 a 17 anos, a rede estadual paulista perdeu mais de 217 mil matrículas. Também houve redução entre alunos de 18 a 20 anos e entre aqueles com mais de 20 anos.

A retração acompanha uma política de enxugamento da rede. Professores denunciam o fechamento sistemático de turmas, especialmente no período noturno, o que atinge diretamente estudantes trabalhadores. Com menos classes disponíveis à noite, muitos jovens e adultos acabam sem alternativa para continuar os estudos.

A redução também aparece na Educação de Jovens e Adultos (EJA), que caiu de 101.632 matrículas em 2024 para 82.530 em 2025, uma queda de 18,8%. Em 2015, a rede estadual de São Paulo contava com 2.803 escolas que ofereciam aulas no período noturno. Atualmente, esse número caiu para 1.633. Em muitas unidades, o noturno ainda existe, porém com quantidade de turmas bem menor do que no passado, em geral voltadas sobretudo à EJA.

Em entrevista ao Hora do Povo, a professora Flavia Biscain, coordenadora da subsede Lapa da APEOESP, afirmou que o governo tem promovido um verdadeiro enxugamento da rede estadual. “Há fechamento generalizado de salas, principalmente do ensino noturno e da EJA. Muitos estudantes que trabalham não encontram vagas à noite e acabam abandonando a escola”, disse.

Ela também denuncia que alunos com faltas por problemas de saúde, questões familiares ou trabalho acabam retirados das listas de chamada, perdem a matrícula e contribuem para o fechamento de turmas, enquanto outras salas ficam superlotadas. “O resultado são professores desempregados, alunos fora da escola e piora na qualidade do ensino”.

Mobilização contra o fechamento do ensino noturno na EE Gil Vicente, em São Paulo – Foto: Reprodução/Redes Sociais

TENDÊNCIA BOLSONARISTA

A queda nas matrículas do ensino médio também foi significativa em outros estados governados por aliados do bolsonarismo. No Paraná, administrado por Ratinho Júnior (PSD), a redução foi de 8,65% entre 2024 e 2025. O estado tem sido apontado como exemplo por setores que defendem a militarização e a digitalização da educação, com forte expansão das escolas cívico-militares e a chamada plataformização do ensino.

Assim como em São Paulo, educadores apontam que a redução de matrículas também está relacionada ao fechamento de turmas presenciais, à diminuição da oferta do ensino noturno e à insuficiência de vagas na Educação de Jovens e Adultos, modalidade voltada a trabalhadores e pessoas que não puderam concluir os estudos na idade regular.

Também em entrevista ao Hora do Povo, o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da USP e integrante da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, afirmou que a forte queda de matrículas em estados como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul está relacionada à forma como esses governos implementaram a reforma do ensino médio aprovada durante o governo de Michel Temer.

Segundo ele, a adoção acelerada do modelo e a imposição de itinerários formativos muitas vezes desconectados dos interesses dos estudantes contribuíram para ampliar a evasão escolar. “Esses estados optaram por manter o modelo estabelecido no governo Temer e avançaram rapidamente na implementação dos itinerários, que em muitos casos não têm relação com o interesse dos alunos. Isso acabou ampliando a evasão”, apontou.

SEGREGAÇÃO

Daniel também alertou que algumas redes estaduais acabam elevando artificialmente indicadores educacionais ao excluir estudantes mais vulneráveis. “O fato de o Paraná ir bem no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) se dá por uma questão meramente de estratégia do estado. Na prática, uma rede que exclui tem chance de ir melhor no Ideb porque acaba optando por excluir aqueles alunos que merecem e precisam de maior reforço do Estado, ou seja, aqueles alunos que precisam ter melhor educação”, explicou.

“Quando você exclui os alunos que são mais vulneráveis, que foi o que aconteceu em SP, MG, PR e RS, o resultado é que a sua nota do Ideb sobe, mas é uma nota artificial. Aliás, a política de educação desses estados é uma política artificial”, reiterou.

O experimento iniciado neste ano em escolas estaduais pela gestão de Tarcísio de Freitas ilustra claramente a crítica de Daniel Cara. A medida prevê a separação de estudantes de uma mesma série de acordo com o rendimento escolar. Chamado de “Projeto Voar”, o programa está sendo aplicado em 147 unidades da rede paulista e divide alunos dos anos finais do ensino fundamental em turmas diferentes conforme o desempenho obtido em avaliações de língua portuguesa e matemática.

Segundo a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, o objetivo seria acelerar a aprendizagem dos estudantes com maior defasagem. Na prática, as turmas passam a ser classificadas entre “padrão”, com alunos que apresentam menor atraso escolar, e “adaptadas”, voltadas para aqueles considerados abaixo do nível esperado. Dados apresentados pela própria secretaria indicam que cerca de 74% das turmas incluídas no projeto foram enquadradas nesse segundo grupo.

Para o professor Fernando Cássio, também da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, a iniciativa revela os efeitos da política de padronização curricular adotada pela gestão estadual. Em vez de ampliar a autonomia docente para lidar com as diferenças de aprendizagem dentro da sala de aula, afirma ele, o governo opta por separar os estudantes, o que pode aprofundar processos de rotulação e estigmatização.

“A secretaria optou e exigiu essa padronização curricular, o que pode levar a um currículo inatingível para muitos alunos”, disse à Folha de S.Paulo. “Ao restringir a autonomia dos professores na elaboração das aulas, na adaptação aos alunos reais e aos seus níveis de aprendizado, a padronização pode gerar frustração e sensação de fracasso”, avalia.

MANIPULAÇÃO DE RESULTADOS

Denúncias de manipulação de dados escolares vieram à tona no Paraná. No final de 2025, a deputada federal Carol Dartora (PT) encaminhou ao Ministério Público do Paraná (MPPR) uma representação relatando suspeitas de fraude educacional, assédio institucional e pressão sobre professores da rede estadual para aprovação de estudantes independentemente da aprendizagem.

Segundo a parlamentar, os relatos recebidos por seu mandato indicam “indícios de lançamento de presença de alunos que não frequentaram aulas e alteração de notas para inflar índices de aprovação”, prática que ela classificou como “maquiagem de dados”.

As denúncias partiram de professores da rede pública, que relatam pressões recorrentes no fechamento do ano letivo para elevar artificialmente os índices de aprovação. Em grupos de docentes, educadores descrevem conselhos de classe esvaziados de seu papel pedagógico.

“A gente se reúne fingindo que decide, quando na verdade só confirma o que já foi decidido por números e planilhas”, relatou uma professora. Outro docente resumiu o processo: “Não é conselho, é homologação. Reprovar virou problema administrativo, não pedagógico”.

JOSI SOUSA

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