Estudo mostra intensa promiscuidade entre corporações e bilionários com o poder nos cargos ocupados por eles no atual governo
EUGENE WEBB *
Não é de hoje que os governos dos Estados Unidos tem mantido relações íntimas e profundas com as corporações financiadoras das campanhas dos candidatos dos partidos democrata e republicano para presidente, câmara e senado. Depois de eleitos, os presidentes nomeiam para ministros e o segundo escalão dos ministérios indivíduos que têm ligação profunda ou interesses econômicos com estas mesmas corporações.
Esta sempre foi a regra do jogo. Porém, no governo Trump 2.0 esta regra mudou de patamar, segundo denúncias do relatório recente publicado pelo site de jornalismo investigativo ProPublica, que no Brasil se chama Agência Pública. A ProPublica teve acesso a uma base de dados de documentos sobre vínculos empregatícios, transações financeiras, atividades de lobby, e conflitos de interesses declarados por 1.500 membros do governo Trump. Esses documentos são exigidos por lei nos EUA no Executivo e na burocracia governamental.
Segundo a investigação da ProPublica, conduzida desde 2025, vários dirigentes da alta cúpula do governo Trump têm sérios conflitos de interesses, a começar pelo próprio Trump, que no primeiro dia como presidente cancelou um decreto executivo do governo Biden que exigia que todos os nomeados pelo presidente cumprissem um juramento ético, que os proibia de trabalhar em assuntos relacionados com suas atividades prévias de lobby ou antigos clientes por 2 anos. Semanas depois, Trump demitiu 17 inspetores federais encarregados de investigar fraudes, corrupção e conflitos de interesse no governo federal. No mesmo período ele demitiu o chefe do Escritório de Ética Governamental, que é a agência que supervisiona o cumprimento das normas éticas no Executivo.
Como exemplo do conflito de interesses de Trump, ele aceitou um presente de um avião Boeing 747, avaliado em 400 milhões de dólares, do governo do Catar e transferiu quase 1 bilhão de dólares de um programa de armas nucleares para reequipá-lo. Além disso, Trump tem defendido abertamente o enriquecimento financeiro da família durante o seu mandato, incluindo transações com criptomoedas que favorecem investidores que o bajulam.
Quem também se viu envolvida em escândalo financeiro no ano passado foi a Procuradora Geral, Pam Bondi, famosa por ocultar os arquivos do caso Epstein. Ela vendeu entre 1 e 5 milhões de ações da Trump Media no mesmo dia que o presidente anunciou as novas tarifas que causaram a grande queda de Wall Street. Aliás, mais de doze funcionários da alta cúpula do Executivo e assessores de parlamentares fizeram transações suspeitas desde a posse de Trump no ano passado. A maior parte das transações envolveram a venda de ações antes da queda da bolsa de valores Wall Street porque havia sinais de que as tarifas iriam gerar uma guerra comercial.
Um exemplo claro da total falta de ética no governo é o caso de Steven Feinberg, Vice-ministro da Guerra, e seu vínculo com a Cerberus e o Projeto “Cúpula de Ouro,” que é o projeto de uma bateria de armas implantadas na terra, no mar ou no espaço capazes de destruir mísseis lançados contra os EUA. Este projeto é um filhote do malfadado “Guerra nas Estrelas”do governo Reagan, que foi ressuscitado por Trump como um escudo de defesa “infalível” contra inimigos como a Rússia ou a China.
Feinberg co-fundou a Cerberus em 1992 e na sua declaração listou bens avaliados em pelo menos 2 bilhões de dólares quando foi nomeado por Trump no ano passado. Ele disse no seu “acordo ético” que iria desistir da sua parte na empresa, potencialmente transferindo os seus recursos para os filhos adultos através de um truste. Trata-se uma manobra legal dentro da lei federal sobre conflito de interesse, mas que, segundo expertos em ética, contraria o espírito da lei. Em dezembro de 2025 o Ministério da Guerra começou a selecionar companhias e alocou U$151 bilhões para o projeto.
O Ministério já selecionou mais de 2000 firmas e a Cerberus é dona ou é investidora majoritária em pelo menos quatro delas: a North Wind, a Stratolaunch, a Red River Technology e NetCentrics Corp. Feinberg disse aos encarregados de fazer cumprir a ética no governo que continuaria a manter contratos com a Cerberus para contabilidade, impostos e serviços de saúde no curto prazo, mas que encontraria outras firmas até abril de 2026. Entretanto, oficiais do Ministério da Guerra aprovaram o pedido de Feinberg para estender o relacionamento financeiro com a Cerberus sem prazo de término. Embora não esteja claro qual será o papel de Feinberg na seleção de empresas que receberão contratos para o projeto, uma coisa é certa: ele será o supervisor do projeto “Cúpula de Ouro.”
A ProPublica divulgou em dezembro que Trump nomeou mais de 200 indivíduos que eram coletivamente donos, eles mesmos ou com seus cônjuges, de entre 175 a 340 milhões de dólares em investimentos em criptomoedas quando declararam seus documentos sobre ética. Muitos deles têm cargos de supervisão ou influenciam a regulamentação da indústria de cripto moedas.
Vários funcionários do alto escalão do governo federal, como Jamieson Greer, chefe do Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos; Kwan Kim, assessor sênior do Escritório, ou Susie Wiles, chefe de gabinete da Casa Branca, não revelaram suas atividades prévias de lobby ou como executivos de corporações. Kedric Payne, Diretor de Ética do grupo Centro Legal de Campanhas, afirmou que a falta de transparência é preocupante porque quando nomes de clientes anteriores são omitidos é virtualmente impossível para o público saber se uma ação de um funcionário do governo favorece um antigo cliente.
O Centro tem feito inúmeras queixas e demandas legais contra o conflito de interesses e a corrupção no governo Trump, porque ministros fazem abertamente marketing para compra de ações para empresas, bilionários que doam para campanhas podem influenciar indústrias onde têm grandes conflitos de interesse, e o presidente pode decapitar as agências governamentais cujo objetivo é vigiar a administração Trump 2.0. Quando queixas ou denúncias de corrupção são feitas e encaminhadas para o Ministério da Justiça, nada acontece ou as investigações sobre elas são adiadas por procedimentos burocráticos.
Para maiores detalhes visitem os sites
https://www.propublica.org/article/trump-administration-financial-disclosures-steve-feinberg
https://campaignlegal.org/update/lack-ethics-enforcement-government-provides-blueprint-reform
* Professor, analista político e colaborador do HP nos Estados Unidos











