PF mira Fictor: conexão com o CV, fraude de R$ 500 milhões e tentativa de comprar o Master

Operação da PF desarticulou grupo comandado do Rafael Gois (Fotos: Divulgação - reprodução - Redes sociais)

Operação Fallax revela infiltração em instituições financeiras, uso de empresas de fachada e conexões com facções criminosas. Investigação alcança executivos ligados a grupo que tentou adquirir banco liquidado pelo BC

A Polícia Federal avançou sobre sofisticado esquema de fraudes bancárias que pode ter movimentado mais de R$ 500 milhões e atingido diretamente a Caixa Econômica Federal.

A ofensiva, batizada de Operação Fallax, tem como um dos focos executivos ligados ao Grupo Fictor — incluindo seu CEO, Rafael Góis, e o ex-sócio Luiz Rubini — e lança luz sobre engrenagem que combinava cooptação interna, lavagem de dinheiro e ramificações com o crime organizado.

Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços na cidade de São Paulo, onde também foi determinada a quebra de sigilo bancário de Rubini. Ao todo, a Justiça Federal autorizou 43 buscas e 21 prisões preventivas em 3 Estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

Até o meio da tarde de quarta-feira (25), ao menos 15 pessoas haviam sido presas, entre elas 2 gerentes da Caixa e 1 ex-gerente do Banco do Brasil, indicando o grau de infiltração do grupo dentro do sistema financeiro.

ENGENHARIA DA FRAUDE

As investigações, iniciadas em 2024, apontam para estrutura organizada e altamente profissionalizada. Segundo a PF, o grupo operava mediante cooptação de funcionários de instituições financeiras, que inseriam dados falsos em sistemas bancários para viabilizar saques e transferências indevidas.

Os valores desviados eram então pulverizados por meio de empresas de fachada e estruturas empresariais interligadas — algumas vinculadas a um mesmo grupo econômico — antes de serem convertidos em bens de luxo e criptoativos, estratégia destinada a dificultar o rastreamento.

A dimensão do esquema também envolve o uso do mesmo modelo de lavagem por integrantes do CV (Comando Vermelho), o que amplia o alcance e a gravidade das apurações.

CONEXÃO COM O CASO BANCO MASTER

O avanço da investigação atinge personagens já expostos em recente crise financeira. Em novembro do ano passado, o Grupo Fictor anunciou a compra do Banco Master, em operação que previa aporte de R$ 3 bilhões com participação de investidores estrangeiros.

Horas depois, porém, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial da instituição, então controlada por Daniel Vorcaro.

O episódio desencadeou crise reputacional no Fictor, que enfrentou onda de resgates estimada em R$ 2 bilhões e acabou levando empresas do grupo a pedir recuperação judicial.

Agora, a inclusão de seus principais nomes na operação policial amplia as incertezas sobre a real extensão das irregularidades.

BLINDAGEM PATRIMONIAL E MEDIDAS JUDICIAIS

A Justiça determinou o bloqueio e sequestro de bens — incluindo imóveis, veículos e ativos financeiros — até o limite de R$ 47 milhões, numa tentativa de descapitalizar a organização.

Também foram autorizadas quebras de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 empresas, além de medidas para rastreamento de ativos.

Os investigados poderão responder por organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva e crimes contra o sistema financeiro nacional.

As penas somadas podem ultrapassar 50 anos de prisão.

DEFESAS E POSICIONAMENTOS

A defesa de Rafael Góis afirmou que apenas um celular foi apreendido durante a operação e que irá se manifestar após ter acesso aos autos. Os advogados de Luiz Rubini disseram não ter tido conhecimento prévio da investigação e que se posicionarão oportunamente.

Por meio de nota, a Caixa destacou que a operação é resultado direto de comunicações feitas pelo próprio banco no âmbito de seus mecanismos de controle e monitoramento.

A instituição afirmou manter políticas rigorosas de prevenção a fraudes e reiterou compromisso com a integridade e a proteção do patrimônio público, e ainda ressaltou que colabora ativamente com as autoridades.

SINAL DE ALERTA SISTÊMICO

Mais do que caso isolado, a Operação Fallax expõe vulnerabilidades estruturais no sistema financeiro, especialmente no controle interno de grandes instituições.

A presença de funcionários cooptados e o uso reiterado de mecanismos empresariais para ocultação de recursos indicam que o esquema operava com alto grau de sofisticação e, possivelmente, por período prolongado sem detecção.

A conexão com agentes do crime organizado reforça o caráter híbrido da organização investigada — capaz de transitar entre o mercado formal e atividades ilícitas — e coloca pressão adicional sobre órgãos reguladores e instituições financeiras para revisão de protocolos de segurança e compliance.

Nota da PF na íntegra:

A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (25/3), a Operação Fallax, com o objetivo de desarticular organização criminosa especializada em fraudes bancárias, além da prática de estelionato e de lavagem de dinheiro.

A investigação teve início em 2024, quando foram identificados indícios de um esquema estruturado voltado à obtenção de vantagens ilícitas. O grupo criminoso atuava por meio da cooptação de funcionários de instituições financeiras e da utilização de empresas, inclusive vinculadas a grupo econômico específico, para a movimentação de valores e para a ocultação de recursos ilícitos.

Estão sendo cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e 21 de prisão preventiva, expedidos pela Justiça Federal de São Paulo, em cidades dos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia.

Também foi determinado o bloqueio e o sequestro de bens imóveis, de veículos e de ativos financeiros até o limite de R$ 47 milhões, com o objetivo de descapitalizar a organização criminosa. As fraudes investigadas podem alcançar valores superiores a R$ 500 milhões. Foram ainda autorizadas medidas cautelares para o rastreamento de ativos financeiros, incluindo a quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 pessoas jurídicas.

De acordo com as investigações, a organização utilizava empresas de fachada e estruturas empresariais para dissimular a origem dos recursos ilícitos. Funcionários de instituições financeiras inseriam dados falsos nos sistemas bancários para viabilizar saques e transferências indevidas. Posteriormente, os valores eram convertidos em bens de luxo e em criptoativos, com o intuito de dificultar o rastreamento.

A operação contou com o apoio da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, de estelionato qualificado, de lavagem de dinheiro, de gestão fraudulenta, de corrupção ativa e passiva e crimes contra o sistema financeiro nacional, cujas penas, somadas, podem ultrapassar 50 anos de reclusão.

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