Cantor e compositor cubano que “exigiu” – e recebeu – do governo o seu fuzil para defender o país das ameaças de Trump, disse que “todos os que conhecem o longo histórico de intervenções, sabotagens e invasões dos EUA empunharão armas”
“Neste momento, o mundo é governado por um regime autoritário, belicista, ladrão e assassino. E não por Cuba”, afirmou o cantor e compositor Silvio Rodríguez, condenando as recentes declarações de Donald Trump de que os Estados Unidos iria “se adonar” da Ilha caribenha.
Foi diante de tais ameaças, explicou Silvio, que “exigiu” – e recebeu – do governo de Miguel Díaz-Canel o seu fuzil AKM Kalashnikov, e que se encontra pronto para “empunhar armas”, da mesma forma como “todos os que conhecem o longo histórico de intervenções, sabotagens e invasões dos EUA”.
Questionado sobre o que lhe levou a reivindicar seu AKM, o cantautor foi sucinto: porque “eles já tinham feito o que fizeram com a Venezuela e ainda estão atolados no Irã”. “E eu disse: ‘Estão vindo atrás de nós’, então escrevi um pequeno post no meu blog Segunda Cita (em que pedia o AKM), e, para ser honesto, não achei que teria esse impacto. Mas teve”, assinalou em entrevista ao El País.
Lembrando das suas origens nas Forças Armadas e de ter iniciado a tocar violão no serviço militar, o autor de Ojalá, Pequeña Serenata Diurna, Canción del Elegido, Unicornio e La Maza, entre mais de 500 canções de amor, luta e esperança, Silvio Rodriguez contou que está mobilizado, assim como todo o seu povo, que não abdicará da sua soberania.
Em relação a uma “manifestação de cubanos pedindo que o governo seja derrubado à força, ou seja, praticamente pedindo uma invasão”, disse que “não iria dizer o que pensa daqueles que querem que seu próprio país seja bombardeado e invadido”.
Para o cantautor, uma América Latina dominada por governos de direita, corresponde ao “atual clima de agressão no mundo”, que muitos países acham melhor não provocar. “É duro que tanto tenha sido lutado pela unidade latino-americana e que, de repente, haja países que estejam se vendendo”, condenou.
De acordo com Silvio, devido ao “recrudescimento do bloqueio’ norte-americano com Trump – que já dura mais de seis décadas –, “as pessoas estão passando muito mal, com idosos como ele, com economias de toda uma vida, às vezes não podendo nem comprar uma caixa de ovos”. Da mesma forma, relatou, “a situação nos hospitais é crítica, as escolas estão fechando e as universidades estão enviando seus bolsistas para as províncias (interior)”.
Questionado sobre o que pensa do fato do Comboio Nossa América ter sido apelidado pela oposição de “turismo ideológico”, respondeu “achar lógico que aqueles que querem derrubar Cuba deem nomes tristes a atos de solidariedade”. “Faz parte de uma campanha difamatória à qual temos sido submetidos há muitos anos. Eles falam do regime e dessas palavrinhas que gostam, mas todos nós temos regimes”, rechaçando os que são sustentáculo de ladrões.
Para os vende-pátria, assinalou, a única coisa que falta é “adicionarem mais uma estrela” à bandeira norte-americana, enfatizando que “não gostaria que isso acontecesse com Cuba, de jeito nenhum”. “Os Estados Unidos são um país complexo, mas que deve ser levado em consideração devido ao seu poder e à sua ‘capacidade de persuasão’”.
Apontado como um homem de “amores e ódios”, que para uns é símbolo da esquerda e para outros o “trovador do regime”, Silvio sorri: “Me odeiam”. E recorda sua canção El necio (O tolo): Dizem que vão arrastar-me sobre rochas quando a Revolução venha abaixo, que vão esmagar minhas mãos e minha boca, que vão arrancar meus olhos e meu badalo (pênis)/ Eles vêm me convidar a arrepender-me, vêm me convidar a que não perca, vêm me convidar a indefinir-me, vêm me convidar a tanta merda/ Dirão que passou de moda a loucura, dirão que a gente é má e não merece, mas eu partirei sonhando travessuras, talvez multiplicando pães e peixes.
“Isso porque uma vez quebraram meu violão, e eu ouvi o que fariam conosco no dia em que a Revolução caísse. Nunca odiei ninguém o suficiente para desejar algo tão terrível. Não desejo mal à oposição, mas também não desejo a vitória deles. Não por mim, mas pelo que isso significaria para este país”, esclareceu.
Sobre a desesperança presente em parcela da juventude cubana, Silvio acredita ser compreensível, já que ela nasceu em um país empobrecido. “É preciso entender isso; as circunstâncias os levaram a pensar dessa forma, mas me recuso a acreditar que o futuro será marcado pela ausência de sentimentos humanos. Se fosse esse o caso, a vida seria um fracasso. E não acredito que seja”, concluiu Silvio Rodríguez.











