Chamado de “Anticristo” nas redes sociais, depois de ofender o papa Leão XIV, postar uma imagem gerada por AI em que posa de ‘Jesus’ abençoando alguém que lembra o pedófilo Epstein, só que mais novo, e ameaçar “destruir uma civilização inteira que não irá ressuscitar”, o presidente Donald Trump resolveu desacatar geral e postou nesta quarta-feira (15) uma imagem de si mesmo sendo “abraçado por Jesus”.
O escárnio e reincidência na usurpação da imagem de Jesus deverão ampliar a repulsa a Trump, que se repete mundo afora e, dentro dos EUA, empoderar as vozes que exigem uma investigação sobre sua sanidade pelo Congresso, com vistas à aplicação da 25ª Emenda à constituição, aprovada no século XIX, para resolver a interdição de um presidente que pirou.
É de prever que mais católicos irão se desfazer dos bonés vermelhos MAGA e os incinerar, fenômeno que as redes sociais estão mostrando.
Na nova postagem, o inquilino da Casa Branca acrescentou a mensagem: “os Lunáticos da Esquerda Radical podem não gostar disso, mas acho que é bem legal!!” ao lado do novo pastiche.
Disposto a mostrar serviço ao chefe, seu vice, JD Vance, aconselhou o papa a “ter cuidado ao falar sobre questões de teologia”, se referindo ao rechaço de Leão XIV à “espada” e a favor da paz, se referindo à agressão não provocada desencadeada pelos EUA e Israel contra o Irã. O comentário foi feito durante uma atividade em campus universitário promovida por uma organização trumpista.
“INACEITÁVEL”
Tirando Vance e outros puxa-sacos, não são muitos os que consideram prudente embarcar nessa canoa. Giorgia Melloni, primeira-ministra fascista italiana e notória admiradora de Trump, se viu forçada, pelo repúdio generalizado na Itália, a dizer que a declaração de Trump contra o papa era “inaceitável”.
“Inaceitável é ela”, postou Trump de volta, acrescentando ter se enganado de que ela era “corajosa”. Praticamente todos os jornais italianos repeliram os xingamentos de Trump a Leão XIV.
No mundo inteiro, vários jornais, observando a serena e firme reação do papa, ele próprio norte-americano, apontaram que ele está se transformando no “Anti-Trump” aos olhos de grandes parcelas da opinião pública no mundo.
Até ser ofendido nominalmente por Trump, em suas críticas ao chefe da Casa Branca o papa não o nomeara diretamente; o mesmo quanto ao seu ‘secretário de Guerra’ Hegseth.
Mas a carapuça entrou direitinho e Trump perdeu as estribeiras, depois de o papa condenar em plena Semana da Páscoa aqueles que tem “as mãos sujas de sangue” e “a ilusão de onipotência” dos semeadores de guerra.
CONTRA A GUERRA
A caminho da Argélia na segunda-feira (13) em missão evangélica, o Papa Leão IV afirmou não ter “a intenção de entrar em um debate” com Trump, enfatizou que a “mensagem do Evangelho é a paz” e prometeu continuar “falando com firmeza contra a guerra”. De passagem, observou “não ter medo” de Trump.
“Não hesitarei em anunciar a mensagem do Evangelho e em convidar todas as pessoas a procurarem maneiras de construir pontes de paz e reconciliação, e a buscarem formas de evitar a guerra sempre que possível”, disse Leão, que é o primeiro papa norte-americano.
“Continuo falando com força contra a guerra, buscando promover a paz, incentivando o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções para os problemas”.
“Digo isso a todos os líderes do mundo, não apenas a ele: vamos acabar com as guerras e promover a paz e a reconciliação”. Leão IV também disse que a Igreja “não olha para a política externa com a mesma perspectiva” de Trump. “Mas acreditamos na mensagem do Evangelho como construtores da paz”.
Em sua postagem, Trump chamou o papa de “fraco” contra a criminalidade e “terrível em política externa”, disse que não quer “um papa” criticando o presidente dos Estados Unidos e o condenou por atuar como político e não como líder religioso. Tentou passar a mentira de que Leão IV seria favorável ao Irã ter armas nucleares e reclamou da condenação à sua agressão à Venezuela.
Antes, em outra postagem dirigida aos iranianos, fora ainda mais explícito: “abram a porra do Estreito, seus bastardos malucos”. O fracasso de sua guerra em conluio com Netanyahu já era flagrante.
Quanto à insinuação de Trump de que Leão só foi eleito papa por ser norte-americano pois os cardeais queriam puxar o saco dele, o jornal italiano Il Fatto Quotidiano tem outra interpretação: sobre a sabedoria do Conclave ao elegê-lo, exatamente como uma resposta à ascensão de Trump.
Em Argel, primeira etapa de sua viagem evangélica, em um discurso contundente na segunda-feira, Leão XIV denunciou as potências mundiais “neocoloniais” que estão “violando o direito internacional”.
O PODER DO PENTÁGONO
De acordo com o Common Dreams e com o mexicano La Jornada, que citam a publicação conservadora Free Press, em janeiro o subsecretário de Guerra dos EUA, Elbridge Colby, convocou o Cardeal Christopher Pierre, então embaixador do Papa em Washington, para uma reunião na qual deixou claro que “os Estados Unidos têm o poder militar para fazer o que quiserem no mundo. É melhor que a Igreja Católica esteja do seu lado.”
A ação do papa, diante do que a todos pareceu uma ameaça de Trump de uso de uma arma nuclear contra o Irã – “destruir uma civilização inteira esta noite” -, também granjeou a Leão XIV renovado respeito.
A ele o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, enviou uma mensagem pelas redes sociais em que condenava “os insultos a Vossa Excelência em nome da grande nação do Irã”, acrescentando que “a profanação de Jesus, o profeta da paz e da fraternidade, é inaceitável para qualquer pessoa livre”.











