“Precisamos promover as reformas trabalhista, previdenciária e agrária, o processo de paz, a transição energética, a educação pública e a saúde como direito e dignidade de todos os trabalhadores”, afirma a dirigente comunista Gloria Inés Ramírez Ríos, ex-ministra do Trabalho do governo de Gustavo Petro
Na entrevista que segue, concedida à jornalista Carolina Tejada, do Semanário Voz, a ex-ministra do Trabalho da Colômbia, Gloria Inés Ramírez Ríos, afirma que as candidaturas de Iván Cepeda e Aida Quilcué vêm para “aprofundar as reformas sociais” iniciadas no governo de Gustavo Petro. Na sua avaliação é preciso nestas eleições presidenciais – que acontecem no próximo dia 31 – colocar o foco na defesa da soberania, da paz abrangente, na reforma agrária, na justiça tributária, nas reformas trabalhista e previdenciária, nos direitos das mulheres, na verdadeira democratização do Estado e, claro, educação. “O Governo da Mudança demonstrou que a Colômbia pode ser governada a partir da perspectiva do povo”, destaca Gloria, que cumpriu dois mandatos como senadora, foi presidente da Federação Colombiana de Educadores (Fecode) e membro da direção da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT)
O governo nacional promoveu uma reforma trabalhista, que ajudaste a elaborar. Que legado ela deixa em termos de direitos trabalhistas?
O governo da mudança colocou o trabalho no centro da democracia. Durante décadas, nos disseram que, para gerar empregos, tínhamos que baratear a mão de obra, eliminar direitos, flexibilizar o trabalho, reduzir a jornada de trabalho e enfraquecer os sindicatos. Demonstramos que o desenvolvimento não pode ser construído sobre a precariedade.
A reforma trabalhista, agora Lei 2466 de 2025, restaurou direitos específicos, fortaleceu a segurança no emprego, ampliou a proteção contra a terceirização abusiva, reconheceu os direitos dos aprendizes do Serviço Nacional de Emprego (Sena), avançou as garantias para plataformas digitais, restabeleceu gradualmente o pagamento do turno da noite, do domingo e dos feriados, e reafirmou que o contrato de trabalho deve ser a regra quando houver exigência de subordinação. O adicional de domingo, por exemplo, aumentou de 75% para 80% em julho de 2025, chegará a 90% em julho de 2026 e a 100% em julho de 2027.
Outra reforma aprovada foi a da Previdência. Quais são seus pontos principais?
O aspecto fundamental foi o estabelecimento de um sistema abrangente de proteção social para a terceira idade, separado do setor financeiro. A reforma da previdência, agora Lei 2381 de 2024, cria um sistema multipilar para ampliar a cobertura, fortalecer as aposentadorias e garantir uma renda digna para milhões de idosos que trabalharam a vida inteira sem se aposentar.
Segundo a Prosperidade Social, a expansão do pilar da solidariedade previa tirar aproximadamente três milhões de idosos da extrema pobreza. Este é o significado profundo das reformas: que o trabalho não deve ser exploração e que a velhice não deve ser abandono. Em outras palavras, trabalho digno e decente para todos e uma velhice com dignidade.
Muitas coisas ficaram de fora da reforma trabalhista. Quais lutas os trabalhadores enfrentarão agora?
Enormes desafios permanecem. A reforma trabalhista foi um passo histórico, mas não esgotou a agenda do trabalho decente. Um segundo governo popular deve buscar uma política abrangente contra a informalidade, porque a Colômbia ainda tem mais da metade de sua população empregada trabalhando no setor informal. O Departamento Administrativo Nacional de Estatísticas (Dane) relatou uma taxa nacional de informalidade de 55,3% no trimestre de dezembro de 2025 a fevereiro de 2026. É preciso avançar em cinco tarefas principais: formalização genuína nas áreas rurais e urbanas; inspeções trabalhistas fortes e localizadas; proteção efetiva para trabalhadores domésticos, rurais, comunitários e de cuidados; liberdade de associação com negociação coletiva; direitos coletivos, livres de violência antissindical; e uma política de emprego para mulheres e jovens.
Qual é a avaliação sob a perspectiva das mulheres?
De um ponto de vista feminista, a principal questão pendente é reconhecer que, sem um sistema nacional de assistência, não pode haver igualdade de gênero no mercado de trabalho. As mulheres não podem continuar a arcar com o fardo do trabalho não remunerado que sustenta a economia. Esse trabalho contribui com 20% do Produto Interno Bruto (PIB).
Também precisamos avançar em relação à igualdade salarial, à licença parental compartilhada, à prevenção do assédio e da violência no local de trabalho e à plena implementação da Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O segundo governo de mudança deve ir além da simples recuperação de direitos e construir um novo modelo de trabalho que seja produtivo, democrático, feminista, orientado para os sindicatos, ambientalmente justo e baseado no território, e que também aborde todos os desafios futuros relacionados à inteligência artificial, ao avanço tecnológico e, claro, à transição energética.
O mapa político do país mudou após o 8 de março com as eleições para o Congresso. Como avalias os resultados das eleições recentes?
Não foi apenas mais uma eleição; foi a confirmação de que a mudança tem raízes sociais, territoriais e eleitorais. O Registro Nacional informou que a participação eleitoral nas eleições para o Congresso de 2026 ultrapassou 50%, mais de três pontos percentuais acima de 2022, e que os votos nulos diminuíram em mais de 150.000. Isso demonstra uma maior mobilização cidadã e um senso mais forte de engajamento democrático.
O Pacto Histórico se consolidou como uma importante força nacional, conquistando 67 cadeiras no Congresso, 25 no Senado e 42 na Câmara dos Representantes, de acordo com os resultados divulgados. Esse bloco é agora a maior força legislativa do país.
Mas a avaliação não é apenas numérica; é política. A esquerda continua sendo uma opção viável de governo e possui força territorial significativa. O país não está mais dividido entre aqueles que sempre estiveram no poder e aqueles que resistiram nas ruas. Hoje, pessoas organizadas também estão contestando o poder institucional.
Um dos grandes vencedores do dia 8 de março foi o Partido Comunista, membro do Pacto Histórico. Qual é o significado político de ter uma bancada comunista no Congresso?
Tem significado histórico. Expressa a persistência de uma tradição política que foi perseguida, estigmatizada e submetida à violência, mas que nunca renunciou à paz, aos direitos da classe trabalhadora, à democracia popular ou à soberania nacional.
Uma bancada comunista não significa nostalgia; significa memória, um programa e um futuro. Significa levar ao Congresso as vozes dos trabalhadores, das camponesas, da juventude, dos povos indígenas e afrodescendentes, das vítimas, dos sindicatos e dos territórios esquecidos.
Quais são as suas expectativas para este mandato parlamentar?
Deve ser uma bancada disciplinada e profundamente unida, comprometida com o poder popular e não com a acomodação burocrática. Deve trabalhar pela reforma trabalhista, reforma da previdência, paz abrangente, soberania, justiça tributária, reforma agrária, direitos das mulheres, a verdadeira democratização do Estado e, claro, educação.
Uma bancada comunista deve sempre lembrar que não entrou no Congresso para se assemelhar às elites, mas para representar aqueles que historicamente foram excluídos do poder. O desafio é levar o Congresso para as ruas.
As primárias da direita resultaram em uma vitória para Paloma Valencia, e ela se recuperou em várias pesquisas. Como você analisa este momento para a direita uribista?
A direita está vivenciando um paradoxo: tem votos, mídia, poder econômico e o medo como estratégia, mas lhe falta uma nova visão para o país. Paloma Valencia venceu as primárias, tornando-se uma figura central para o uribismo no primeiro turno. Mas seu ressurgimento não significa renovação; Representa uma tentativa de restaurar o antigo país: segurança sem direitos, mercados, injustiça social, autoridade sem democracia e paz entendida como rendição.
Como devemos interpretar a divisão da direita em duas candidaturas?
Pode ser interpretada de duas maneiras. Por um lado, reflete uma fratura entre uma direita tradicional, uma extrema-direita mais agressiva e setores de centro-direita que são incapazes de se unificar. Por outro lado, não devemos subestimá-la; eles podem competir separadamente para construir narrativas diferentes e depois tentar se reagrupar contra a mudança.
A direita hoje usa duas linguagens, uma aparentemente institucional e a outra abertamente autoritária, mas ambas concordam nos pontos essenciais: interromper reformas, enfraquecer a paz, restaurar privilégios e derrotar direitos – em outras palavras, acabar com a mudança.
Iván Cepeda e Aida Quilcué têm percorrido o país com o slogan de vencer no primeiro turno. Você acha que uma vitória retumbante é possível em 31 de maio?
Sim, é possível, mas não garantido. A vitória vem com organização, união, educação e o povo nas ruas. Iván Cepeda e Aída Quilpué figuram na primeira posição da lista presidencial para as eleições de 31 de maio, e sua campanha assumiu uma dimensão nacional com uma fórmula profundamente simbólica: direitos humanos, paz, povos indígenas, justiça social e democracia popular.
Vencer no primeiro turno é importante por três razões: primeiro, porque impediria o ressurgimento da direita e do bloco anti-mudança; segundo, porque proporcionaria um mandato político claro para aprofundar as reformas sociais; e, finalmente, porque permitiria ao novo governo posicionar-se não na defensiva, mas como uma força popular com a legitimidade da maioria social.
O objetivo de vencer no primeiro turno não pode ser meramente eleitoral; deve tornar-se uma empreitada nacional, envolvendo comitês municipais, mulheres organizadas, sindicatos atuantes, jovens mobilizados, camponeses, comunidades étnicas, igrejas de base, intelectuais, artistas, vítimas e trabalhadores, todos defendendo o direito de continuar transformando o país.
Na recente pesquisa do Invamer, a candidatura da Aliança pela Vida ultrapassou seu limite anterior, alcançando 44,3%.
Vários ex-ministros do governo nacional decidiram participar ativamente da campanha eleitoral. Quais são as tarefas urgentes que definiram para si mesmos?
Aqueles de nós que fizemos parte do governo da mudança sabemos o que está em jogo. Não se trata de cargos; trata-se de defender o que foi construído e impedir que o país retroceda. Nossa tarefa é explicar claramente o que foi feito, reconhecer o que faltou e convocar uma segunda fase de mudança.
Precisamos ir às regiões para conversar com as pessoas, não apenas com aquelas que já estão convencidas. Precisamos promover as reformas trabalhista, previdenciária e agrária, o processo de paz, a transição energética, a educação pública, a saúde como um direito e a dignidade de todos os trabalhadores.
As tarefas urgentes são organizar amplos comitês de campanha, formar porta-vozes locais, combater a desinformação, mobilizar o voto popular, treinar fiscais de votação, fortalecer a unidade do Pacto Histórico e construir uma narrativa de esperança. Como comunista, sindicalista, feminista e defensora dos direitos humanos, meu papel é dizer ao país que a mudança não foi um acidente, mas uma vitória do povo. E o que o povo conquistou, ele mesmo deve defender.
O mandato presidencial de Gustavo Petro está chegando ao fim. Como a história se lembrará do primeiro governo de esquerda da Colômbia?
Será lembrado como o primeiro projeto que ousou desafiar a estrutura de poder estabelecida na Colômbia. Não foi perfeito; enfrentou erros, tensões internas, impasses institucionais, forte oposição, sabotagem da mídia e enormes dificuldades em governar um Estado projetado ao longo de décadas para proteger privilégios. Mas abrimos portas que antes estavam fechadas.
Ele colocou a justiça social no centro, promoveu reformas, falou de paz quando outros clamavam por guerra, dignificou as vítimas, aumentou o salário mínimo (23,7% em 2026 contra uma inflação de 5,2%) e reconheceu os direitos das mulheres, dos grupos étnicos, dos jovens e das comunidades marginalizadas. Ele demonstrou que a Colômbia pode ser governada a partir da perspectiva do povo. Ele também será lembrado por expor o verdadeiro poder das elites. Quando o povo governa, os privilégios tremem.
Qual é a sua mensagem final neste momento crucial para o país?
O projeto representado por Iván Cepeda e Aída Quilcué abre a possibilidade para uma segunda etapa de mudança – uma etapa mais organizada, territorial, feminista, centrada nos trabalhadores e orientada para a comunidade. É um projeto profundamente democrático.
O primeiro governo de esquerda abriu essa porta. O desafio histórico agora é para o povo não deixar que essa oportunidade se feche. É a primeira vez que um governo se identifica com a classe trabalhadora, com seus sindicatos e organizações de base. A Colômbia está passando por uma transformação estrutural, e é por isso que lutamos.











