Maioria dos paramédicos foi executada na linha de frente por meio de “ataque duplo”, denunciam observadores internacionais e grupos de direitos humanos: um bombardeio israelense inicial, seguido por um segundo quando os socorristas chegam
O governo do Líbano, observadores internacionais e grupos de direitos humanos estão denunciando junto ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) a prática de terrorismo de Estado praticada desde dois de março por Israel contra equipes de resgate no sul do país, no “pior período de sua história moderna”.
Por meio de “ataque duplo” – um bombardeio inicial, seguido por um segundo quando os socorristas chegam – 103 paramédicos, a maioria da “linha de frente” foram assassinados na guerra praticada pelos sionistas contra o grupo político Hezbollah. Além deles, mais de 238 ficaram feridos e pelo menos 25 ambulâncias e veículos da defesa civil foram destruídos.
O ministro da Saúde do Líbano, Rakan Nassereddine, reitera que nenhum dos processos internacionais movidos contra Israel conseguiu frear o ritmo da agressão.
SOCORRISTAS NÃO SE INTIMIDAM E SÃO EXEMPLO DE ABNEGAÇÃO
Os exemplos de desprendimento e abnegação são vários, como comprova o advogado Abbas Ghandour que deixa os seus arquivos para trás, muda de roupa e dirige para o sul, em direção às zonas de explosão. “O advogado de apelações de 38 anos também chefia os serviços de emergência da Cruz Vermelha Libanesa no sudoeste do país, função que exerce desde a adolescência, quando começou a atender chamados de socorro em Nabatiyeh. Agora, suas manhãs não são mais dedicadas à preparação de argumentos para o tribunal, mas sim a garantir pontos de apoio seguros e a assegurar que as famílias dos paramédicos tenham onde dormir, porque, como ele mesmo diz, ‘ninguém consegue responder com clareza enquanto se preocupa com seus entes queridos’”. Abbas Ghandour tem uma filha, que ainda não completou um ano, mas deixar o sul, afirma, nunca lhe passou pela cabeça.
Um dos episódios mais mortais ocorreu no dia 15 de abril em Mayfadoun, perto de Nabatiyeh, no sul. Um ataque israelense inicial à vila atraiu uma primeira equipe de paramédicos do Comitê Islâmico de Saúde. Os sionistas alvejaram a equipe e mataram dois.
“Uma segunda equipe chegou e também foi atacada. Uma terceira equipe, formada em conjunto pelos Serviços de Emergência de Nabatiyeh e pela Associação de Escoteiros de Risala, correu para evacuar os feridos. Enquanto o líder da equipe, Mahdi Abu Zaid, corria para fechar as portas de sua ambulância, o terceiro ataque ocorreu”, revelou o Mondoweiss. Quatro paramédicos foram mortos nos três ataques e seis ficaram feridos.
O Exército israelense disse que estava “investigando” o caso, alegando cumprir a lei enquanto revoga as proteções legais dos profissionais de saúdo quando considera que ocorre “uso indevido”.
Conforme as organizações de direitos humanos, é uma política pela qual Israel se tornou infame em Gaza e que agora é aplicada integralmente no Líbano, com graves desdobramentos para a infraestrutura.
Hassan Badawi, um voluntário libanês da Cruz Vermelha de 31 anos, não teve a chance de esperar. Em 12 de abril, três dias antes de Mayfadoun, ele foi morto perto de Bint Jbeil enquanto viajava por uma rota que a Cruz Vermelha disse ter coordenado com as forças israelenses para garantir a passagem segura. Os militares israelenses afirmaram que ele não era o alvo e que o ataque estava sendo investigado. Badawi era pai de um filho e esperava o segundo.
Muhammad Suleiman, paramédico-chefe do Serviço de Emergência Nabatiyeh, perdeu seu filho Joud, de dezesseis anos, em 24 de março. Joud acompanhava as missões desde criança. Ele estava em uma motocicleta atendendo a um chamado quando foi morto junto com um colega paramédico. Essas foram as primeiras fatalidades registradas pela unidade desde sua fundação em 2002. “Eu sempre tive meus medos. Mas eu acreditava que, como uma organização neutra e sem ligação com a política, estaríamos seguros”, relatou Suleiman
CENTROS DE ATENÇÃO À SAÚDE SÃO ALVOS DE ISRAEL, REPUDIA OMS
A Organização Mundial da Saúde contabiliza 59 centros de atenção primária à saúde fechados por ataques israelenses. O Hospital Governamental de Tebnine, um dos centros de trauma mais movimentados do sul do país, foi atingido duas vezes em três dias, ferindo onze profissionais de saúde e destruindo ventiladores, monitores e o pronto-socorro.
Hussein Jaber, voluntário da Defesa Civil no centro regional de Nabatiyeh, descreve uma frota que mal funciona. Após o próprio centro ser atingido, sete veículos foram danificados. Paramédicos dirigem ambulâncias sem para-brisas em meio à poeira dos recentes ataques.
“Começamos a comprar pás e equipamentos básicos com nosso próprio dinheiro. Armazéns no sul foram fechados e a equipe agora envia um veículo por dia a Beirute para trazer gaze e analgésicos”, conta Hussein Jaber, que foi ferido na cabeça e na perna quando um prédio ao lado de seu centro foi atingido. Ele voltou ao trabalho no mesmo dia.
Jaber recorda de uma mulher em Arnoun cujo chamado chegou ao centro enquanto ela estava soterrada sob sua própria casa. A equipe a resgatou com as mãos e com quaisquer ferramentas que encontrassem, trabalhando sob vigilância de drones e fogo de artilharia. Meia hora depois, eles a retiraram com vida.
“Eles deveriam estar mirando nos combatentes, onde os combates estão acontecendo, na fronteira”, disse Muhammad Jaber, um paramédico sênior da equipe, descansando em seu colchão de espuma no quartel-general de Nabatiyeh durante uma breve pausa nos ataques. “Por que atacar médicos e civis? Para que a vida se torne insuportável e as pessoas digam ao Hezbollah para desistir?”, questionou
“TEMOS PESSOAL EXCEDENTE”
As inúmeras ordens de evacuação e intimidação israelenses esvaziaram grande parte do sul, mas quase nenhum socorrista deixou o posto. “Temos pessoal excedente”, orgulha-se Muhammad Suleiman. “Estamos implorando aos mais jovens para tirarem uma folga, e eles se recusam”, informa.
Dentro dos centros, os paramédicos discutem sobre quem fará a missão mais perigosa. Para Ali, ficar é o objetivo em si, pois “se cada um de nós virar as costas ao primeiro golpe, perdemos tudo”.
Quando o cessar-fogo de 10 dias entrou em vigor em 16 de abril, a equipe de Nabatiyeh alugou um guincho e voltou para Mayfadoun, apesar da contínua violação do cessar-fogo por Israel e de sua recusa em cessar as hostilidades.
Quando a equipe de Nabatiyeh chegou, as três ambulâncias ainda estavam lá, crivadas de estilhaços, com o asfalto manchado de sangue. Eles rebocaram o veículo da frente até uma praça pública em Nabatiyeh e o estacionaram ali. “Queremos que este veículo seja testemunha”, disse Mahdi Sadeq, um coordenador do serviço, “do que aconteceu e do que esta guerra fez à nossa profissão”.











