Na conversa na Casa Branca, presidente brasileiro enfatizou que terras raras e materiais críticos serão tratados como “questão de soberania nacional”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na coletiva de imprensa realizada após o encontro com Donald Trump na Casa Branca, afirmou sobre os temas tratados na reunião que “não tem assunto proibido”, mas que “a única coisa que nós (brasileiros) não abrimos mão é da nossa soberania e da nossa democracia”.
Lula disse que também discutiu com Trump sobre as terras raras os minerais críticos no Brasil, objeto da cobiça imperial do atual ocupante da Casa Branca e dos monopólios privados norte-americanos. Após lembrar a aprovação de um projeto de lei que regula a matéria pela Câmara dos Deputados na noite de ontem (6), o presidente brasileiro disse que a matéria será coordenada por um conselho criado sob a supervisão da Presidência da República para tratar do assunto estratégico “como questão de soberania nacional”.
“Nós não temos preferência. Quem quiser participar conosco para nos ajudar a fazer a mineração, a separação e a produzir as riquezas que essas terras raras nos oferecem está sendo convidado a ir ao Brasil, e isso é permitido pela regulamentação da lei aprovada ontem, que deve ser aprovada hoje no Senado”, destacou Lula, em referência ao plano nacional para minerais críticos que tramita no Congresso e cujo texto, aprovado pelos deputados, desguarnece o país de salvaguardas na defesa daquilo que preocupa o mandatário brasileiro.
Segundo Lula, o objetivo é compartilhar o potencial do Brasil, que ainda é pouco conhecido, “com quem queira fazer investimento”.
TARIFAS: DIÁLOGO, MAS COM RECIPROCIDADE
Lula foi perguntado se há risco de novas tarifas impostas pelos EUA.
“Olha para a minha fisionomia”, ele respondeu. “Você acha que eu estou otimista, ou pessimista? Eu estou muito otimista”, afirmou, mencionando a criação de um grupo de trabalho para, no prazo de 30 dias, apresentar uma solução sobre as tarifas que restaram do tarifaço imposto por Trump em 2025, superadas graças à posição altiva do presidente Lula que logo respondeu com a aprovação de uma lei prevendo a possibilidade de retaliações caso as medidas aplicadas unilateralmente pelos EUA continuassem afetando a economia e os empregos no Brasil.
“É preciso estabelecer um plano de metas”, disse Lula, afirmando que Trump “sempre acha que nós cobramos muito imposto”.
“Então eu falei assim: Doutor Trump, vamos fazer o seguinte. Vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço, da indústria e do comércio do Brasil, junto com teu moço do comércio, sentem e em 30 dias apresentem uma proposta pra gente poder bater o martelo. Quem tiver errado, vai ceder.”
Lula, nesse ponto, lembrou mais uma vez que a balança comercial nas últimas décadas entre Brasil e Estados Unidos tem apresentado contínuos resultados deficitários para o lado brasileiro, razão pela qual o “tarifaço” não teve nenhuma justificativa, tendo como consequência, também, prejuízos à economia norte-americana e às suas empresas e consumidores.
A expectativa da comitiva brasileira é que as tarifas remanescentes do “tarifaço” sejam suspensas.
COMBATE AO CRIME ORGANIZADO
Lula informou na coletiva que ficou acertado que os dois países farão um trabalho de combate ao crime organizado, “que é para valer”, afirmando que “quem não escapou até agora não vai escapar mais”, afirmou Lula.
O presidente brasileiro lembrou que os Estados Unidos têm responsabilidade na discussão, pois “parte das armas que chegam ao Brasil saem dos EUA”.
Como resultado da reunião, será constituído um grupo de trabalho com a participação das polícias e aduaneiras dos dois países para dar mais efetividade a uma ação que já vem sendo realizada no combate ao crime organizado e às facções que agem simultaneamente nos territórios brasileiro e norte-americano.
ELEIÇÕES: QUEM VOTA É O POVO BRASILEIRO
Questionado se o pleito eleitoral que acontecerá este ano foi objeto da conversa, Lula foi enfático ao afirmar que não tratou desse assunto com Trump.
“Não existe nenhuma possibilidade de eu discutir esse assunto com qualquer presidente de qualquer país do mundo. Esse é um assunto brasileiro e eles sabem disso, eles também são presidentes”, afirmou categoricamente, na contramão do apoio explícito que o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, está buscando de Trump, em mais uma escalada da vassalagem que domina o clã.
“O meu respeito ao presidente Trump é porque ele foi eleito pelo povo americano e, só por esse fato, não cabe a mim questionar, apenas levar muito a sério, porque ele tem mandato. É assim que o Brasil trata ele”, acrescentou Lula sobre o que considera fundamental no respeito à soberania das nações.
“Ele sabe a importância dos Estados Unidos, eu não acredito que ele vá ter qualquer influência nas eleições brasileiras, até porque quem vota é o povo brasileiro, e eu acho que ele vai se comportar como presidente dos EUA, deixando que o povo brasileiro decida o seu destino, como eu vou deixar que o povo americano decida o destino deles”, sentenciou, na defesa da soberania brasileira sobre a escolha de seus mandatários.
Em tom descontraído, Lula disse ter feito um único pedido Trump: para não anular os vistos dos jogadores brasileiros que irão à Copa do Mundo deste ano que acontece este ano nos EUA, México e Canadá.
“Ele perguntou da Copa do Mundo, se a seleção brasileira tava boa, e eu falei olha, eu espero que você não venha anular o visto da dos jogadores brasileiros da seleção. Por favor, não faça isso, porque nós vamos vir aqui pra ganhar a Copa do Mundo”, disse Lula.
Ele foi questionado sobre a resposta de Trump. “Ele riu. Ele riu, porque agora ele vai rir sempre. Ele aprendeu que rir é muito bom”, brincou Lula.
DEFESA DO PIX
Outro assunto que não constou da conversa, embora tenha sido aventado como tema do encontro, foi sobre o Pix brasileiro, alvo de Trump, que corre na justiça americana.
“Eu imaginava que ele queria discutir a questão do Pix. Ele não tocou no assunto e eu também não, porque ainda espero que ele ainda vai fazer um Pix”, brincou novamente Lula sobre o atual sistema de pagamentos, objeto de questionamento das grandes corporações norte-americanas de crédito que operam no Brasil. O objetivo delas, como o de Trump, não revelado na reunião, é o de acabar com o atual sistema gratuito à população brasileira operado pelo Pix, algo que o bolsonarismo já tentou fazer sem sucesso.
CONDENAÇÃO DOS ATAQUES AO IRÃ E DEFESA DE CUBA
Na coletiva de imprensa, Lula fez questão de reafirmar sua posição contrária aos ataques perpetrados pelos EUA e Israel contra o Irã e o Líbano.
“Acho que a invasão do Irã vai causar mais prejuízo do que ele está imaginando”, disse Lula sobre a possibilidade de Trump escalar contra os iranianos, fazendo, novamente, a defesa dos palestinos contra os ataques covardes que o governo neonazista de Israel, com o apoio da Casa Branca, mantém até hoje na Faixa de Gaza e no Líbano.
Lula, mais uma vez, disse que o caminho deveria ser o do diálogo e da diplomacia, e não da guerra, e que colocou essa sua opinião na reunião com Trump, assim como a defesa de uma total reformulação da Organização das Nações Unidas (ONU).
O presidente afirmou ter tratado com Trump sobre mudanças no Conselho de Segurança da ONU, uma pauta defendida pelo Brasil há anos, e sugeriu que ele fosse ampliado para inclusão de outros países.
“Eu disse que ele, Xi Jinping, Macron, Putin e o primeiro-ministro da Inglaterra têm a responsabilidade de promover essa mudança, pois são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Eles podem tudo, eles têm direito de veto… Nós somos coadjuvantes, os outros países são coadjuvantes. Então eu falei para ele: você poderia convidar o Conselho de Segurança para discutir as guerras que estão acontecendo no mundo”, sentenciou..
“Por que não ampliar o Conselho de Segurança da ONU? O Brasil gostaria de participar. Tem a Alemanha, o Japão, o México tem tamanho para isso. Um país como a África do Sul, a Argélia”, destacou.
Quanto às frequentes ameaças de Trump contra Cuba, Lula lembrou que o país atravessa crises recorrentes em razão de um bloqueio econômico que perdura desde a Revolução de 1959, quando o governo pró-EUA foi derrubado com o apoio entusiasta dos cubanos.
“Eu disse que se ele precisar de ajuda pra discutir a situação de Cuba estou inteiramente à disposição. Ele disse, pelo que ouvi da intérprete, que ele não pensa em invadir Cuba. Isso foi dito pela intérprete. E isso é um grande sinal. Até porque Cuba quer dialogar”, afirmou Lula.
Os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores; Wellington César, da Justiça e Segurança Pública; Marcio Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; Dario Durigan, da Fazenda; e Alexandre Silveira das Minas e Energia, integrantes da delegação de Lula, antes da entrevista do presidente, fizeram um breve relato da reunião e foram unânimes em destacar “avanços” em todos os temas tratados.











