Evento no Cine-Teatro Denoy de Oliveira celebrou a memória do poeta, primeiro vereador negro de São Paulo e fundador do CNAB; filme “Chico Rei” abriu a programação
O Centro Popular de Cultura da UMES (CPC-UMES) deu início no último sábado à Mostra Contos de Resistência, no Cine-Teatro Denoy de Oliveira. A cerimônia de abertura foi marcada por uma homenagem ao centenário do professor Eduardo de Oliveira, poeta, vereador e uma das figuras centrais da luta antirracista no Brasil.
A presidente da UMES, Luna Martins, abriu o evento agradecendo ao público e anunciou a programação da mostra: ao longo das próximas quatro semanas, serão exibidos filmes culturais todos os sábados, sempre às 18h.
A mesa de abertura contou ainda com Irapuan Santos, presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), entidade fundada pelo homenageado, e Valério Bemfica, presidente do CPC-UMES.
Em seu discurso, Valério Bemfica destacou a importância de celebrar aqueles que pavimentaram o caminho das futuras gerações.
“É uma honra e um prazer receber todo mundo aqui. A gente dá um valor muito grande aos nossos maiores, aqueles que vieram antes de nós e que, com a sua luta, com a sua vida, com a sua dedicação, garantiram pavimentar o caminho que a gente hoje trilha na busca de um país mais livre, mais soberano”, afirmou.
Bemfica ressaltou a trajetória de Eduardo de Oliveira, descrevendo-o como alguém que enfrentou dificuldades “sempre com muito otimismo e principalmente com nenhum rancor”, buscando não a glória pessoal, mas “a libertação do nosso povo”.
A escolha do filme de abertura, “Chico Rei”, segundo ele, não foi casual. “Justamente retrata uma pessoa que enfrentou todas as dificuldades, conquistou a liberdade e não ficou contente em conquistar a liberdade. Ele queria a liberdade para todos”, disse, associando a narrativa do filme à trajetória do professor homenageado.
Após a fala de Bemfica, o público ouviu o “Hino à Negritude”, composição de Eduardo de Oliveira, que é lei municipal em São Paulo, estadual e federal, oficializado como hino brasileiro por iniciativa do deputado Vicentinho.
TRAGETÓRIA DE LUTA E POESIA
Irapuan Santos, presidente do CNAB, fez um longo e detalhado panorama da vida e obra do professor Eduardo de Oliveira, situando seu nascimento, em 1926, num Brasil ainda percorrido pela Coluna Prestes e às vésperas da Revolução de 1930.
“O professor Eduardo nasceu sob esse signo do Brasil que se transformava, e ele foi extremamente fiel a toda a sua trajetória”, afirmou Santos.
Entre os feitos destacados por Irapuan Santos:
- Aos 16 anos, compôs o hino “13 de Maio”, que se tornaria o atual “Hino à Negritude”;
- Autor de 12 livros, incluindo “Gestas Líricas da Negritude” e “O Bando”, dedicado ao herói congolês Patrício Lumumba;
- Publicou o primeiro volume da enciclopédia “Quem É Quem na Negritude”;
- Foi considerado pelo acadêmico Tristão de Ataíde (ABL) como um dos três fundadores da “atitude em poesia”, ao lado do martinicano Aimé Césaire e do senegalês Léopold Senghor;
- Primeiro vereador negro da cidade de São Paulo, tomou posse em 13 de maio de 1963 com um discurso que denunciava e celebrava o fim da “Bastilha da escravidão”;
- Recebeu Nelson Mandela em sua visita ao Brasil;
- Ao lado de Lélia Gonzalez, Clóvis Moura e Abdias Nascimento, liderou uma passeata nos anos 70 contra a discriminação de jogadores do clube Tietê, movimento que deu origem ao Movimento Negro Unificado.
“O professor Eduardo é um grande brasileiro”, resumiu Irapuan Santos. “Nós que tivemos a oportunidade de conviver com ele nos beneficiamos, do ponto de vista humano, de uma convivência com alguém de um trato extremamente gentil, dinâmico, profundamente ligado ao nosso tempo, ligado ao nosso povo e às grandes questões da humanidade.”
Após as falas e a execução do hino, foi exibido o filme “Chico Rei”, que retrata a luta pela liberdade, dando início oficialmente à Mostra Contos de Resistência. A programação seguirá aos sábados, sempre às 18h, no Cine-Teatro Denoy de Oliveira.











