Master pagou R$ 650 mil a marqueteiro de Flávio Bolsonaro para campanha de ataques ao BC

Marcelão vai coordenar a comunicação da campanha de Flávio Bolsonaro (Foto: Reprodução - Arquivo pessoal)

O objetivo era desacreditar o Banco Central em razão da relutância na aprovação da venda do banco de Vorcaro ao BRB

Depois do escabroso pedido de ajuda financeira milionária de Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro um dia antes de sua detenção, alegando problemas financeiros na produção do filme de seu pai – algo já desmentido pelos produtores -, as investigações em curso revelaram que marqueteiro do presidenciável da extrema-direita, Marcello Lopes, recebeu a bagatela de R$ 650 mil para contratar influenciadores contra executivos do Banco Central em razão da resiliência na aprovação da aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB).

A operação, como se sabe, era considerada vital para os planos de Vorcaro e a autoridade monetária, já no governo Lula, diferentemente das facilidades encontradas com Campos Neto, na gestão Bolsonaro, já não agia com a mesma benevolência.

O objetivo era desacreditar a instituição através de uma campanha sistemática que seria promovida por esses influenciadores. Com isso, esperava-se romper a resistência em relação ao negócio com o BRB.

O desdobramento do fato, em razão das fraudes bilionárias verificadas, foi a liquidação do Master, a prisão de Vorcaro e outros sócios, bem como a abertura de várias sindicâncias que ainda estão em curso.

Marcello Lopes, além de coordenar a comunicação da campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro, é considerado o estrategista do plano de ataques ao BC e aos seus servidores, segundo consta no documento chamado “Projeto DV”, divulgado pela Folha de S. Paulo.

O nome e a foto de Marcelão, como é conhecido em Brasília, aparecem na página em que são apresentados os três membros da “equipe de estrategistas” do plano. Ele negou envolvimento na campanha contra o BC e justificou o repasse de dinheiro como pagamento de serviços anteriores.

Marcelão é listado ao lado de Thiago Miranda, dono da agência Mithi e responsável pelo projeto, e do publicitário Anderson Nunes, da Unltd Network, empresa que foi subcontratada para o plano. Miranda prestou depoimento nesta terça-feira (12) à PF na investigação que apura os ataques. Certamente, foi confrontado com um comprovante de pagamento via Pix feito a ele no dia 13 de dezembro, momento em que o projeto estava sendo planejado.

O uso de influenciadores no plano para atacar executivos do BC veio à tona em janeiro, mas foi interrompido após a PF começar a investigar os posts coordenados.

Miranda e Marcelão afirmam que não houve participação efetiva do marqueteiro de Flávio Bolsonaro no projeto, mas divergiram nas explicações do caso.

Marcelão disse que recebeu a informação da inclusão de seu nome “com surpresa e indignação” e que não foi consultado sobre isso. Também disse que desconhece qualquer suposta campanha de ataques ao Banco Central ou a servidores mencionados na investigação da Polícia Federal.

“O que me recordo é que o Thiago [Miranda] comentou comigo sobre a possibilidade de eu entrar em um projeto grande que ele estaria fechando. Na ocasião, informei que não teria como participar porque eu viajaria para os EUA no dia 24 de dezembro e retornaria apenas no início de fevereiro. Agradeci a indicação e, sinceramente, do que eu me lembro, foi só isso”, disse.

Sobre o repasse de R$ 650 mil para a sua conta em 13 de dezembro, Marcelão afirmou que se tratava de pagamentos em atraso por serviços e consultorias profissionais anteriores realizados, “em outros trabalhos privados ao longo do tempo, sem qualquer relação com o projeto [DV]”.

“Era uma dívida de alguns clientes que ele estava com dificuldade de pagamento”, disse.

Questionado sobre quais teriam sido esses trabalhos prestados anteriormente, tergiversou, alegando a “produção de campanha publicitária no ambiente on e off e produção de vídeo”, mas que não poderia dar detalhes.

Thiago Miranda, por sua vez, confirmou que fez o pagamento a Marcelão e que incluiu o nome do publicitário nos documentos do “Projeto DV”. Ele também confirmou que o material obtido pela Folha, de 55 páginas com o título “Apresentação Daniel Vorcaro” e o nome e a foto de Marcelão, foi feito por ele: “Esse material foi eu que fiz. Tudo que está nele é o que exatamente tentei executar dentro do projeto”, disse à reportagem em mensagem por escrito no Whatsapp, na última quinta-feira (7).

O marqueteiro também afirmou que Marcelão lhe devolveu o dinheiro após deixar o plano, mas disse não saber quando foi feita a devolução e que não poderia fornecer a informação porque seu setor financeiro não está trabalhando nesta semana e que a responsável está de férias.

Após ser confrontado novamente, no final da tarde da segunda-feira, sobre as divergências do motivo do pagamento e da devolução, ele respondeu que estaria desorientado pelo momento em que estava passando.

A Unltd admitiu ter atuado como fornecedora terceirizada da Mithi, de Thiago Miranda, para o projeto de gestão de crise, em dezembro de 2025 e janeiro deste ano. A empresa afirmou não ter nenhum vínculo ou relação comercial com o Banco Master ou com Daniel Vorcaro.

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