Eleições locais viram referendo no Reino Unido e governo Starmer está nas cordas

Arrocho perpetrado por Keir Starmer leva trabalhistas a um desastre eleitoral (Tom Nicholson/AFP)

Plantou austeridade, forneceu armas para o regime genocida de Israel, cevou os fascistas anti-imigração e está colhendo o que semeou. Em setembro do ano passado, reprovação de Starmer já era 79%.

O governo trabalhista de Sir Keir Starmer entrou em agonia, após a estrondosa derrota nas eleições locais na Inglaterra de 7 de maio em que perdeu nos grotões desindustrializados do norte para a extrema-direita anti-imigração de Nigel Farage e, pela esquerda, nos centros urbanos, para os verdes, ao que se somaram a perda do controle do parlamento do País de Gales, para o Plaid Cymru, e o fiasco na Escócia, empatando com os faragistas em segundo (17 cadeiras), enquanto os nacionalistas do SNP venciam com 58.

Um tombo memorável, praticamente um referendo: os trabalhistas pós-expurgo de Jeremy Corbyn perderam 1500 cadeiras de vereadores, sendo que 1200 para o ‘Partido da Reforma’ de Farage, que também mordeu os conservadores.

Em Londres, os verdes elegeram pela primeira vez dois prefeitos de municipalidades na região de Londres. Os conservadores perderam 563 mandatos.

Enquanto Farage se gabava de ter vencido “em áreas que sempre foram dos conservadores” e em áreas “onde os trabalhistas dominaram, francamente, desde o fim da I Guerra Mundial”.

No parlamento do País de Gales, que os trabalhistas controlavam há um século, ficaram em terceiro, com os faragistas em segundo e o partido galês de centro-esquerda Plaid Cymru em primeiro.

REPROVAÇÃO DE STARMER: 79%

Não foi um relâmpago em céu azul. Em junho do ano passado, com um ano de governo, a reprovação de Starmer já era de 62%, após corte no subsídio ao aquecimento no inverno para aposentados e do auxílio às crianças; arrocho ao NHS (a Saúde Pública); cortes nos programas sociais para desviar dinheiro para o rearmamento; o escândalo da nomeação do pupilo do pedófilo Epstein, Peter Mandelson, para embaixador nos EUA; estagnação econômica, com crescimento medíocre de 1,4%; cumplicidade com Israel no genocídio em Gaza e perseguição aos protestos. Em setembro, quase um recorde histórico: 79% de rechaço, de acordo com pesquisa do Telegraph.

Starmer ainda pegou o repuxo da agressão dos EUA-Israel contra o Irã e decorrente alta dos preços, especialmente da energia.

O pleito ocorreu em 136 dos 543 distritos eleitorais da Inglaterra. Com tamanha reprovação, os 26% de votos dos faragistas não parecem tão despropositados, dada a fragmentação do eleitorado britânico e o colapso consecutivo dos dois partidos tradicionais, os conservadores e os trabalhistas. Sem surpresa, o Partido da Reforma cresceu mais nas áreas onde predominara o voto pró-Brexit.

Ainda assim, notou a poeta e ativista Nicola Tipton, com os resultados da semana passada o Partido da Reforma detém “ainda apenas 3,8% do total de vereadores na Inglaterra e nos parlamentos regionais; isso é menos do que os Verdes”.

O “Nosso Partido”, que vem sendo organizado por Corbyn, disputou em poucos distritos. No dia 7, ele conclamou os eleitores “a enviar uma mensagem para este governo que está abandonando os pobres, cevando a extrema-direita e armando o genocídio: Basta! Vote pelo poder comunitário. Vote pela esperança. Vote por mudança real”.

NÃO ADIANTA REARRUMAR AS CADEIRAS DO CONVÉS DO TITANIC

Mas, como também adverte o Morning Star, para barrar o caminho a Farange é preciso mais do que “continuar a reorganizar as cadeiras do convés do Titanic”. O que parece ser exatamente o que Starmer e outros expoentes do blairismo parecem se dedicar a fazer.

Em um esforço para salvar o pescoço de Starmer, seu vice-primeiro-ministro, David Lammy, reagiu ao resultado das eleições dizendo que “você não se livra do piloto em pleno voo por causa de um pouco de turbulência”.

“Um pouco de turbulência?”, comenta na publicação Linda Pentz Gunter. “É assim que ele vê a situação? O fato de Lammy achar que eles ainda estão no ar quando o avião está, na verdade, em pedaços no chão, é apenas um dos muitos exemplos de quão isolado ou teimosamente obstinado este governo é.”

Segundo a autora, após a comemoração pelo resultado, o favorito de Trump, Farage, proclamou a esperança de que Starmer permaneça no cargo porque “ele é o nosso maior trunfo”.

A dança das cadeiras nos altos escalões dos trabalhistas já começou, com cinco ministros se demitindo para pressionar a que Starmer renuncie, permitindo, conforme a legislação britânica, que o partido nomeie um substituto, que obrigatoriamente deve ter mandato parlamentar.

81 deputados – que é o número mínimo de parlamentares trabalhistas que teria que apoiar um questionamento de Starmer – já se pronunciaram pela mudança; outros 100 assinaram uma carta por sua manutenção.

SEIS POR MEIA DÚZIA

A pressão contra Starmer aumentou especialmente com a renúncia de seu secretário da Saúde, Wes Streeting, outro blairista, que acha que chegou sua hora e postou nas redes sociais que não tem mais confiança na liderança de Starmer. “Não há dúvidas de que a impopularidade do partido é um fator importante e comum em nossa derrota na Inglaterra, na Escócia e no País de Gales”, asseverou.

Também na quinta-feira, o parlamentar Josh Simons anunciou que renunciaria ao seu cargo no Legislativo, para que essa vaga pudesse vir a ser ocupada pelo prefeito da Grande Manchester, Andy Burnham, o trabalhista de maior aprovação nas pesquisas (35%), o que o capacitaria a entrar na disputa do cargo de primeiro-ministro.

74% NÃO VOTAM EM FARAGE

Também a militância se pronunciou. “Como uma ‘facção secreta de direita’ dentro do Partido Trabalhista nos levou a este ponto?”, se indignou o escritor Mike Rosen. “Haverá uma equipe de racistas e fascistas no poder após a próxima eleição? Essas perguntas exigem respostas do tipo ‘como podemos fazer para que isso não aconteça?’”.

“O que estas eleições nos mostraram é que o Partido da Reforma não agrada a 74% das pessoas que se deram ao trabalho de sair para votar”, disse Nicole Anne Beck, também citada pelo Morning Star.

“Se eu tivesse todos os dados, suspeito que seria capaz de mostrar que os resultados teriam sido muito diferentes se todos os partidos de centro-esquerda tivessem se unido em uma Aliança Progressista”, completou Anne. Na França, quando o partido de Le Pen esteve prestes a vencer, funcionou.

Neste sábado (16), a questão de para onde vai o Reino Unido estará nas ruas de Londres, através de duas marchas. Uma manifestação pelos 78 anos da Nakba, a expulsão dos palestinos pelas hordas sionistas e contra o genocídio e apartheid dos dias atuais em Gaza e na Margem Ocidental do Rio Jordão, e repúdio à cumplicidade do Reino Unido que fornece armas ao regime genocida e persegue ativistas que o denunciam. Outra, puxada pela extrema-direita, fará a apologia anti-imigração e instilará racismo e ódio.

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