Homenagem reúne lideranças políticas e sociais em celebração à sua obra antirracista e à memória do Hino à Negritude
A Câmara Municipal de São Paulo realizou, na sexta-feira (15), uma solenidade em homenagem ao centenário do professor Eduardo de Oliveira, uma das principais referências históricas da luta antirracista no Brasil. O evento reuniu lideranças políticas, representantes do movimento negro, intelectuais, estudantes e familiares para celebrar a trajetória do educador, poeta e fundador do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB).
A cerimônia destacou o legado político e cultural de Eduardo de Oliveira, que marcou a história paulistana ao se tornar o primeiro vereador negro da capital paulista. Além da atuação parlamentar, o homenageado teve papel importante na consolidação do movimento negro organizado no país, na defesa da igualdade racial e na valorização da cultura afro-brasileira. A abertura do evento contou com a execução do Hino à Negritude, de autoria do professor Eduardo, que foi brilhantemente apresentado pela cantora Nara Dom.
A mesa de honra contou com a presença de Irapuan Santos, presidente do CNAB; o vereador Eliseu Gabriel (PSB); Nádia Campeão, presidente do PCdoB; a ex-vereadora da capital paulista, Lídia Correa. Também estiveram presentes o deputado federal Orlando Silva, o filho do professor, José Francisco Ferreira, e Carlos Lopes, escritor e diretor do Jornal “Hora do Povo”.

Um Legado de Luta
Eliseu Gabriel, vereador e proponente da sessão, abriu o evento ressaltando a paciência e tenacidade de Eduardo de Oliveira. Ele lembrou que o professor estava sempre presente, “fizesse sol, fizesse chuva”, trabalhando incansavelmente.
Eliseu descreveu o professor Eduardo como uma pessoa incrível, com paciência e tenacidade inacreditáveis, sempre trabalhando incansavelmente. “O professor Eduardo sempre foi um exemplo”, destacando que ele foi o primeiro vereador negro da Câmara Municipal em 1963.
“É muito importante que haja essa homenagem a ele, viu? Muito oportuno. Porque a gente precisa lembrar disso. A gente precisa lembrar das coisas boas que a gente tem, que teve e vai continuar tendo. E a gente tem que ter confiança de que nós vamos vencer essas batalhas que vem pela frente. principalmente esse ano, eu acho que é um ano muito importante”, disse.
Eliseu Gabriel expressou sua preocupação com a eleição atual, classificando-a como a mais grave da história. Ele defendeu a necessidade de vencer o fascismo, o negacionismo, a violência, a agressividade e o racismo, e de lutar pelas eleições de outubro de 2026.
“A gente precisa vencer o fascismo, precisa vencer os negacionistas. Essas pessoas violentas, essas pessoas agressivas, as pessoas que não têm solidariedade com ninguém, as pessoas que não respeitam o ser humano. Nós temos que derrotar os racistas de todos os sentidos”, destacou.
13 de Maio e a Construção da Nação
O presidente do Congresso Nacioal Afro-Brasileiro (CNAB), Irapuan Santos, destacou que o professor Eduardo de Oliveira é um exemplo a ser lembrado e ressaltou que o professor deixou um legado de simplicidade, respeito e trabalho árduo.
Irapuan Santos explicou que a comemoração do centenário do professor Eduardo de Oliveira, está intimamente ligada à luta do 13 de Maio e a Abolição da Escravidão no Brasil. Para o CNAB, o 13 de maio sintetiza o grande momento da construção da nação brasileira, pois a luta pela abolição da escravatura foi a mais ampla e envolveu o maior contingente da população, representando a formação real e concreta de uma nação. Ele enfatizou que “não temos nação enquanto uma parte enorme dela viver marginalizada como subhumanos”.
Puan ressaltou que a abolição não foi um evento repentino, mas um processo de luta que começou como campanha de emancipação e evoluiu para a abolição, cujo lema era “Escravidão é roubo, liberdade sem nenhum tipo de indenização aos escravocratas”. A Lei Áurea, com apenas dois artigos, representou a capitulação do Império, que caiu um ano depois.
Irapuan Santos descreveu o professor Eduardo de Oliveira como uma referência em sua juventude, destacando que ele pregava essas ideias desde cedo. Mencionou que o primeiro discurso do professor na Câmara Municipal, em 13 de maio de 1963, abordava a questão da escravidão e o papel de negros e mestiços na construção do país. Ele enfatizou a importância de resgatar e mostrar o papel dos negros na cultura, música, medicina, engenharia e ciência brasileiras.
Para o CNAB, é fundamental resgatar essa história para fazer uma “revolução” no país, onde a maioria da população tenha clareza de seu papel na construção do Brasil.
O presidente do CNAB informou que o evento era a abertura do centenário do professor Eduardo, e que muitas outras atividades seriam realizadas, incluindo a aprovação da medalha Eduardo de Oliveira, um show do centenário na Assembleia Legislativa e a republicação de um dos 12 livros do professor, como o de poesia dedicado a Patrício Lumumba. Ele agradeceu a presença de José Francisco Ferreira, filho do professor, cuja presença considerou “extremamente simbólica e insubstituível”.

Pioneirismo na luta pela libertação do Brasil
José Francisco Ferreira, filho do professor, compartilhou detalhes da trajetória de seu pai, desde sua formação no Caetano de Campos até o lançamento de seu primeiro livro, “Além do Pó”, em 1958. Ele ressaltou a capacidade do professor de se adaptar e nunca se conformar, sendo um dos primeiros a se posicionar como vereador negro e a lutar pela não violência.
José Francisco iniciou sua fala expressando a honra de representar a família em momentos como esse. Ele fez questão de mencionar sua mãe, Dona Deise, que “enquanto o professor Eduardo estava pelo planeta lutando, tava lá a dona Deise segurando os seus filhos”. Ele destacou a importância de falar sobre a família, pois “nós estamos quebrando um protocolo. Os negros já estão falando de si mesmo.”
Ele descreveu seu pai como um “contraponto” na história, pois, apesar de um planejamento do país para “dilacerar o povo negro” e “dividir cada um por um espaço para que a gente não tivesse comunicação”, o professor Eduardo se tornou “um cidadão de bem querido, feito para a sua comunidade. Ele cresceu em função da sua comunidade.”
José Francisco resgatou momentos importantes da vida do professor Eduardo:
- 1948: O professor Eduardo se transferiu para a escola estadual Paulista e depois para o Caetano de Campos, onde estudou por quatro anos. Ele considerava essa experiência a mais importante de sua vida, pois era a “passagem para se ter o emprego dentro do escritório.”
- 1958: Lançou seu primeiro livro, “Além do Pó”, que foi um “reflexo tão grande” para a Comunidade Negra, mostrando que “é possível ser ator”. Esse lançamento, segundo José Francisco, “deu força para ele ser candidato.”
- 1963: Assumiu como vereador, fazendo um “discurso maravilhoso” onde “citava 1648 que o Brasil mandou navio lá para Angola, para Luanda, perdão, para defender.” Ele se posicionou como o “primeiro vereador negro a se posicionar enquanto negro” e pedia que os vereadores não entrassem com armas na Câmara, demonstrando sua “percepção de não violência.”
- 1965 a 1972: Criou o “primeiro sistema de cotas”, conseguindo que alunos frequentassem bancos em escolas como Botafogo Vilar, Caetano de Campos e São Bento.
- 1968: Viajou para os Estados Unidos para uma série de conferências e, embora não tenha conseguido encontrar Martin Luther King, trouxe consigo uma carta de agradecimento que remeteu a ele.
- 1978: Estava na escadaria do Teatro Municipal no lançamento do Movimento Negro Unificado, sendo considerado um “negro velho” na época, com cerca de 50 anos.
- Governo Montoro: Participou da criação do primeiro governo que “assume que precisava ter um desenvolvimento da comunidade negra” e que “existe racismo”, quebrando a ideia de “democracia racial” no Brasil.
- 1988: Lançou o livro “Quem é Quem na Negritude”, que ele começou a fazer em casa e depois teve apoio do CNAB. Nesse período, ele lutava pelas cotas, mesmo com a oposição que dizia que “as cotas iam acabar com as universidades.”
Hino à Negritude
José Francisco também mencionou a luta do professor Eduardo para oficializar o Hino à Negritude, que foi aprovado como lei federal graças ao empenho de outros companheiros. Ele destacou a evolução do hino, que passou a incluir referências aos orixás, refletindo a luta contra a discriminação das religiões de matriz africana.
Ele expressou sua felicidade com a homenagem e a continuidade da luta de seu pai, que está sendo levada para outros lugares. José Francisco finalizou pedindo o depoimento de Orlando Silva para um documentário que pretende criar sobre a vida do professor Eduardo, e agradeceu a presença de todos, sentindo-se “muito feliz de estar nessa casa depois de 40 e tantos anos que ele esteve aqui como primeiro vereador do Rio.”

Legado para o Brasil
A presidente do PCdoB, Nádia Campeão, expressou sua satisfação em representar o PCdoB e se somar à homenagem ao professor Eduardo de Oliveira, que descreveu como “muito bonita”, “emocionante” e “justíssima”.
Ela parabenizou o CNAB pela iniciativa de aproveitar o centenário de nascimento do professor Eduardo (que nasceu em 1926) para relembrar sua trajetória e destacou que o professor dedicou 87 anos de sua vida à sociedade e ao Brasil, deixando “muito mais significados” do que a maioria das pessoas.
Nádia concluiu afirmando que o centenário do professor Eduardo é mais do que justificado e que o CNB fará o possível para honrá-lo, contando com a colaboração e homenagem do PCdoB. Ela finalizou com a frase: “professor Eduardo Oliveira, presente.”

Luta pela nacionalidade
Carlos Lopes descreveu o professor Eduardo como uma pessoa “íntima” e “envolvente em vários aspectos” e destacou que o professor Eduardo “jamais abriu mão de travar a luta em qualquer aspecto, mas sempre de uma forma suave”, uma qualidade que ele próprio confessou não possuir.
O diretor de redação da Hora do Povo questionou como o professor Eduardo, diante de uma origem tão difícil, “não desenvolve nenhuma espécie de ressentimento?”. “Pelo contrário, ele desenvolveu ternura”. Ele afirmou que essa ternura é “visível nos livros dele, é visível nos poemas dele”.
Carlos Lopes também abordou a luta antirracista do professor, que focava no “que ficou da escravidão”. “Ou seja, o racismo que sobreviveu à escravidão do Brasil”, disse. Ele observou que o Brasil, sendo um país “fundamentalmente mestiço” com a maioria da população não branca, ainda apresenta um “racismo tremendo”.
Ele afirmou que a luta do professor Eduardo era “fundamentalmente achando que a luta contra o racismo está diretamente ligada à luta pela nacionalidade, para a gente constituir o povo, uma nação. Uma nação, nós não fazemos uma nação com racismo Porque o racismo significa você quebrar a nação, significa você fragmentar a nação. E no essencial o que nós temos que fazer é unir a nação.”

Um homem culto, otimista e apaixonado pelo Brasil
O deputado federal Orlando Silva descreveu o professor Eduardo de Oliveira como um homem extremamente culto, informado sobre história e arte, e com um amor profundo pelo Brasil.
Orlando compartilhou que, ao ouvir as manifestações, vieram à sua mente momentos em que teve a oportunidade de se encontrar com o professor Eduardo. Para ele, a primeira característica marcante do professor era ser um “homem extremamente culto”, “muito informado”, sobre história, arte, e que comentava acontecimentos em curso.
Ele defendeu que a leitura dos processos sociais deve ir além da ótica de classe, incluindo a ótica de gênero e, no Brasil, a questão da raça. E afirmou que “o racismo estrutura as relações sociais no Brasil” e é a “base da formação econômica do Brasil”. Para ele, a chave de classe, gênero e raça é que permitirá a constituição de um projeto de nação que unifique e valorize a identidade brasileira. Ele viu o professor Eduardo como um “homem idealizador, idealista de uma construção desse tipo”.
Ele destacou a importância do Hino à Negritude como uma “exaltação à negritude brasileira” para tornar visível esse “traço fundador da nação brasileira” e enfatizou que a tarefa atual é enfrentar o racismo no Brasil, pois o país não será plenamente democrático enquanto houver racismo. Ele afirmou que a melhor forma de homenagear o professor Eduardo é combater “sem trégua essa chaga”.
Ele mencionou sua honra em ser o deputado que relata a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27, batizada de “PEC da Reparação”, que propõe um capítulo na Constituição dedicado à promoção da igualdade racial como um direito fundamental. Essa PEC, segundo ele, estabelece o dever do estado e da sociedade, fixa princípios, cria um fundo e constitucionaliza um sistema de gestão pública para garantir a efetividade das políticas.
“Enfrentar o racismo não é apenas um problema dos negros, mas também dos brancos e de “todo mundo que tem compromisso ético com a humanidade”, destacou.

A fala de Leci Brandão foi apresentada em vídeo, onde ela cumprimentou a todos e expressou sua alegria em falar do professor Eduardo de Oliveira, a quem chamou de “mestre” e “lenda”. Ela citou versos escritos pelo professor Eduardo, que exaltam a glória e o heroísmo.
Leci Brandão destacou que o professor Eduardo de Oliveira foi educador, poeta e o primeiro vereador negro da história de São Paulo. Além dos títulos, ela o descreveu como um homem de coragem que usou a caneta e a palavra para defender a diversidade em tempos difíceis. Ela expressou profundo respeito pela história dele, afirmando que ele abriu as portas da política para todos e mostrou que é possível e necessário ocupar os lugares de decisão.
Ela parabenizou o CNAB pela homenagem, que considerou necessária para celebrar o legado do professor Eduardo, que continua sendo um farol na luta contra o racismo e a desigualdade. Leci Brandão finalizou sua fala com um “Viva o professor Eduardo de Oliveira”.

A luta continua
Lídia Correa, ex-vereadora, emocionou-se ao falar da convivência com o professor Eduardo de Oliveira, destacando sua firmeza e persistência. Lídia Correa expressou sua alegria em estar presente, destacando a importância do professor Eduardo como referência para os jovens e a forte relação que ele mantinha com a juventude. Lídia também manifestou satisfação em reencontrar tantos amigos da luta pela democracia e igualdade racial.
A ex-vereadora compartilhou que teve o privilégio de conviver intensamente com o professor Eduardo e sua esposa, Dona Deise, que era um “espelho muito forte”. Lídia ressaltou a firmeza e a tenacidade do professor Eduardo, que, apesar de nunca se exaltar, insistia e persistia em suas ideias e propostas.
Lídia enfatizou que o professor Eduardo compreendia que o Brasil, com sua grande miscigenação e a raça negra como base principal, só será uma nação livre e desenvolvida quando os negros tiverem voz e vez. Ela concluiu que o professor Eduardo, com sua simplicidade, firmeza e amor, deixou um legado de luta contra o racismo e pela união do país, e que seu livro “Quem é Quem na Negritude Brasileira” é uma obra fundamental.

Destruir o chicote
Ubiraci Dantas, vice-presidente da Central das Trabalhadoras e Trabalhadores do Brasil (CTB), destacou que a principal característica do professor Eduardo de Oliveira era ser “amplo”, conversando com todos e levando suas ideias de forma “sublime”, mesmo para aqueles que discriminavam.
Ele mencionou que o professor não se preocupava com a “histeria de quem não gostava da amplitude” e que sua coragem e determinação o levaram a construir o “verdadeiro libelo” que é o Hino à Negritude. E também ressaltou a participação do professor em todas as batalhas da classe operária, da juventude, das mulheres e dos trabalhadores, unindo pessoas para enfrentar a desigualdade.
Ubiraci concluiu que o professor Eduardo sabia que o racismo não acabará enquanto houver limitação no desenvolvimento do Brasil, políticas neoliberais, fome, desemprego e falta de educação. “O professor não queria tirar o chicote da mão do branco para ficar com ele acertando as outras pessoas, mas sim destruir o chicote”, completou.

O evento também contou com a presença de Elza Serra, do Rio de Janeiro, que compartilhou sua experiência com o professor Eduardo de Oliveira no Congresso do CNAB em 2008, a quem chamou de “mestre”. Ela o descreveu como um homem grandioso na forma de tratar as mulheres, especialmente as mulheres negras, e com uma energia contagiante.
Elza Serra mencionou que o professor Eduardo, em sua atuação, dava o exemplo de energia e capacidade de construção, nunca desistindo do Brasil. Ela citou a frase do Hino à Negritude “os negros de Escol”, explicando que “Escol” era um vale na Mesopotâmia onde se colhiam as melhores uvas, simbolizando que o povo negro produz o melhor e a excelência. Ela concluiu que o professor Eduardo compreendia que o país só será livre e desenvolvido quando entender o papel de todos, especialmente das mulheres e das mulheres negras, e que ele incutiu o orgulho de ser negro e brasileiro.
A celebração do centenário do Professor Eduardo de Oliveira foi um momento de profunda reflexão sobre a história e a luta antirracista no Brasil. Seu legado de tenacidade, pioneirismo e amor pelo país continua a inspirar novas gerações na busca por uma sociedade mais justa e igualitária.
ANDRÉ SANTANA
A íntegra da homenagem pode ser acessada em:











