Pela primeira vez no programa espacial chinês, um tripulante permanecerá em órbita durante um ano
Já estão a bordo da estação espacial chinesa Tiangong (Palácio Celestial) os três astronautas da missão Shenzhou-23, que decolou do centro de lançamentos de Jiuquan no domingo (24), se separou do foguete Longa Marcha 2F e entrou em órbita para, cerca de 3,5 horas depois, executar com êxito a acoplagem.
A missão inclui, pela primeira vez no programa espacial chinês, a permanência de um tripulante em órbita por um ano, considerada crucial para o objetivo de Pequim de enviar humanos à Lua até 2030.
Zhu Yangzhu (comandante; engenheiro de voo e veterano da missão Shenzhou-16), Zhang Zhiyuan (piloto de voo espacial) e Lai Ka-ying (especialista em carga útil) foram recebidos festivamente pela tripulação da Shenzhou-21, que está completando sua missão de seis meses em órbita, e dentro de uma semana estará de volta à Terra. Lai é a primeira astronauta vinda de Hong Kong.
O pessoal da Shenzhou-21 – comandante Zhang Lu, engenheiro de voo Wu Fei e especialista de carga Zhang Hongzhang – e os recém chegados se abraçaram e depois posaram para a já tradicional foto de boas vindas, a oitava da Tiangong. Eles transmitiram ao povo chinês uma mensagem de agradecimento pelo apoio e carinho de todos.
A agência espacial chinesa informou que o astronauta escolhido para permanecer um ano em órbita será anunciado posteriormente. Até agora, as tripulações da Tiangong eram substituídas de seis em seis meses.
Ao Global Times, na véspera da decolagem, Zhu descrevera a missão de 365 dias no espaço como uma “Longa Marcha Espacial”, dizendo que não havia necessidade de se prender demais ao futuro distante. Em vez disso, deve-se focar em fazer tudo no presente com o mais alto padrão – realizar cada experimento com precisão, realizar cada operação conforme o protocolo e cuidar bem do próprio bem-estar físico e mental dos companheiros de equipe.
“Como uma pessoa comum de Hong Kong, poder entrar para a equipe de astronautas e ser selecionada para esta missão é uma oportunidade que nunca ousei sonhar. Meu coração está cheio de gratidão e honra”, disse a astronauta Lai à agência de notícias Xinhua.
O astrofísico e professor da Escola de Ciências Matemáticas e Físicas da Universidade Macquarie, na Austrália, Richard de Grijs, disse à AFP que os “principais desafios” da nova tripulação chinesa serão “os efeitos sobre o ser humano”: “perda de densidade óssea, atrofia muscular, exposição a radiações, distúrbios do sono e fadiga comportamental e psicológica”.
Ele também enfatizou a importância da confiabilidade dos sistemas de reciclagem de água e ar, assim como a capacidade de gerenciar potenciais emergências médicas longe da Terra.
“A China tornou-se muito competente nessas áreas, mas a duração é importante. Um ano em órbita coloca o equipamento e a tripulação em um regime operacional diferente das missões Shenzhou, mais curtas”, ressaltou De Grijs.
Como parte do programa lunar da China, este ano está programado o voo de teste em órbita da espaçonave Mengzhou (“Nave dos Sonhos”), que substituirá a Shenzhou em missões tripuladas à Lua. Em 2021, China e Rússia anunciaram a intenção de construir uma estação científica lunar aberta a todos. Pequim espera que esteja construído até 2035 o primeiro segmento da Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS).
Em paralelo, a Nasa mantém seu plano de retomar voos tripulados à Lua e realizou em abril o primeiro sobrevoo da Artemis à Lua, com quatro tripulantes a bordo.
A China teve de assumir o desenvolvimento autossuficiente de seu programa espacial após ter, em 2011, sua participação na Estação Espacial Internacional (ISS) vetada pelos EUA sob alegação de que o país não tinha “tradição” de tecnologia espacial.
Na verdade, o primeiro tiro de sua guerra tecnológica contra o desenvolvimento chinês, que nos dias de hoje se estende desde os chips avançados à Inteligência Artificial e computação quântica.
A China superou todos os entraves e em 2019 se tornou o primeiro país a pousar uma nave no lado oculto da Lua, com a sonda automática Chang’e 4 e em 2024 com a Chang’e 6, quando, pela primeira vez em 44 anos, uma carga de pedras da Lua foi trazida para a Terra.
Em 2022, o veículo robótico chinês enviado a Marte, o Zhurong, causou sensação ao fazer uma descida controlada no planeta vermelho, na primeira tentativa, apesar de ser uma operação com a comunicação com a Terra interrompida, em razão dos oito minutos que qualquer sinal leva entre os dois planetas. O que levou a revista Scientific American a comentar que se tratava da “mais recente conquista do programa espacial da China”. A China – acrescentou – “mostrou seu espírito de luta”.











