Espetáculo que revisita a história do país sob a perspectiva das lutas populares
O palco do Cine-Teatro Denoy de Oliveira, na Bela Vista, recebeu na noite da última quinta-feira (2) a estreia de “Brasil em Revista”, nova montagem do Centro Popular de Cultura da UMES (CPC-UMES), que propõe uma releitura da história brasileira por meio do teatro, da música e da cultura popular, colocando o povo como protagonista dos principais acontecimentos do país.
Inspirada nas experiências do Teatro de Arena, do Centro Popular de Cultura da UNE (CPC), do Teatro Opinião e do Movimento de Cultura Popular do Recife, a montagem combina elementos do teatro épico, do teatro de revista e de manifestações populares brasileiras, como maracatu, samba de roda, capoeira, bumba meu boi e embolada.
Em vez de privilegiar personagens celebrados nos livros de história, “Brasil em Revista” coloca em evidência figuras populares e movimentos de resistência. Entre os episódios retratados estão a luta das heroínas de Tejucupapo contra a invasão holandesa, a participação do Corneteiro Lopes na Independência do Brasil e o protagonismo de José do Patrocínio na Abolição da Escravidão e na Proclamação da República. A intenção é mostrar que “o povo é o ator principal” da história nacional.

A atuação do elenco é destaque a parte que levam humor e empolgam o público. Personagens como o “diretor”, que conduz a história brasileira, e a três bruxas: Damares Desgraceira, Zambella Esmerdalhada e Bia Krisis, que tem a missão de estragar esta história, se destacam em meio às dezenas de personagens interpretados por 16 atores no espetáculo.
A dramaturgia é assinada por Marcus Vinicius de Andrade, Valério Bemfica e Rebeca Braia, incorporando trechos de obras históricas do CPC da UNE e de autores como Dias Gomes e Ferreira Gullar e rendendo homenagens a grandes nomes do teatro brasileiro, como João das Neves e Denoy de Oliveira. O elenco reúne 16 atores, acompanhados por uma banda ao vivo responsável por interpretar composições originais e canções que dialogam com diferentes períodos da história brasileira.
TEATRO PROFUNDAMENTE BRASILEIRO
Na visão do diretor-geral, Alexandre Kavanji, a linguagem escolhida pretende aproximar o público da realidade brasileira. Segundo ele, a música exerce papel narrativo dentro da dramaturgia, enquanto a utilização de manifestações populares ajuda a criar identificação imediata com a plateia e reforça o caráter crítico da encenação. A proposta, afirma, é construir um teatro “engajado, popular e profundamente brasileiro”.
Em entrevista à Hora do Povo, na estreia do espetáculo, o diretor Alexandre Kavanji compartilhou detalhes sobre a concepção da peça, o processo de produção coletiva e a proposta narrativa da obra.
Um dos destaques da produção é a composição do seu elenco. Segundo o diretor, metade dos atores é proveniente das oficinas oferecidas pela UMES, enquanto a outra metade é composta por profissionais veteranos que já colaboram com a instituição há algum tempo. Ele celebrou essa mistura entre jovens e veteranos, destacando também o caráter coletivo do projeto, que conta com uma equipe completa de direção musical e preparação corporal.
“A riqueza está aí no coletivo. E é assim que a gente pode pensar no Brasil. A partir dessa concepção”, disse Kavanji.
Em vez de focar na “história oficial” que, segundo o diretor, costuma contar a versão dos que se consideram “vencedores”, o espetáculo joga luz sobre aqueles que resistiram e lutaram de fato: o povo.
“É um ponto de vista interessante, porque não aborda a história oficial, que geralmente é imposta geralmente. Mas sim aqueles que lutaram na verdade. O povo mesmo. Que resistiu, que lutou. Eu acho que é por aí que a gente deu mais importância. A peça toda fala desse povo, da luta. Das mulheres, dos negros, abolição, do Zé do Patrocínio. Figuras da nossa história que são diferentes do que a gente está realmente acostumado”.
Para o diretor, a peça é uma oportunidade de confrontar o público jovem, habituado à historiografia oficial, com a trajetória de resistência do povo brasileiro.
“É, a história oficial sempre conta, entre aspas, a história dos vencedores. Que eles acham que são os vencedores. Mas tem o povo que sempre luta. Sempre está lutando, apanhando e lutando”, ressaltou.

MOBILIZAÇÃO DA JUVENTUDE
Sobre a estreia de seu novo espetáculo como dramaturgo e compositor, o maestro Marcus Vinicius de Andrade celebrou o fato de a peça ser realizada de forma mais próxima, junto à equipe do Centro Popular de Cultura da UMES e com atores formados, ou muito próximos, ao projeto cultural da entidade.
“Estou gostando muito, claro. Eu sempre tive uma atividade como compositor e dramaturgo dentro de um teatro, um teatro mais convencional, mas aqui é uma coisa que estamos fazendo dentro da casa da gente, com a nossa turma”, disse. “É muito importante por isso, porque nós estamos mobilizando um público, que é o público que nos interessa, e é o público que está fazendo isso para ele mesmo”, destacou.
O autor ressaltou a sintonia entre quem produz e quem assiste à obra, além de revelar sua preocupação inicial com a recepção dos espectadores. “Esse segmento que está produzindo essa peça é o mesmo segmento que a gente está querendo atingir. Então isso funcionou, tava muito preocupado em ver como é que seria a reação do público que vem, sabe, cru e vem ouvir isso pela primeira vez. E estou gostando muito.”
Ao ser questionado sobre o desafio de contar a história de pessoas desconhecidas para a maioria do público e transmitir esse recado para a juventude, o dramaturgo revelou que o processo de seleção de conteúdo foi complexo e exigiu cortes para evitar que o espetáculo ficasse excessivamente longo.

“É um desafio pra gente, mas na realidade tinha muito mais história pra contar. Por exemplo, a gente não falou aí dos líderes camponeses do Brasil, por exemplo, João Pedro Teixeira, o Nego Fubá, Pedro Fazendeiro, que foram líderes camponeses que foram assassinados pelo latifúndio. Essa história não apareceu aqui, porque não daria pra abrir um caminho, senão a gente, essa peça teria mais uma hora de duração”, explicou.
Apesar das ausências, o autor avalia que o conteúdo mantido cumpre o seu papel de impactar e emocionar os espectadores. “Eu acho que o que estamos contando já é o suficiente pra dar uma chacoalhada na turma. Acho que o pessoal fica comovido no final, principalmente no meio pro fim, quando engrena e vê, a mensagem vem bem clara pra ela, para o público, aí fica muito legal”, ressaltou.

PERSPECTIVAS FUTURAS
Satisfeito com o resultado e com o recado transmitido à juventude, Marcus Vinicius projeta a expansão do espetáculo para atingir milhares de jovens da cidade. “Eu acho que a gente tinha era de não podia ficar circunscrevendo isso a pequenas plateias. A gente tem que tentar ampliar isso. Esse espetáculo ele tem um efeito multiplicador. Quanto mais gente está aqui vendo, ouvindo, aplaudindo, a peça vai crescer mais ainda”, concluiu.
A temporada segue até 12 de setembro, com apresentações às quintas e sextas-feiras, às 19h, e aos sábados, às 20h, no Cine-Teatro Denoy de Oliveira, localizado na Rua Rui Barbosa, 323, no bairro da Bela Vista, em São Paulo. A entrada é gratuita.
ANDRÉ SANTANA










