“75% dos judeus israelenses acham que não há gente inocente em Gaza, incluindo as crianças… Isso é uma loucura!”, afirmou o sociólogo judeu norte-americano Norman Finkelstein em intensa atividade durante sua passagem pelo Brasil. Ele deu entrevista pública no auditório do Museu do Futebol durante a Feira do Livro em São Paulo, participou de debate sobre a inclusão do antissemitismo e islamofobia como formas de racismo e a legislação brasileira em torno desta questão e ainda deu entrevistas a Rodolfo e Leonora, do portal Tutameia e a Breno Altman, publicada no portal Opera Mundi.
Reuni alguns trechos destes momentos das esclarecedoras percepções de Finkelstein, em suas veementes denúncias do genocídio cometido por judeus israelenses contra o povo palestino e das perseguições movidas e financiadas por “bilionários supremacistas judeus” contra manifestações solidárias ao povo palestino nas universidades norte-americanas. Aqui, Finkelstein lançou uma reedição do seu livro A indústria do Holocausto.
NATHANIEL BRAIA
“Não vê como generalização tratar um povo com essa visão de que a sociedade israelense é movida por um racismo insano?~, perguntou Breno Altman.
Não, respondeu Finkelstein. Eu acho que nesse caso, a generalização é válida. O que é uma generalização? Se não pudéssemos promover generalizações, não haveria uma disciplina chamada sociologia. Toda a sociologia trata de comportamentos generalizados de pessoas em determinadas circunstâncias. Se eu dissesse que o senso nos Estados Unidos era, de maneira geral, racista, será que alguém questionaria esta generalização? E mais, se eu dissesse que o sul dos EUA estava saturado de racismo… Ninguém discute essa ideia, porque é razoavelmente verdade.
Portanto, se eu faço uma generalização que você não gosta, aí você diz que é um estereótipo. Que é um estereótipo. Se eu digo que os judeus são inteligentes, as pessoas gostam. Mas se eu digo que os judeus não gostam de gastar dinheiro, muitos deles podem não gostar… Eu não me ofendo, mas muitos podem se ofender…
Acontece que muitos judeus se acham “um povo escolhido”. Daí tudo que os judeus fazem passa a ser importante… Por exemplo se comem ovo no café da manhã, é importante. S e o ovo é frito ou mexido, as pessoas precisam saber…
Assim, tudo que os judeus israelenses fazem passa a ser importante. Isso pode parecer legal, mas às vezes isso volta para assombrar.
Veja, por exemplo, uma coisa que apareceu no início do genocídio de Gaza… Foi feita uma pergunta muito simples para os israelenses: ‘Se o exército de Israel entra em uma cidade, devem matar a todos nela?’.
Era essa a pergunta. Imaginem uma pergunta como essa no auge da guerra do Vietnã!
Isso é inimaginável mesmo nos Estados Unidos!
Mas a sociedade israelense respondeu a esta pergunta. Quase metade respondeu que sim!
Alguns meses depois houve uma segunda pesquisa: “Há inocentes em Gaza?”.
Sabemos que metade das pessoas que moram em Gaza são crianças. Essa pergunta foi feita para judeus e não judeus e 64% disseram que não há inocentes em Gaza. Mas, se considerarmos somente os judeus, ou seja, sem considerar os cristãos, os muçulmanos, os árabes em geral, que provavelmente responderam na totalidade que há, sim, inocentes em Gaza, chegamos à conclusão de que 75% dos judeus israelenses acham que não há gente inocente em Gaza, incluindo as crianças… Isso é uma loucura!
Em Israel há essas pesquisas a cada mês. Outro exemplo, uma pergunta referente a Gaza: ‘Você acredita que Israel está usando força demais, suficiente, ou força de menos?’.
Somente 5% disseram que Israel está usando força demais!
E entre aqueles que disseram que se usava força correta ou pouca força, 40% disseram que é pouca força que Israel está usando.
O que se deve dizer de uma sociedade que se pronuncia assim?
Uma sociedade na qual as pessoas publicam nas redes sociais os atos mais terríveis, os mais horrendos. Alguém vai alegar que é uma minoria que faz isso…
Mas tem um problema com esse argumento; os que publicam isso o fazem seguros de que não serão nem mesmo criticados ao fazerem isso… Certos de que a sociedade não vai rejeitá-los, ao verem aqueles vídeos de casas explodindo, de degradação sexual. Sabem que têm o apoio de grande parte da população, caso contrário não postariam esses vídeos.
Durante a guerra do Vietnã, havia soldados que cortavam as orelhas dos vietnamitas e as colecionavam em garrafas, mas nem todo mundo sabia disso. Era preciso pesquisar muito para verificar isso. Em Israel, divulgam isso de cara aberta!
“A Alemanha passou por uma situação assim e teve que ser destruída em uma guerra para se chegar a uma solução. Como você vê uma solução para o que acontece com Israel?~, questionou Breno Altman.
Uma redenção para Israel? Eu não tenho resposta para essa pergunta.
Eu sei que a Alemanha passou por reformas. Talvez não todas as reformas que precisavam ser feitas, Japão também, mas foram mudanças que permitem a esses países uma presença tolerável no mundo.
Ao ponto de que os alemães agirem bem em 2003, eles se recusaram a participar do ataque ao Iraque.
Houve até quem fizessem piada quando isso aconteceu: ‘O mundo está estranho. Os alemães contra a guerra’.
Então Israel pode mudar, mas eu preciso dizer que Israel enlouqueceu. É preciso ter cuidado com isso. Pois, em meu próprio país, o extermínio da população indígena foi abraçado por todos nos Estados Unidos.
Fizeram com os índios do mesmo jeito como Hitler buscou ‘resolver’ a ‘questão judaica’: recorreram ao extermínio.
Como Israel vai resolver esse problema? Eu não sei…
Eu não tenho certeza de que pode ser reformada essa sociedade. Eu quero acreditar que sim. A Alemanha e o Japão foram reformados.
Breno – Mas houve uma guerra...
Sim, isso é uma outra questão. Nos Estados Unidos eles resolveram a questão acabando com ela, acabaram com os índios.
Parte dessa discussão remete à pergunta de como você vê o antissemitismo.
Nas definições que consultei sobre o assunto há sempre algo que se define como que o antissemitismo é irracional pois os judeus dizem que já fizeram de tudo para acabar com esse ressentimento mas ele persiste, contra os judeus, ‘de forma irracional’.
O problema que eu sinto é que muito do ressentimento contra os judeus, como o que acontece agora, é racional.
Pois os judeus realizaram algo agressivo, flagrantemente irresponsável, aliás muito pior do que irresponsável.
Se pegarmos o caso das universidades de Harvard, Columbia, Pensilvânia, Tufts. do que aconteceu lá, para sermos honestos, muitos estudantes foram deportados em circunstâncias muito difíceis porque estes bilionários supremacistas judeus, colocaram toda a pressão sobre elas e disseram: “não queremos estes estudantes que condenam Israel aqui”… É terrível que colocaram estes estudantes a meio do caminho para fora do país dessa forma. Então se houver ressentimento contra os judeus nos Estados Unidos, não posso dizer que é irracional. Passam a ideia de que judeus, pessoas inocentes, se tonassem de repente alvo de ataque.
Não é verdade. Isso agora cria problemas reais como um efeito cascata.
A questão é como os judeus trataram o problema do antissemitismo. Eles deram munição para isso. Então não chamem esse ressentimento de antissemitismo. Assim como eu acho que todos em Gaza odeiam os judeus. Não chamem de antissemitismo porque o ódio deles é racional. Então se cada definição de antissemitismo inclui essa suposta irracionalidade do ódio, não é uma definição correta.
Devemos capturar o que está acontecendo, qual a raiz dos ressentimentos e muito mais.
Eu não vou negar que tenha havido mais casos recentes de antissemitismo. Mas nego veementemente a magnitude que estão atribuindo a isso. As evidências para esse atribuído enorme surto de antissemitismo não existem.
O problema também é que muitas organizações nos Estados Unidos e também organizações de direita judaica aqui no Brasil silenciam diante de Israel. Se fossem mais claros e vocais na condenação aos crimes de Israel, o ressentimento contra os judeus diminuiria, mas isso não acontece.
O problema são as organizações judaicas em especial as de direita. Temos que ser honestos quanto a isso. Elas visam silenciar as críticas a Israel.
Então não há permissão para sentir ressentimento… Mas não há outro jeito, infelizmente tudo isso transborda e as pessoas passam a sentir ressentimento contra todos os judeus.
Isso é um problema. Temos que reconhecer isso.
‘Mas há ainda outro fato acerca do qual temos que ser honestos’, disse Finkelstein no vídeo divulgado pelo Tutameia a partir do debate no Museu do Futebol:
O problema em Israel não é o governo, não é o regime, não são Netanyahu, Gvir e Smotrich. Isso não é verdade. O problema é a sociedade inteira. O problema é que aquele lugar inteiro se anulou. São maníacos genocidas. Basta observar as pesquisas de opinião em Israel durante o genocídio em Gaza.
O problema é que as pessoas daquele lugar enlouqueceram. 95% dos judeus em Israel – em meio a um genocídio – acham que “a quantidade de força utilizada em Gaza está correta ou não é suficiente”.
O problema é que as pessoas sabem o que está acontecendo. Ninguém pode dizer que não sabe o que está acontecendo. Aqueles que querem saber o que está acontecendo sabem.
Quem não quer saber o que está acontecendo nunca vão saber o que está acontecendo.
Eu sou judeu e se hoje alguém decidir tirar a minha vida por isso eu direi: vocês, os judeus supremacistas, causaram isso.
Se os judeus se desligassem de Israel, isso seria uma solução de grande porte. Deixar de denominar Israel como Estado judeu… do povo judeu.
Porque, na verdade, o Estado de Israel se tornou o menos judeu do mundo.
Quando nós éramos crianças, lá por volta de 1948, o que se supunha ser um judeu?
Logo depois da Segunda Guerra, ser judeu significava estudar bastante, se sair bem na escola, ler bastante. Se supunha ser um tanto excêntrico, o judeu típico de minha geração crescia para se tornar parecido com Woody Allen.
Com aqueles óculos de aro de tartaruga grandes.um tanto estranhos. Magros, fracos fisicamente, preferiam ler a frequentar aulas de Eduação Física… não era comum a prática de esportes entre nos… Portanto ali não há nada de judaico. É uma nação de maníacos homicidas.
Na verdade, neste ponto, eles me dão náuseas.
Se alguém no meu bairro, que tem bastante judeus, me disser ‘eu conheço alguém em Israel’ eu reajo com um até logo. Não quero nada com essas pessoas.











