PF rejeita manipulação de Daniel Vorcaro e PGR ainda analisa proposta de delação

Sede da Polícia Federal em Brasília (Foto: Rafa Neddermeyer - Agência Brasil)

Investigadores avaliam que o banqueiro corrupto tenta negociar sem entregar fatos inéditos nem assumir responsabilidades centrais para ganhar tempo e enrolar a PF

A Polícia Federal rejeitou a segunda proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro, o ex-dono do Banco Master. Nos bastidores da investigação, a leitura predominante é que o material entregue pela defesa não provocou o esperado “cavalo de pau”.

Expressão usada por investigadores para descrever delação capaz de alterar significativamente o rumo das apurações com fatos inéditos e provas novas.

Segundo relatos reservados de policiais ao g1, a primeira versão do acordo foi considerada marcada por omissões, blindagem de aliados e proteção de personagens vistos como relevantes para a investigação.

Na segunda tentativa, Vorcaro passou a mencionar nomes e situações específicas, mas a PF concluiu que os relatos pouco acrescentavam ao que já havia sido obtido por meio de outras provas e diligências.

Investigadores resumem a percepção com frase que circula internamente: “o próprio celular de Vorcaro já é uma delação premiada”.

A referência é ao volume de informações extraídas dos aparelhos apreendidos, que, na avaliação da corporação, já forneceu elementos relevantes sobre a estrutura do esquema investigado.

PRISÃO E INVESTIGAÇÃO BILIONÁRIA

Vorcaro está preso em Brasília e é investigado por suspeita de chefiar esquema bilionário de fraudes financeiras. A PF estima que os prejuízos potenciais possam alcançar dezenas de bilhões.

As apurações, contudo, deixaram de tratar apenas de fraudes financeiras: a perícia inicial de parte dos mais de 8 celulares apreendidos indicou indícios de corrupção, organização criminosa e uso de estrutura privada para atacar adversários e acessar dados sigilosos.

A investigação sustenta que a dimensão do caso se ampliou conforme o material digital começou a ser analisado, o que reforçou a avaliação de que a colaboração apresentada pela defesa não trouxe o nível de novidade esperado para justificar benefícios mais amplos.

LEITURA DA PF: GANHAR TEMPO

A interpretação dominante dentro da PF é que Vorcaro estaria usando as negociações para ganhar tempo.

Investigadores avaliam que o banqueiro continua sinalizando possuir informações sensíveis envolvendo diferentes personagens e que, por isso, apostaria em acomodação futura do cenário político e institucional.

Reservadamente, ao g1, policiais afirmam que o comportamento do investigado sugere a expectativa de atravessar o período eleitoral sem acordo efetivo, aguardando ambiente considerado mais favorável depois das eleições.

Investigador descreveu a postura como a de alguém que acredita ter um “coelho na cartola” capaz de alterar a situação mais adiante.

COMO A NEGOCIAÇÃO AVANÇOU

1. Em 18 de março, o advogado de Vorcaro procurou a PF para informar o interesse do cliente em firmar acordo de delação premiada.

2. No dia seguinte, 19 de março, o banqueiro foi transferido da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da PF na capital, onde assinou o termo de confidencialidade que abriu formalmente o caminho para a negociação do acordo.

3. Em maio, a defesa concluiu os anexos da colaboração e entregou o material às autoridades em pen drive.

4. Tanto a primeira quanto a segunda proposta foram rejeitadas pela PF, embora as tratativas continuem sendo conduzidas conjuntamente pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.

TRANSFERÊNCIA PARA CELA COMUM

Outro episódio relevante foi a mudança das condições de custódia. Após pedido da PF, Vorcaro deixou a sala em estilo de “Estado-maior” e foi transferido para cela comum na Superintendência da PF em Brasília, ficando submetido às regras internas da corporação para visitas e rotina prisional.

Investigadores vinham reclamando, desde a primeira proposta, que o material apresentado pela defesa acrescentava pouco em relação ao que já havia sido levantado pela investigação e que a impressão era de proteção a pessoas próximas do banqueiro.

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