“Quem não tem satélite não tem capacidade militar”, afirma o comandante Robinson Farinazzo

Foto: Reprodução/Youtube

Em entrevista exclusiva ao HP, o comandante Robinson Farinazzo falou sobre a conjuntura nacional, em especial às recentes ameaças à soberania brasileira. De acordo com Farinazzo, “muita gente começa a perceber que o grande problema são os Estados Unidos”. O comandante destacou também que é “necessário aumentar a comunicação da sociedade com os militares, e que nossa fragilidade é que não temos capacidade de satélites autônomos”.

Natural de Catanduva (SP), Robinson Farinazzo é capitão-de-fragata (fuzileiro naval) da reserva da Marinha do Brasil, especialista em tecnologia aeronáutica e piloto de aviões, tendo atuado durante mais de trinta e cinco anos em diversas funções na carreira militar. Leia a seguir a íntegra da entrevista:

HP – Como reagiram os militares diante das ameaças à nossa soberania nacional?

Farinazzo – Começa a haver uma conscientização dos militares de que o Brasil sofre ameaças e que elas são bem diferentes daquelas que foram apresentadas na Guerra Fria. Muita gente começa a perceber que o grande problema são os Estados Unidos.

Mas eu acho que ainda tem muito que ser caminhado nesse sentido. Penso que é necessário aumentar a comunicação da sociedade com os militares. Os militares também têm que aumentar a sua comunicação com a sociedade para que a gente perceba com profundidade quais são as ameaças ao Brasil e como nós vamos delinear uma possível defesa do país.

HP – As Forças Armadas têm preparo para enfrentar uma agressão externa?

Farinazzo – Isso depende muito. Eu acho que o Brasil é um país inexpugnável dado o tamanho, os acidentes naturais, etc., não tem como invadir um país como esse e permanecer.

O problema não é esse. Nossa fragilidade, primeiro, é que nós não temos uma capacidade de satélites autônomos, não temos inteligência artificial desenvolvida aqui, não temos grandes programas de defesa, isso é verdade. Nossos mísseis ainda não têm um alcance estratégico, nós não investimos em programas de construção de drones em escala grande.

A gente ainda está muito com a mentalidade dos anos 90 em termos de aviação e forças navais, forças terrestres também. E a grande fragilidade do Brasil, na minha opinião, são os portos e linhas de comunicações, porque a gente não tem condições de defender as nossas linhas marítimas, que fazem as nossas exportações e importações. O Brasil tem uma fragilidade muito grande nesse sentido, mas eu acho que hoje talvez a maior fragilidade do Brasil seja a falta de uma capacidade de lançar satélites nacionais.

A gente não tem essa capacidade e as guerras da Ucrânia e do Irã já provaram que quem não tem satélite não tem capacidade militar.

HP – Um desrespeito à nossa soberania pode ser um instrumento para ampliar a consciência da necessidade de um projeto de desenvolvimento autônomo na sociedade?

Farinazzo – O desrespeito à soberania pode ser um instrumento, sim, para ampliar a consciência, mas isso precisa ser muito trabalhado, e trabalhado de antemão. Por quê? O que a gente está vendo? Vamos pegar, por exemplo, o caso do presidente Lula: ele precisava investir mais no sentimento nacional do brasileiro. Aquela campanha que ele lançou, com o Boné Azul, “Brasil é dos Brasileiros”, precisava ter tido continuidade, e não teve. Essa é a verdade.

Este é o momento ideal para resgatar o orgulho brasileiro, o orgulho nacional, para a gente acabar de vez com o nosso complexo de inferioridade.

E eu acho que outra coisa bastante importante é valorizar mais os nossos vultos históricos. Não adianta ficar falando mal da história brasileira, porque a autoestima do brasileiro já não é grande; se a gente começa a demonizar a história nacional, as coisas pioram ainda mais.

A gente precisa investir bastante no sentimento de brasilidade do nosso povo, enaltecendo vultos sensacionais que nós temos, como José Bonifácio, e também nossos grandes nomes da arte: Portinari, Villa-Lobos, Carlos Gomes, Tom Jobim. Temos muita gente boa.

A gente tem que investir mais na imagem que o brasileiro faz de si mesmo e resgatar esses vultos da história, o que será muito importante.

CARLOS PEREIRA

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