Fracassa Israel ao tentar sabotar acordo em que Trump teve de reconhecer vitória do Irã

"Irã deu grande passo para a vitória final", diz presidente do parlamento iraniano (IRNA)

Israel segue empenhado em sabotar o acordo EUA-Irã, recém anunciado pelos dois governos, com a mediação do Paquistão, e que estabeleceu inequivocamente o fim dos combates em todas as frentes, incluindo o Líbano, com o primeiro-genocida Benjamin Netanyahu asseverando nesta segunda-feira (16), que não se considera parte do acordo, depois de líderes da oposição o terem considerado um fracassado.

Quando do anúncio do memorando de entendimento (MOU, na sigla em inglês) entre Teerã e Washington, como afirmou o principal mediador, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, ambos os lados concordaram com o “encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano”. O MOU é baseado na proposta de 14 pontos do Irã e a assinatura será na próxima sexta-feira (19), em Genebra. O bloqueio naval americano ao Irã foi encerrado, o Estreito de Ormuz será reaberto e as questões pendentes sobre levantamento de sanções e o programa nuclear serão equacionadas em 60 dias.

Assim que as informações sobre o iminente acordo se multiplicaram, Israel tentou torpedear as negociações com ataques no Líbano, embora sem ter espaço para repetir a carnificina de 8 de abril, no primeiro cessar-fogo, com 350 civis libaneses assassinados em dez minutos de bombardeio, além de centenas de feridos. Neste domingo, foram três libaneses mortos e seis feridos nos ataques israelenses contra os subúrbios do sul da capital, Beirute, segundo a Defesa Civil libanesa.

Nesse momento, a atuação do Irã foi decisiva para paralisar a provocação. O principal negociador iraniano, o presidente do parlamento, Mohamad Baqer Qalibaf, condenou o ataque, apontando que “demonstrou mais uma vez que os EUA ou não têm vontade de cumprir as suas obrigações, ou não têm capacidade para isso”.

“Não conseguirão obter concessões dando luz verde a Israel. O jogo do ‘policial bom e policial mau’ já está ultrapassado”. O comando militar iraquiano preparou-se para uma resposta contundente.

O governo norte-americano teve de se mexer, com o próprio Trump alardeando que Netanyahu “não tem o menor juízo” ao insistir nos bombardeios quando “estamos tão perto de um Acordo de Paz com o Irã”.

Ele acrescentou que o ataque ao qual Israel supostamente estaria respondendo tinha sido “muito pequeno e insignificante, ninguém ficou ferido, machucado ou morto”. “Todos os lados devem recuar. Não deve haver mais ataques de Israel em nenhum lugar do Líbano, mas também não deve haver mais ataques de qualquer outra parte, incluindo o Hezbollah, contra Israel”.

CALMA RELATIVA

De acordo com o jornal britânico The Guardian, “havia relativa calma no sul do Líbano na segunda-feira”. “Os ataques do Hezbollah a alvos militares israelenses, tanto no sul do Líbano quanto no norte de Israel, cessaram pouco antes da meia-noite”. Israel teria, também, reduzido “significativamente seus ataques”. Citando o Jerusalem Post, o jornal britânico repercutiu declaração de fontes militares em Israel segundo as quais “se o Hezbollah respeitasse o novo cessar-fogo, as forças militares israelenses não atacariam em nenhum lugar do Líbano”.

Já a mídia libanesa informa dois ataques aéreos na madrugada desta segunda-feira contra a cidade de Majdal Zoun e bombardeios de artilharia contra as cidades de Nabatieh, Kfar Remman e Nabatieh al-Fawqa. Drones israelenses foram lançados contra Haris e Kfar Tebnit, com um morto, além de ataques a Jiam e Markaba.

FRACASSO E HISTERIA EM TEL AVIV

Logo após a assinatura unilateral que Trump realizou diante das câmeras na Casa Branca, o ministro israelense das agressões armadas, Israel Katz, asseverou que o Estado Pária “não seguiria” o acordo e só no dia seguinte o próprio Netanyahu reiterou essa pretensão, como se Israel, para continuar sua trajetória de apartheid e genocídio, não dependesse da mesada, armas e proteção nos fóruns internacionais fornecidas pelos EUA.

A chamada oposição sionista “moderada” a Netanyahu não poupou esforços para prometer, se eleitos nas eleições de outubro, manter a fúria expansionista contra os países vizinhos, com pequenas variações, de Yair Lapid a Naftali Bennett.

Na coletiva de imprensa, Netanyahu disse que o acordo foi feito pelos Estados Unidos, não por Israel, e que ele não cedeu ao pedido do Irã para que a retirada de Israel do Líbano fizesse parte do pacto. E cinicamente voltou a dizer que “com o acordo, sem acordo” continuaria “lutando para impedir que o Irã obtenha armas nucleares”. Como se o empecilho para que o Oriente Médio se torne uma região sem armas nucleares fosse o Irã, que não as têm, e não Israel e suas 100 bombas nucleares, o segredo de polichinelo exposto pelo corajoso Mordechai Vanunu, o ex-preso político mais notório de Israel.

TOTALMENTE EXCLUÍDO

“Israel está pagando o preço da arrogância e cegueira de Netanyahu, e o preço das manipulações que ele tentou aplicar a Trump”, disse o ex-primeiro-ministro Ehud Barak, em entrevista à emissora pública israelense na segunda-feira. “O Irã saiu mais forte; Israel saiu mais fraco. Essa é a responsabilidade estratégica de Netanyahu. Ele falhou.”

O editor do Haaretz, Gideon Levy, disse em entrevista à Al Jazeera que o “projeto de vida” de Netanyahu, [destruir] o Irã, “fracassou”. Israel, ele apontou, “foi totalmente excluído das negociações”.

Ele – acrescentou – agora “só pode sabotar [o acordo] com esses ataques ridículos e pueris a Beirute, que ele acaba de tentar ontem”. “Está muito claro que Israel apenas perdeu neste seu jogo”.

Levy, destacou o sucesso iraniano nas negociações em consagrar um vínculo total entre o Líbano e o acordo.  O impasse está em que “Israel ainda está no Líbano e não tem nenhuma intenção de se retirar” e enquanto isso continuar “sempre haverá resistência à ocupação israelense”.

O jornalista advertiu que se Netanyahu for “bem sucedido em danificar as relações com o próprio Trump, então Israel estará se colocando em um desafio que nunca conheceu anteriormente”. “Para os Estados Unidos e para o próprio Trump, Israel é um obstáculo e será tratado como um obstáculo daqui para a frente”

RESILIÊNCIA EXCEPCIONAL

A resistência islâmica libanesa agradeceu o acordo à “firmeza lendária, da resiliência excepcional e dos grandes sacrifícios feitos pelo amado povo iraniano e sua sábia liderança”, e demonstra seu compromisso em preservar sua dignidade, soberania e independência nacional.

O que foi alcançado é “o prelúdio para completar o caminho rumo à libertação total de nossa terra, o retorno de nossos prisioneiros à sua pátria e às suas famílias, o retorno de todos os residentes, especialmente aqueles das aldeias na linha de frente, às suas cidades e casas, e a reconstrução do que a agressão destruiu”, afirmou o Hezbollah.

“A Resistência permanecerá comprometida com o direito legítimo e inabalável do Líbano de defender sua terra, seu povo e sua soberania até que a retirada completa [das forças israelenses do território libanês] e o retorno dos prisioneiros sejam alcançados”, enfatizou o comunicado.

Segundo as agências de notícias, as famílias postas para fora de seus lares pelos bombardeios israelenses já estão tomando as estradas rumo ao sul, apesar de todos os pedidos de cautela.

SEXTA-FEIRA EM GENEBRA

Como afirmou o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, nas vésperas da proclamação do acordo com os EUA, “o Irã foi o vencedor desta guerra, e o povo iraniano é o verdadeiro vencedor de tudo. Naturalmente, após tal vitória, é necessário consolidá-la por meio de um acordo ou entendimento”.

O acordo ocorre cerca de 110 dias após a coalizão EUA-Israel lançar uma guerra ilegal e não provocada de agressão contra a República Islâmica e de traição à diplomacia, buscando decapitar a liderança do país, impor um fantoche, desarticular a resistência ao genocídio e ao apartheid e roubar o petróleo, mas fracassou rotundamente, com o Irã saindo mais forte e mais coeso, e com sua soberania sobre o estratégico Estreito de Ormuz reafirmada e Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, como novo líder supremo da revolução iraniana.

No dia 9 de julho o Irã realizará o funeral do aiatolá Ali Khamenei, assassinado em sua residência pelo ataque americano-israelense, com as homenagens tendo início no dia 4.

Yair Lapid, que desafiará Netanyahu nas próximas eleições, chamou o acordo EUA-Irã de “uma das falhas mais chocantes na política externa e de segurança de Israel … inteiramente registrado em nome de Netanyahu.” “Pode ser consertado, precisa ser consertado”, escreveu ele. “Nós vamos fazer isso”, se gabou, mantendo o infeliz supremacismo belicista predominante na sociedade israelense.

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