“Albânia não está à venda”: milhares protestam contra o premiê Rama e negociata do genro de Trump

"Albänia não está à venda", diz cartaz erguido por multidáo em Tirana (AFP)

“A Albânia não está à venda” e “Ivanka go home”: há duas semanas, diariamente, milhares de pessoas protestam no pequeno país europeu contra uma negociata que envolve o genro e a filha do presidente Trump com o primeiro-ministro Edi Rama, um mega-resort de alto luxo de US$ 4 bilhões de dólares e 10.000 quartos, a ser construído em áreas de preservação ambiental, a ilha de Sazan e a lagoa protegida de Vjosa-Narta, no Mar Adriático.

Indignados com a deferência do premiê para com a famiglia Trump, o que incluiu a alteração das leis ambientais e a concessão do estatuto de “investidor estratégico”, os manifestantes passaram a exigir a renúncia de Rama, que está no poder desde 2013.

Desde que o socialismo foi derrubado na Albânia, o país, um dos mais pobres da Europa, tem se alternado entre o neoliberalismo socialdemocrata de Rama e o do conservador Sali Berisha; ambos entusiastas da Otan e do ingresso na União Europeia, mas que mutuamente se acusam de corruptos. Quase um terço da população emigrou.

Segundo recente depoimento de Ivana Trump a um famoso podcast norte-americano, ela e o marido Jared Kushner, que nas horas vagas também é ‘negociador’ do sogro nos círculos globais, teriam esbarrado com a ilha, que os maravilhou, em um casual mergulho desde o iate em que estavam em 2021.

Do “encantamento” à especulação e aos acenos e acertos com Rama, foi tudo acontecendo num crescendo, até os protestos eclodirem, diante das cercas de arame bloqueando praias públicas e seguranças privados espancando cidadãos, e o caso virar um escândalo.

CANCELEM O PROJETO

O que começou no final de maio de 2026 como uma pequena reunião na vila de pescadores de Zvërnec transformou-se em um levante nacional. Os protestos continuam, com milhares de cidadãos marchando na capital, Tirana, exigindo “cancelem o projeto”.

Imagens que viralizaram de Zvërnec mostraram um guarda agredindo e arrastando um manifestante para longe da praia cercada. Outro incidente deixou um cidadão grego ferido, o que provocou um protesto diplomático de Atenas.

Embora a Ilha de Sazan seja notícia, os danos ecológicos mais imediatos e irreversíveis estão ocorrendo no continente, na área protegida de Pishë Poro-Narta, dentro da paisagem protegida de Vjosa-Narta.

Esta região faz parte do delta do rio Vjosa, um dos últimos rios selvagens da Europa, e é um tesouro ecológico de importância global. Está localizada na rota migratória do Adriático, um corredor crucial para milhões de aves que viajam entre a África e a Europa todos os anos.

DEPREDAÇÃO

Ali, numa grave violação da legislação ambiental foi flagrada a presença de máquinas pesadas devastando a área. Cascalho foi despejado em antigas dunas de areia legalmente designadas como Monumentos Naturais pela legislação albanesa, danos que, segundo cientistas, levarão séculos para serem reparados. A construção também bloqueou uma das duas aberturas que ligam a lagoa de Narta ao mar, interrompendo o fluxo das marés.

Rama defendeu o projeto com uma retórica cada vez mais agressiva e acusando os protestos de serem “manipulados por interesses estrangeiros”, alegando que bots nas redes sociais estariam alimentando as manifestações e que “narrativas antissemitas estão sendo promovidas por inimigos do regime israelense e da Albânia”.

É que Rama gosta de ostentar suas ligações com o regime israelense e no ano passado gabou-se de ter sido convidado para o Conselho da Paz de Trump para a reconstrução de Gaza – aliás, anteriormente propagandeado como “Riviera sobre Cadáveres”.

EUROPEUS CONTESTAM

A Comissão Europeia aproveitou o contratempo da famiglia Trump para pressionar contra o empreendimento, chegando até mesmo a advertir que a insistência nele poderia colocar em risco o ingresso da Albânia na União Europeia. O órgão também exigiu o respeito às normas ambientais definidas pelo bloco.

Um porta-voz da Comissão exigiu de Rama a revogação das alterações à Lei das Áreas Protegidas e o fim da lei de investimento estratégico, que dá tratamento preferencial a projetos que podem contornar as salvaguardas ambientais da UE.

Não é o primeiro projeto imobiliário Trump-Kushner na Europa que sofre percalços. No ano passado ele foi forçado a se retirar de um projeto na Sérvia, que pretendia tornar o local do antigo quartel-general do exército iugoslavo em Belgrado, que se tornou símbolo da agressão dos EUA, em um empreendimento imobiliário de alto padrão, provocando enormes protestos, até que fosse barrado.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *