CAROLINA MARIA RUY
A presença da filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori no noticiário desperta a triste memória de um regime autoritário, alinhado às políticas do FMI e marcado por graves violações dos direitos humanos, mortes e violência.
Em uma associação estapafúrdia, porém, a “Folha de S.Paulo” valeu-se do passado macabro do fujimorismo para atacar a memória do ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas.
Fujimori governou o Peru entre 1990 e 2000. Sua filha Keiko, atualmente, disputa a presidência com grande chance de vitória. O jornal, no calor da contagem de votos da eleição peruana, publicou uma matéria chamada “Um quinto dos países que se democratizaram reelegeu ditadores ou seus filhos, diz pesquisador”. A matéria defende que não é incomum países que passaram por ditaduras, reelegerem os próprios ditadores ou seus descendentes e faz um recorte temporal do fenômeno: “a chamada terceira onda de democratização, após os anos de 1970”.
Entretanto, tanto o jornal quanto o cientista político canadense James Loxton, entrevistado pela reportagem, estabeleceram uma relação entre Getúlio Vargas – que governou o Brasil entre 1930 e 1945 e, posteriormente, entre 1951 e 1954, e que suicidou-se em 1954 –, o regime autoritário de Fujimori e as ditaduras patrocinadas pelos EUA na América Latina durante a Guerra Fria. Na edição impressa de 15 de junho, inclusive, a fotografia utilizada para ilustrar a matéria era de Getúlio Vargas ao lado de Café Filho e Tancredo Neves.
Logo em sua primeira resposta, o canadense revela toda a confusão e desconhecimento com relação a história do Brasil. Registro aqui o trecho:
“FSP – O senhor afirma que aproximadamente um quinto dos países que se democratizaram após 1970 colocaram ex-ditadores ou filhos de ex-ditadores no poder. O que explica isso?
James Loxton – Isso faz parte de um fenômeno maior: o fato de ser muito comum que eleitores, em regimes democráticos, elejam partidos ou candidatos com raízes em ditaduras anteriores. Se olharmos para o Brasil, por exemplo, temos o caso do Getúlio Vargas. Eu passei minha carreira estudando esses partidos, que chamo de partidos sucessores autoritários, que emergem de uma ditadura e depois elegem políticos em regimes democráticos. Desde meados da década de 1970 até o presente, os eleitores usaram o poder do voto para eleger um partido sucessor autoritário em mais da metade de todas as democracias do mundo. Isso já é bastante surpreendente. Mas o fenômeno dos filhos de ex-ditadores, ou em alguns casos dos próprios ex-ditadores, como Vargas, é ainda mais dramático. Não podemos dizer que os eleitores não perceberam que o candidato surgiu do antigo regime”.
Erros históricos saltam aos olhos nesta comparação.
Em primeiro lugar, trata-se de contextos completamente distintos. Vargas exerceu o poder em um período marcado pela Grande Depressão, pela Segunda Guerra Mundial e pelos anos imediatamente posteriores ao conflito. Já Fujimori emerge em um contexto de Guerra Fria tardia e consolidação das reformas neoliberais dos anos 1990. São realidades históricas e geopolíticas profundamente diferentes.
Em segundo lugar, os projetos políticos de Vargas e Fujimori possuíam orientações praticamente opostas. Nacionalista, Vargas apostou na industrialização, na criação de empresas estatais estratégicas e no fortalecimento do Estado como instrumento de desenvolvimento econômico e integração social. Seu governo esteve associado à ampliação da legislação trabalhista e à incorporação das massas urbanas à vida política nacional. Fujimori, por sua vez, implementou um amplo programa de privatizações, reformas neoliberais e alinhamento às diretrizes dos organismos financeiros internacionais como o FMI com forte alinhamento aos EUA.
Em terceiro lugar, Getúlio Vargas retornou ao poder em 1950 por meio do voto popular, após cinco anos afastado da Presidência. Sua vitória não ocorreu porque o povo simpatiza com ditadores, mas porque ele promoveu uma verdadeira revolução nas relações de trabalho, sociais e econômicas. E, com forte resistência dos liberais da UDN, garantiu que as leis trabalhistas fossem implementadas, amparando o povo trabalhador por gerações. Seus descendentes políticos são João Goulart e Leonel Brizola, notórios combatentes da ditadura militar brasileira.
Na mesma entrevista, Loxton afirma que o ex-presidente Jair Bolsonaro, embora não tenha sido um ditador, “tentou ser”, e que o desempenho de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, nas pesquisas de intenção de voto uma “nostalgia autoritária no contexto brasileiro atual”.
Dessa forma, Vargas e Bolsonaro acabam aparecendo lado a lado em um mesmo esquema interpretativo da história brasileira. Outro disparate! O bolsonarismo, este sim, é autoritário e saudoso da ditadura militar. Sua trajetória e seus valores são, mais uma vez, contrários aos do getulismo por razões semelhantes às que expus anteriormente. São visões de país, de desenvolvimento, de economia, do mundo do trabalho, do povo, radicalmente diferentes, que produzem resultados incomparáveis, e que não foram levados em consideração no plano cartesiano de Loxton.
Os ataques à memória de Getúlio Vargas são mais do que uma controvérsia historiográfica. Eles contribuem para distorções que dificultam a compreensão da própria formação econômica, política e social do Brasil. Quando partem de grandes conglomerados de comunicação, como o Grupo Folha, tais interpretações acabam expressando também uma crítica às tradições desenvolvimentistas e nacionalistas associadas à valorização do trabalho e ao fortalecimento do Estado. Mais do que divergências de posicionamento político, trata-se de manipulação ideológica.
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil e membro do Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois.











