Procuradoria-Geral alemã acusa Ucrânia por atentado que explodiu os gasodutos Nord Stream

Explosão do Nord Stream provocou aglomerado de espuma na superfície (AFP)

Tribunal em Hamburgo indicia o militar ucraniano Serhii Kuznetsov e aponta que sabotagem foi orquestrada por agências estatais ucranianas

A Procuradoria-Geral da Alemanha na quarta-feira (1º) apontou perante o Tribunal Regional Superior de Hamburgo que a explosão dos gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, no Mar Báltico, em 2022, foi orquestrado por agências estatais ucranianas e indiciou pelo atentado um militar ucraniano, Serhii Kuznetsov.

Segundo comunicado da Promotoria, o indiciado e outros militares “elaboraram, a pedido das autoridades ucranianas, um plano destinado a destruir os gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2” e a cortar permanentemente o fornecimento de gás russo através do Nord Stream, alegadamente para “privar a Rússia de receitas do comércio de gás natural para financiar seu esforço de guerra”.

Esta é a primeira vez que as autoridades alemãs apresentam uma acusação formal relacionada com os ataques aos gasodutos, que eram essenciais ao fornecimento de energia à indústria alemã.

Tribunais alemães consideraram o caso sob jurisdição do país porque os gasodutos danificados terminam em Lubmin, no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, e sua destruição afetou a segurança energética e a segurança interna da Alemanha.

Em declarações publicadas na imprensa ucraniana no dia do indiciamento, o presidente Volodymyr Zelensky considerou “prematuro” comentar o caso e afirmou não ter “os detalhes deste processo”.

De acordo com a acusação dos promotores alemães, uma equipe composta por mergulhadores profissionais, um capitão de iate e um especialista em explosivos foi reunida para realizar a missão, liderada por Kuznetsov.

Em setembro de 2022, ele entrou na Alemanha usando um passaporte ucraniano falso, após o que a equipe, a bordo do iate Andrômeda alugado em Rostock, plantou os explosivos nos gasodutos nas imediações da ilha dinamarquesa de Bornholm.

“CRIME DE GUERRA”

Kuznetsov foi acusado de cometer crimes de guerra: atacar alvos civis, provocar uma explosão, destruir estruturas e interromper o funcionamento de instalações públicas. Foi detido em agosto de 2025 na Itália, em cumprimento a um mandado de prisão europeu, e extraditado para a Alemanha em novembro do mesmo ano.

O Ministério Público alemão sustenta, ainda, que o suspeito se incriminou em várias conversas telefônicas com amigos e conhecidos. Além disso, afirma ter encontrado no celular de Kuznetsov elementos de prova que o ligam diretamente à operação de sabotagem.

As explosões nos gasodutos Nord Stream 1 e 2 ocorreram em 26 de setembro de 2022, causando sérios danos a ambos os gasodutos e desencadeando grandes vazamentos de gás no Mar Báltico. A partir daí, a Alemanha ficou privada de metade do gás de que precisava e posteriormente passou a importar GNL dos EUA a um preço quatro vezes maior, o que resultou na desindustrialização da Alemanha em setores-chave que dependiam de energia barata e confiável.

O SILÊNCIO DE COPENHAGUE, BERLIM E ESTOCOLMO

Os governos da Dinamarca, Alemanha e Suécia, países que formalmente investigaram os atentados, jamais divulgaram suas conclusões e se recusaram terminantemente a atender os pedidos de Moscou de participação nas apurações, apesar de a estatal russa Gazprom ser diretamente afetada.

O presidente russo, Vladimir Putin, declarou naquele momento por trás do ataque estava alguém “capaz de organizar explosões tecnicamente e que já havia recorrido a esse tipo de sabotagem”, que tinha sido pego em flagrante e “ficado impune”.

O que analistas consideraram uma alusão aos Estados Unidos e ao presidente Joe Biden que, ao receber na Casa Branca o então premiê alemão Olaf Scholz em fevereiro de 2022, disse numa coletiva de imprensa que se a Rússia invadisse a Ucrânia, o gasoduto Nord Stream 2 não prosseguiria e que “[colocaria] um fim a isso”.

Na época, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou que Moscou possuía provas do envolvimento do Reino Unido e dos EUA na sabotagem.

Em 2023, o renomado jornalista norte-americano Seymour Hersh, com a autoridade de ser quem denunciou o massacre de Mi Lai na Guerra do Vietnã e o escândalo de Abu Graib na Guerra do Iraque, afirmou que a ordem partiu do governo Biden, acrescentando que mergulhadores de elite da Marinha dos EUA teriam colocado os explosivos em junho de 2022 durante exercícios da OTAN no Báltico, que em setembro foram acionados remotamente.

VERDADE INCONVENIENTE

O atentado não foi só contra o “gasoduto russo”, mas também contra a prosperidade alemã, com o país em crise aberta, enquanto a coalizão no poder em Berlim delira em rearmar o país para ser “a maior potência militar da Europa”, em se preparar para a “guerra com a Rússia” e acelera a submissão aos EUA. E a desindustrialização se enraíza, como mostra as 100 mil demissões anunciadas na Volkswagen.

O fato de um tribunal europeu acusar um ucraniano, a mando de organismos estatais ucranianos, de explodir um gasoduto que era responsável por fornecer metade de todo o gás natural importado pela Alemanha, por si só já entra em contradição com a atual histeria anti-Rússia vigente no velho continente e à retomada do velho grito nazista “drang nach osten” (arrancada rumo ao oeste, uma referëncia ao ataque alemão à União Soviética), apesar de que muita gente continua achando que tamanho atentado não teria como acontecer sem uma ordem de Washington.

E mais gente ainda questiona se um bando de mercenários a serviço do regime de Kiev teria a sofisticação e expertise necessárias para uma operação desse calibre.

De acordo com a Radio France Internationale (RFI), “no plano político, o caso é delicado para a UE porque, se ficar comprovado que agentes ligados ao Estado ucraniano participaram da operação, isso poderá gerar tensões com alguns governos europeus”.

E na prática, à acusação russa de que o regime de Kiev é neonazista e se espelha em abjetos colaboracionistas do nazifascismo e perpetradores de pogroms de poloneses, judeus e soviéticos, soma-se agora, vinda dos próprios europeus, a de “terrorista”.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *