Aos 90 anos, Paulo Cannabrava tem trajetória marcada por exílio, militância e jornalismo retratada em documentário
A trajetória do jornalista e militante Paulo Cannabrava Filho, marcada por exílios, golpes de Estado, revoluções e mais de seis décadas de atuação política e jornalística na América Latina, ganha as telas com o documentário “Companheiro Canna”, que estreia nesta segunda-feira (20), às 20h, em exibição gratuita pelo canal da Caliban Cinema e Conteúdo no YouTube.
Dirigido e roteirizado por Lilia Souza Diniz, o longa reconstrói a vida de Cannabrava, fundador e diretor da revista Diálogos do Sul Global, a partir de depoimentos, memórias e reflexões sobre alguns dos principais acontecimentos políticos do continente latino-americano ao longo do século XX e início do XXI.
Produzido pela Caliban Cinema e Conteúdo, produtora fundada pelo cineasta Silvio Tendler, o filme também se transforma em uma homenagem ao diretor, que morreu antes da conclusão do projeto, mas participou das entrevistas e desejava levar a história de Cannabrava ao cinema.
Veja o trailer:
INSTRUMENTO DE TRANSFORMAÇÃO
Ao longo de sua carreira, Paulo Cannabrava acompanhou de perto momentos decisivos da história latino-americana. O documentário apresenta sua visão sobre as ditaduras militares, os movimentos de libertação nacional, a Revolução Cubana e as disputas políticas que marcaram o continente nas décadas de 1960 e 1970.
Mais do que um registro biográfico, o filme mostra como Cannabrava transformou o exercício do jornalismo em uma ferramenta de intervenção política e defesa da soberania dos povos latino-americanos.
A narrativa parte da ideia de que escrever, para o jornalista, sempre significou assumir uma posição diante dos acontecimentos históricos e contribuir para a compreensão das relações de poder que moldam a região.
MEMÓRIAS DA CLANDESTINIDADE
Entre os relatos presentes no documentário estão os encontros de Cannabrava com o guerrilheiro Carlos Marighella, além de episódios relacionados à atuação de militantes durante o período da ditadura militar brasileira.
O jornalista relembra reuniões realizadas com Marighella e outros integrantes do movimento comunista, além das redes de solidariedade organizadas para auxiliar perseguidos políticos e pessoas que buscavam treinamento em Cuba durante os anos de clandestinidade.
As lembranças ajudam a reconstruir um período marcado por intensa repressão política, mas também por articulações em defesa da democracia e da transformação social.
REFLEXÃO SOBRE O PRESENTE
Embora recupere acontecimentos históricos, o documentário estabelece conexões com os desafios contemporâneos.
Em uma das sequências, Cannabrava percorre a avenida Faria Lima, em São Paulo, utilizando a paisagem do principal centro financeiro do país para refletir sobre a financeirização da economia, a desindustrialização brasileira e o avanço do pensamento neoliberal.
No filme, ele afirma que sua militância continua voltada ao enfrentamento das estruturas que considera responsáveis pela dependência econômica da América Latina.
“O que me move é essa luta contínua, uma luta contínua contra o império, contra as burguesias vendidas ao imperialismo, contra as oligarquias”, declara Cannabrava durante o documentário.
Além da dimensão política, “Companheiro Canna” procura revelar aspectos pessoais da trajetória do jornalista.
Segundo a diretora Lilia Souza Diniz, o filme mostra as amizades construídas ao longo das décadas, a dor pela perda de companheiros e as redes de solidariedade formadas em momentos de perseguição e adversidade.
“Temos acesso ao coração do militante. Ele conta como é chorar copiosamente a morte de um companheiro e como é tecer redes de solidariedade quando tudo dá errado”, afirma a cineasta.
Para Lilia, a história de Cannabrava permanece atual por abordar temas que continuam presentes no debate político latino-americano, como democracia, soberania e justiça social.
HOMENAGEM A SILVIO TENDLER
A produção também marca um dos primeiros trabalhos da Caliban Cinema e Conteúdo após a morte de Silvio Tendler, um dos principais documentaristas brasileiros.
Amigo de longa data de Cannabrava, Tendler pretendia dirigir um filme sobre sua trajetória e participou das entrevistas que deram origem ao documentário. Após seu falecimento, a equipe da produtora deu continuidade ao projeto.
Uma das cenas finais reúne Tendler e Cannabrava em uma conversa registrada antes da morte do cineasta, estabelecendo uma ponte entre duas trajetórias dedicadas à preservação da memória política brasileira.
Segundo a diretora, a conclusão do documentário representa também uma forma de dar continuidade ao legado construído por Tendler ao longo de sua carreira.
EXIBIÇÃO GRATUITA
“Companheiro Canna” será exibido gratuitamente nesta segunda-feira (20), às 20h, no canal da Caliban Cinema e Conteúdo no YouTube.
Com cerca de nove décadas de história pessoal entrelaçadas aos principais acontecimentos políticos da América Latina, o documentário propõe um retrato de Paulo Cannabrava Filho como jornalista, militante e testemunha de um período decisivo para a história do continente.











