PF investiga desaparecimento de acervo histórico do Palácio das Mangabeiras durante gestão Zema

A ausência de bens históricos e a indefinição sobre seu paradeiro serão investigadas pela PF - Foto: Luiz Santana

O desaparecimento de parte do patrimônio da antiga residência oficial dos governadores de Minas Gerais, o Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte, passou a ser investigado por órgãos de controle após fiscalização da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Entre os bens cujo paradeiro é questionado estão obras de arte, móveis históricos, pratarias, louças, equipamentos, mobiliário da cozinha profissional e uma biblioteca com 1.038 livros que integravam o acervo do imóvel.

A inspeção realizada pelos parlamentares constatou que apenas cinco peças do mobiliário original permaneciam no Palácio. Diante do cenário encontrado, a Comissão de Cultura encaminhou representação à Polícia Federal e levou o caso ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), que instaurou procedimento para apurar a destinação dos bens públicos. O processo tramita sob sigilo.

A repercussão do caso ultrapassou o meio político. Em publicação nas redes sociais, a jornalista Hildegard Angel classificou o episódio como “o escândalo mais escândalo do momento, além do Banco Master”, afirmando que o desaparecimento do conteúdo do Palácio das Mangabeiras seria um dos maiores casos envolvendo patrimônio público no país. “Entre móveis históricos, tapetes, quadros, prataria, louçaria, sumiu tudo, tudinho, não sobrou nem o cheiro”, escreveu. 

Hidelgard comparou a gravidade do episódio às grandes pilhagens ocorridas em guerras e ao roubo registrado no Museu do Louvre, em 2025 e criticou a “ignorância” de Romeu Zema, ex-governador de MG e pré-candidato à Presidência da República, ao se manifestar sobre o ocorrido. “Depois de dizer que ‘estava tudo catalogado e guardado’, Dom Zema I – o Ignorante encerrou o caso com a frase ‘era tudo móvel velho’”. 

Segundo Zema, os bens não passariam de “móveis velhos” e que “que eu economizei, no mínimo, R$ 300 mil a R$ 400 mil por mês morando na minha casa. “Essa economia”, continua o ex-governador, “se tem alguma coisa de lá que sumiu, e não sumiu, um mês de economia paga tudo esses móveis velhos que estavam lá”, afirmou.

O atual governador, Mateus Simões (PSD), sustentou que não houve desaparecimento de patrimônio. Segundo ele, as obras de arte foram encaminhadas ao Palácio da Liberdade e os livros passaram a integrar o acervo da Biblioteca Pública Estadual.

“É um acervo reservado, tem que pedir para consultar, porque são livros muito especiais. E cultura é isso, né gente? É obra de arte livre”, declarou.

O governo de Minas também afirma que todos os bens foram inventariados, permanecem registrados nos sistemas de controle patrimonial e foram transferidos legalmente para órgãos estaduais.

Para os deputados que participaram da fiscalização, entretanto, o estado de conservação do imóvel e a ausência de parte significativa do acervo levantam dúvidas que precisam ser esclarecidas.

“A imagem que a gente tira da ida ao Palácio das Mangabeiras é que houve deterioração do patrimônio”, afirmou o deputado Leleco Pimentel (PT), integrante da Comissão de Cultura. “Arrancaram as poltronas, danificaram a sala de projeção e retiraram inclusive a arquibancada. Colocaram taco lá, uma coisa absurda”, denunciou.

Os parlamentares também relataram que a antiga sala destinada à exposição de presentes oficiais foi transformada em escritório. Do mobiliário original, restaram apenas uma mesa, duas poltronas, um sofá e um armário instalado em um dos quartos utilizados pelos funcionários.

Durante audiência pública da Comissão de Cultura da ALMG no dia 17 de julho, deputados ampliaram os questionamentos sobre a gestão do Palácio das Mangabeiras. Além de cobrarem esclarecimentos sobre a destinação do acervo, criticaram as intervenções realizadas no imóvel após sua abertura para eventos privados.

Segundo Leleco, foram promovidas alterações irreversíveis para adequar o espaço à exploração comercial. O parlamentar defendeu que a administração do Palácio seja transferida para a Fundação Clóvis Salgado e pediu a suspensão das atividades até a conclusão das investigações.

A deputada Lohanna (PV) afirmou que o Palácio foi “praticamente privatizado” ao ser cedido para uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) e cobrou estudos técnicos sobre a realização de grandes eventos no imóvel. Já a deputada Beatriz Cerqueira (PT) sustentou que a exploração econômica do espaço beneficia interesses privados a partir de um patrimônio público.

Representando o governo estadual, a presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemge), Luísa Barreto, reiterou que as obras de arte permanecem identificadas e distribuídas entre equipamentos culturais do Estado, enquanto os livros foram incorporados à Biblioteca Pública Estadual. Segundo ela, todas as movimentações constam do inventário patrimonial e não houve desaparecimento de bens.

No entanto, os deputados localizaram apenas uma mesa de centro, um piano, duas poltronas e um sofá. O restante do acervo não foi encontrado durante a inspeção, reforçando os questionamentos sobre o paradeiro dos bens.

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