DAVI MOLINARI
Havia um sujeito de queixo quadrado e nariz quebrado no Fale Mais Sobre Isso.
Fisicamente, lembrava um militar ou ex-militar. Difícil saber se tinha servido às Forças Armadas, à Polícia Militar ou apenas à própria imaginação. Estava sentado com o Laranjão, e os dois conversavam naquele volume reservado que só serve para garantir que o bar inteiro perceba que existe um segredo.
Quando entrei para filar mais uma sessão de psicanálise durante o happy hour do Doutor, o Laranjão levantou-se abruptamente.
O boteco emudeceu.
Por um segundo, até as manjubinhas pararam de estalar na cozinha.
Então o Laranjão abriu uma gargalhada e abraçou o sujeito.
– Alemão! Você é dos meus!
Os dois se despediram efusivamente. Só faltou gritarem “Selva!”. Felizmente, ninguém chegou a tanto. João, da cozinha, já tinha levado susto suficiente para uma noite só.
O Doutor percebeu minha apreensão por cima dos óculos. Retirou o indefectível bloquinho do bolso e fez uma anotação. Provavelmente diagnosticava minha mania de suspeitar de homens que se despedem como se tivessem acabado de dividir um país.
Juvenal pousou diante de mim um chope e uma porção de manjubinhas com a precisão de quem desarma uma crise diplomática usando apenas uma bandeja.
– O que foi, meu analisado? Ficou preocupado com o encontro dos dois?
– Achei meio suspeito.
Mal terminei de falar, o Laranjão passou por nós conduzindo o Alemão até a porta.
– É um sujeito esquisito – comentou, apontando o queixo para o homem. – Mas pelo menos arruma boas armas.
Voltou à mesa e se acomodou com a serenidade de quem acabara de elogiar um encanador.
Olhei para Juvenal. Juvenal olhou para mim.
– O Laranjão escarnece até do próprio faz-tudo – observou.
– Imagine dos inimigos.
– Está aberta a temporada do escárnio.
Foi então que Dona Maria apareceu trazendo uma travessa. Ela e João comandavam a cozinha havia anos. João cuidava das panelas; Maria, da fritura. Nunca uma manjubinha saíra de suas mãos sem a crocância necessária para reconciliar casais, partidos e alas divergentes de diretórios municipais.
O Laranjão provou uma.
Fez uma careta.
Provou outra, aparentemente para confirmar o sofrimento.
– Ficou tempo demais no óleo – decretou. – Mas o que se pode esperar de quem nunca teve dinheiro para comer num restaurante de verdade?
O constrangimento atravessou o salão.
As conversas cessaram. Um bancário deixou a tulipa suspensa no ar. Dois estudantes abandonaram uma discussão sobre a campanha eleitoral. Até o advogado da mesa do canto, que costumava ter opinião antes dos fatos, ficou sem palavras.
Dona Maria permaneceu imóvel, segurando a travessa.
Laranjão sorriu. Não porque tivesse graça. Porque tinha plateia.
Seu Joel levantou-se devagar. Antigo apontador do bicho, conhecia os números e também os animais.
– Restaurante caro qualquer um frequenta com dinheiro – disse. – Difícil é ter educação quando não veio no patrimônio.
O Laranjão murchou dois centímetros.
Juvenal avançou mais um.
– Ou o senhor se acomoda e respeita Dona Maria, ou será convidado a deixar o estabelecimento. Outra vez.
Laranjão recostou-se na cadeira. Não pediu desculpas. Homens como ele consideram o pedido de desculpas uma forma de imposto.
Dona Maria retornou à cozinha sob aplausos. João recebeu a companheira com um abraço e aumentou o fogo, provavelmente para fritar também a indignação.
Olhei para o Doutor.
– Por que alguém sente prazer em diminuir outra pessoa?
Ele inclinou a cabeça, mas preservou sua única frase. Juvenal, assistente informal da clínica e titular absoluto da ala prática, assumiu o caso.
– Porque o escárnio quase sempre desce a escada social, meu analisado. Quem se julga protegido escolhe alguém que acredita não poder responder. Humilha, transforma a vítima em bode expiatório e ainda chama a violência de brincadeira.
Pensei na campanha eleitoral que começava a invadir o boteco. Em vez de discutir emprego, renda, educação ou desenvolvimento, parte da extrema direita preparava um coquetel de apelidos, provocações e ofensas.
Era mais fácil ridicularizar Lula, o STF e qualquer adversário do que explicar o país que pretendia construir.
Milei desembarcava por aqui com a pose de integrante recusado do Quarteto Fantástico. Trump exportava insultos como se fossem política externa. Os herdeiros de Bolsonaro tentavam transformar o ressentimento numa proposta de governo.
Faltavam projetos.
Sobravam inimigos.
O escárnio fazia o serviço: escolhia um alvo, despejava sobre ele todas as frustrações do grupo e oferecia ao agressor uma aparência provisória de superioridade. Freud talvez chamasse aquilo de chiste hostil. No Fale Mais Sobre Isso, conhecíamos simplesmente como falta de modos.
– Então o deboche funciona como uma arma? – perguntei.
O Doutor fechou o bloquinho, guardou a caneta e finalmente pronunciou sua sentença:
– Quem precisa rebaixar o outro para parecer grande já confessou a própria pequenez.
Nesse instante, Dona Maria reapareceu com um envelope nas mãos. A associação de moradores havia promovido um concurso culinário, e suas manjubinhas tinham acabado de ganhar o primeiro prêmio.
O salão explodiu em aplausos.
Laranjão provou mais uma.
– Continuam oleosas – resmungou.
Seu Joel nem levantou os olhos:
– Pode ser. Mas agora têm mais votos que o senhor.
E assim terminou a noite: Dona Maria premiada, o Laranjão derrotado e eu submetido a mais uma sessão gratuita.
No Fale Mais Sobre Isso, aprendemos que o escárnio pode até produzir barulho.
Mas não melhora receita, não substitui argumento e, sobretudo, não ganha eleição sozinho.
Publicado originalmente em Divã no Boteco – CIII. Enviado pelo autor.










