Ex-comandante da FAB conta em livro como Bolsonaro tentou dar golpe e foi rechaçado

Ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar, Carlos de Almeida Baptista Junior (Foto: Divulgação - FAB)

O livro intitulado “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista” (Autêntica Editora) será lançado em setembro

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, comandante da Aeronáutica no governo Bolsonaro, lançará um livro contando sobre a resistência dentro das Forças Armadas à tentativa de golpe de Estado liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

O livro intitulado “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista” (Autêntica Editora) será lançado em setembro.

Na obra, o ex-comandante da FAB descreve as pressões feitas por Jair Bolsonaro para que os militares aderissem ao golpe e a resistência apresentada pela maioria da direção das Forças Armadas.

Os depoimentos de Baptista Junior e do general Freire Gomes, ex-comandante do Exército, foram importantes no processo que levou Jair Bolsonaro à prisão por tentativa de golpe.

Os dois contaram à Justiça que Jair Bolsonaro apresentou relatórios falsos do Instituto Voto Legal, que apontava supostas fraudes nas eleições de 2022, vencidas por Lula.

Bolsonaro também levou para as reuniões com os militares documentos, as “minutas do golpe”, que descreviam os atos de prisão de autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF), do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a anulação do pleito.

O livro traz detalhes das reuniões convocadas por Jair Bolsonaro para a tentativa de golpe, realizadas no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa.

Conta ainda o momento em que o general Freire Gomes disse a Jair Bolsonaro que ele seria preso se continuasse com os planos golpistas.

Além disso, reforça que o almirante Almir Garnier, que era comandante da Marinha, aderiu ao golpe de Bolsonaro e colocou sua Força à disposição.

O tenente-brigadeiro Baptista Junior comentou que decidiu escrever o livro depois de ver a pesquisa AtlasIntel que mostra que quase 40% da população não acreditava na lisura da eleição que elegeu Lula sobre Jair Bolsonaro.

“Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022”, continuou Baptista Junior.

“Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras. Concluí que este livro seria a melhor opção”, afirmou.

Leia um trecho do livro relativo às movimentações de Jair Bolsonaro no dia 1º de novembro de 2022, dois dias depois de sua derrota nas eleições:

“Encerrava-se, assim, o primeiro de uma série de encontros decisivos entre Bolsonaro, seu ministro da Defesa e os comandantes militares, que marcaram aquele fim de ano – momentos de alta tensão que detalharei mais adiante.

Pouco depois, diversos ministros e aliados passaram a ingressar na biblioteca para prestar apoio e sugerir que ele reconhecesse oficialmente a vitória do oponente, dada a expectativa da imprensa reunida no hall de entrada do Palácio. Alguém já havia preparado um texto. Bolsonaro o pegou e, ali, pareceu-nos dar o caso por encerrado.

Houve uma sugestão para que fôssemos todos juntos à entrada do Alvorada para o breve discurso, mas decidimos que, como comandantes militares, não deveríamos ser envolvidos naquele evento político. Permanecemos na biblioteca, preservando a neutralidade institucional das Forças.

Ladeado por diversos ministros, pelo general Braga Netto, por seu filho Eduardo e alguns parlamentares, o presidente sacou da sua caneta Bic, fez alguma anotação no papel e iniciou um breve discurso de dois minutos:

‘Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro.

Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.

A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade.

Formamos diversas lideranças pelo Brasil.

Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso.

Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.

Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição.

Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais.

Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.

É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa Bandeira.

Muito Obrigado.’

As repercussões foram imediatas e dividiram o país em duas interpretações distintas.

No mundo político e diplomático, houve um suspiro de alívio protocolar; afinal, o presidente não havia contestado diretamente o resultado, permitindo ao TSE e a líderes estrangeiros consolidarem o rito de transição. Contudo, para a imprensa e os analistas de bastidores, o semblante fechado de Bolsonaro e a ausência de uma felicitação direta ao vencedor indicavam que não havia uma pacificação real. O reconhecimento foi técnico, mas não emocional, ou, como me ensinou um professor na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena, houve acomodação ao fato, mas não assimilação.

Nas ruas e nas redes sociais, o efeito foi ainda mais complexo. Ao atribuir as manifestações à indignação e sentimento de injustiça, Bolsonaro evitou desmobilizar seus apoiadores. Suas palavras, longe de encerrar o episódio, deixaram aberta a possibilidade de questionamentos futuros, funcionando como um sinal para que bloqueios em rodovias e concentrações em frente a quartéis ganhassem fôlego. Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia.

Como piloto, aquele momento deveria marcar para mim o início da aproximação final para um pouso seguro, dali a dois meses, com a transição institucional do país. Não podia imaginar que a fase final desse voo exigiria tamanha destreza e firmeza de convicções. Esses desafios não fizeram parte das noites insones que antecederam minha assunção ao cargo de comandante da Força Aérea Brasileira.

Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem. Para entender como as engrenagens de uma crise que atingiria o meio militar em 2021 se moveram até o silêncio do Alvorada, é preciso retornar ao dia em que recebi o chamado que mudaria minha vida: 28 de março de 2021, quando decolei de São Paulo rumo a Brasília para assumir uma responsabilidade cuja dimensão, naquele momento, eu ainda não compreendia.”

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