Quaest: Lula tem 7 pontos na frente de Flávio no 1º turno e lidera todos os cenários de 2º turno

TSE faz demonstração de como votar na urna eletrônica na rodoviária de Brasília (Foto: Valter Campanato - Agência Brasil)

Pesquisa mostra o presidente com 38% no primeiro turno contra 31% de Flávio Bolsonaro

A primeira pesquisa Quaest em parceria com o jornal O Globo coloca Lula (PT) na liderança da corrida presidencial.

Lula aparece com 38% das intenções de voto, contra 31% de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno. Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) têm 4% cada; Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo), 2%.

Na pesquisa anterior, 5 de agosto, o presidente tinha 9 pontos de diferença, quando o petista tinha 39% e Flávio, 30%. As oscilações, contudo, estão dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais.

Samara Martins (UP) aparece com 1%. Edmilson Costa (PCB), Clariana Barão (DC), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata) registraram 0%. Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 8%, enquanto 10% permanecem indecisos.

Fonte: Quaest (Reprodução g1)

Para Felipe Nunes, diretor da Quaest, os números apontam para eleição polarizada, mas ainda não definida. A leitura ganha importância porque a pesquisa foi realizada justamente na transição entre o encerramento das convenções partidárias e o início oficial da campanha, marcado para domingo (16).

A Quaest entrevistou presencialmente 2.004 eleitores entre 10 e 13 de agosto, em todo o País. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-06773/2026.

SEGUNDO TURNO

Na simulação de segundo turno entre Lula e Flávio, o presidente tem 43%, contra 40% do senador. Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 13%, e 4% estão indecisos.

A diferença de 3 pontos está dentro da margem de erro.

Na rodada anterior, Lula aparecia com 44% e Flávio com 39%. Em uma semana, o petista oscilou 1 ponto para baixo e o senador, 1 ponto para cima. Novamente, as variações isoladas não permitem concluir que tenha ocorrido mudança estatisticamente significativa.

Fonte: Quaest (Reprodução g1)

A situação também contrasta com outros levantamentos recentes. Na pesquisa CNT/MDA divulgada em 11 de agosto, Lula aparecia com 48,0% contra 39,1% de Flávio em eventual segundo turno. No primeiro turno, os números eram 42,4% para Lula e 28,7% para Flávio.

A pesquisa BTG/Nexus, realizada entre 7 e 9 de agosto, apontou Lula com 47% e Flávio com 44% no segundo turno, também dentro de disputa apertada. No primeiro turno, o placar era 40% a 35% para Lula.

A fotografia conjunta dos levantamentos, portanto, sugere que Lula chega ao início oficial da campanha como líder, mas com vantagem variável conforme o instituto e a metodologia. A disputa contra Flávio é, neste momento, a que apresenta maior potencial de concentração eleitoral.

OUTROS CENÁRIOS

Nos demais confrontos testados pela Quaest, Lula preserva vantagem superior à margem de erro.

Contra Caiado, o presidente marca 44%, ante 37% do ex-governador de Goiás. Contra Renan Santos, Lula registra 44%, contra 36%. Diante de Romeu Zema, o petista chega a 45%, contra 34%.

REGIONALIZAÇÃO

Os recortes regionais feitos pela Quaest revelam eleição com fortes diferenças territoriais.

No Nordeste, Lula chega a 57%, consolidando ampla vantagem. No Sul, ocorre o inverso: Flávio Bolsonaro registra 40%, contra 25% de Lula, diferença de 15 pontos.

No Sudeste, região eleitoralmente decisiva pelo tamanho do eleitorado, Flávio aparece numericamente à frente, com 35%, contra 32% de Lula. A diferença, contudo, está dentro da margem de erro.

No Centro-Oeste e Norte, Caiado chega a 10%.

RENDA E CLASSE SOCIAL

O recorte por renda reproduz divisão conhecida da política brasileira.

Entre os eleitores que recebem até 2 salários mínimos, Lula alcança 52%, contra 23% de Flávio; diferença de 29 pontos.

Na faixa intermediária, entre 2 e 5 salários mínimos, há praticamente empate: 34% para Lula e 33% para Flávio.

Entre os eleitores de renda mais alta, Flávio passa à frente: 36% contra 31% de Lula.

A estrutura social da disputa aparece, assim, relativamente definida: Lula mantém maior força entre os segmentos de menor renda, enquanto Flávio avança nos estratos mais favorecidos.

Esse recorte é particularmente relevante porque a campanha deverá transformar indicadores econômicos em narrativas políticas.

RELIGIÃO

A fotografia religiosa continua sendo uma das mais marcantes. Entre católicos, Lula chega a 47%, contra 27% de Flávio; vantagem de 20 pontos. Entre evangélicos, o quadro se inverte radicalmente: Flávio tem 43%, contra 24% de Lula, diferença de 19 pontos.

O dado confirma que o segmento evangélico continua sendo um dos principais campos de disputa eleitoral da direita. Ao mesmo tempo, mostra que não existe homogeneidade no eleitorado religioso brasileiro.

A campanha deverá, portanto, disputar não apenas partidos e regiões, mas também diferentes interpretações sobre valores, costumes, políticas sociais e papel do Estado.

IDADE

Um dos dados mais expressivos para os candidatos alternativos está entre os eleitores de 16 a 34 anos. Renan Santos alcança 10%, desempenho bastante superior à média nacional dele de 4%.

O dado merece atenção porque outras pesquisas também vêm identificando maior abertura de parte do eleitorado jovem para candidaturas de direita não tradicional.

Levantamento da AtlasIntel citado pela imprensa em junho chegou a mostrar Renan Santos com desempenho particularmente forte entre jovens de 16 a 24 anos.

Isso sugere que a disputa pelo voto jovem pode ser mais fragmentada do que a fotografia nacional indica. A capacidade de mobilização nas redes, a linguagem política e o discurso sobre oportunidades econômicas, emprego, empreendedorismo e Estado podem desempenhar papel importante nesse segmento.

POSICIONAMENTO POLÍTICO

Entre os eleitores que se identificam como bolsonaristas, Flávio chega a 90%. Lula, por sua vez, alcança 91% entre os lulistas e 81% entre eleitores de esquerda não lulista.

A situação muda quando se observa a chamada direita não bolsonarista. Flávio tem 70%, enquanto Caiado aparece com 6% e Renan Santos com 5%.

Entre os independentes, Lula registra 23% e Flávio 16%. Renan chega a 8% e Caiado, a 6%. O dado mais importante, contudo, é que 20% dos independentes ainda estão indecisos.

É nesse eleitorado que parte da eleição pode ser decidida.

PESQUISA ESPONTÂNEA

Quando os nomes dos candidatos não são apresentados — pesquisa espontânea —, a fotografia muda substancialmente.

Lula tem 25%, Flávio Bolsonaro, 19%, e os demais candidatos somam 3%. Nada menos que 51% dos entrevistados não sabem em quem votar ou não responderam.

O dado demonstra que a campanha ainda terá enorme capacidade de alterar percepções e transformar intenções potenciais em votos efetivos.

Na estimulada, 69% dizem que sua escolha é definitiva, enquanto 30% admitem que ainda podem mudar de candidato.

Ou seja, embora a maioria declare ter decisão consolidada, existe fatia expressiva do eleitorado potencialmente disponível para ser conquistada.

EXPECTATIVA DE VITÓRIA

A expectativa de vitória é outro indicador relevante. 56% dos entrevistados acreditam que Lula vencerá a eleição, enquanto 27% apostam em Flávio Bolsonaro. Renan Santos, Zema e Caiado aparecem com 1% cada. Outros 14% não sabem ou não responderam.

Fonte: Quaest (Reprodução – g1)

Essa variável não equivale à intenção de voto, mas pode influenciar o comportamento eleitoral, sobretudo entre eleitores menos identificados com os candidatos.

Um candidato pode, portanto, estar atrás na preferência e, ainda assim, possuir elevada percepção de viabilidade eleitoral. Ou o contrário.

REJEIÇÃO

A rejeição é talvez o dado mais delicado da pesquisa. Flávio Bolsonaro aparece com 54%, ligeiramente acima de Lula, com 52%. Caiado tem 35%, Zema 34%, Renan Santos 21% e Augusto Cury 16%.

A elevada rejeição dos 2 principais candidatos mostra que a eleição continua marcada por forte polarização. A diferença de 2 pontos entre Flávio e Lula é pequena, mas o patamar superior a 50% revela o tamanho da resistência de ambos.

GOVERNO

A avaliação do governo ajuda a explicar porque Lula lidera o primeiro turno, mas encontra dificuldade para abrir vantagem maior no segundo.

A aprovação é de 46%, enquanto 48% desaprovam a administração. Outros 6% não sabem ou não responderam. Na avaliação qualitativa, 36% consideram o governo positivo, 37% negativo e 25% regular.

O ambiente econômico também não favorece leitura inteiramente positiva. Para 49%, a economia brasileira piorou nos últimos 12 meses. Para 30%, ficou igual, e apenas 19% dizem que melhorou.

Ao mesmo tempo, há variável potencialmente favorável ao governo: quando perguntados sobre os próximos 12 meses, 42% acreditam que a economia vai melhorar, contra 28% que esperam piora e 24% que preveem estabilidade.

Há, portanto, combinação de avaliação retrospectiva negativa ou dividida com expectativa futura mais otimista.

ECONOMIA E ELEIÇÃO

A contradição entre percepção atual e expectativa futura é um dos elementos que merecem atenção na campanha.

Se a economia é percebida como pior hoje, mas quase metade espera melhora nos próximos 12 meses, a disputa eleitoral terá espaço para ser travada em torno da direção futura do País.

Ainda assim, 53% afirmam que o Brasil está indo na direção errada, contra 38% que dizem estar na direção certa.

Esse indicador representa desafio para Lula: a liderança eleitoral não se converte automaticamente em aprovação de governo. Para Flávio, por outro lado, o desafio é transformar a insatisfação com o governo em maioria eleitoral, algo que os números ainda não demonstram no primeiro turno.

REDES DIGITAIS

O ambiente das redes adiciona outra camada à disputa. Levantamento da Datrix Digital, realizado entre 18 de julho e 11 de agosto, identificou mudança no ambiente digital em torno dos 2 principais candidatos.

Segundo a análise, Lula acumulou quase 4 vezes mais impressões que Flávio entre 5 e 11 de agosto, enquanto o sentimento positivo em torno do senador caiu de +12,1 para -17,2 pontos.

O levantamento deve ser interpretado com cautela, porque métricas de redes digitais não equivalem a intenção de voto. Ainda assim, ajudam a compreender a disputa por atenção, alcance e construção de narrativas.

A eleição começa, portanto, em 3 terrenos simultâneos: a intenção de voto, a percepção sobre os governos e candidatos e a batalha pela narrativa nas redes.

ELEIÇÃO QUE COMEÇA

A nova Quaest oferece fotografia clara, mas não sentença sobre o resultado eleitoral.

Lula inicia oficialmente a campanha na liderança do primeiro turno, com 7 pontos sobre Flávio. O petista também aparece à frente em todos os cenários de segundo turno testados. Mas, contra Flávio, a diferença caiu para 3 pontos e está dentro da margem de erro.

O cenário também mostra a direita que, embora fragmentada no primeiro turno, encontra em Flávio o principal polo de concentração. Caiado, Renan Santos e Zema aparecem muito atrás do senador no conjunto nacional, mas podem disputar parcelas relevantes do eleitorado independente e não bolsonarista.

Ao mesmo tempo, 10% estão indecisos na pesquisa estimulada e 51% não apontam candidato na espontânea. São números que impedem qualquer conclusão de que a eleição esteja definida.

A disputa de 2026 começa, assim, sob combinação conhecida da política brasileira: liderança de Lula, crescimento relativo de Flávio, forte rejeição de ambos, fragmentação da direita no primeiro turno e possibilidade concreta de disputa apertada no segundo.

O que mudou em uma semana não foi necessariamente o resultado, mas a temperatura da corrida. Lula continua na frente; Flávio encurtou a distância; e o segundo turno, pela primeira vez nesta série recente da Quaest, aparece novamente como confronto tecnicamente equilibrado.

A partir de domingo, com o início oficial da campanha, os números deixam de ser apenas fotografias e passam a funcionar como ponto de partida para disputa em que cada candidato tentará transformar intenção em voto, rejeição em mobilização e expectativa em maioria.

M. V.

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