Ao receber o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ, ex-chanceler defendeu diplomacia independente, integração sul-americana e desenvolvimento tecnológico sem novas dependências
O embaixador e ex-chanceler Celso Amorim, assessor de Lula para Assuntos Internacionais, recebeu, na sexta-feira (28), o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), em cerimônia realizada no Salão Dourado do Palácio Universitário, na Praia Vermelha.
A honraria foi entregue pelo reitor Roberto Medronho. Amorim, em discurso, defendeu o controle nacional sobre as terras raras, afirmando que é preciso utilizar essas riquezas “para avançarmos em uma industrialização”.
A homenagem ocorre em momento particularmente simbólico para a universidade. Duas semanas antes, o Conselho Universitário havia revogado, por unanimidade, o título concedido em 1968 ao diplomata americano Lincoln Gordon, em razão do apoio dele ao golpe de 1964 e ao regime autoritário.
A UFRJ afirmou que a decisão buscou reafirmar os valores democráticos da instituição.
A distinção a Amorim, portanto, também se insere em trajetória institucional de valorização da democracia, da soberania e da produção de conhecimento orientada aos interesses nacionais.
DIPLOMACIA “ATIVA E ALTIVA”
Ao proferir discurso, Amorim recuperou sua longa relação com a UFRJ. Depois de ingressar no Instituto Rio Branco, em 1963, prestou vestibular para Filosofia na então Faculdade Nacional de Filosofia.
O curso noturno foi extinto após o golpe de 1964, impedindo a continuidade como estudante da universidade.
Décadas depois, a relação seria retomada. Amorim destacou, entre outros episódios, o convite de Oscar Niemeyer para participar, em 2008, das comemorações dos 45 anos da Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia), que é o maior centro de ensino e pesquisa em engenharia da América Latina, vinculado à UFRJ.
Segundo o diplomata, o arquiteto apreciava a política externa implementada durante o governo Lula (PT), caracterizada por ele como “ativa e altiva”, sem submissão aos grandes e sem desprezo pelos países menores.
SOBERANIA NO MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO
A parte central do discurso foi dedicada aos desafios do novo cenário internacional. Para Amorim, o Brasil precisa evitar que a transformação tecnológica reproduza antigas relações de dependência.
Ao tratar da inteligência artificial, defendeu cooperação internacional baseada em ética, soberania e interesses humanistas.
Também destacou que as reservas brasileiras de minerais críticos e estratégicos, incluindo terras raras, podem abrir oportunidade para o País desenvolver tecnologias de ponta e avançar em industrialização compatível com as novas exigências econômicas.
“Não basta explorarmos essas riquezas, é preciso utilizá-las para avançarmos em uma industrialização compatível com os tempos atuais”, afirmou.
Para o ex-chanceler, a política externa brasileira deve ter como objetivo assegurar posição “altiva e soberana no novo equilíbrio global”.
AMÉRICA DO SUL NÃO É QUINTAL
Amorim também colocou a integração regional no centro da estratégia brasileira. Defendeu maior articulação entre os países da América Latina e, especialmente, da América do Sul, em áreas como infraestrutura, tecnologia, transportes e comunicação.
“Rejeitamos de maneira categórica a ideia de que a América Latina possa ser tratada como área de domínio de uma superpotência”, declarou.
Na avaliação do diplomata, ferrovias, rodovias e conexões de fibra óptica não têm ideologia e podem produzir benefícios compartilhados.
Reconheceu, entretanto, que a integração regional sofre avanços e recuos e enfrenta pressões externas.
A mesma lógica, disse, deve orientar a relação com a África. Amorim defendeu que universidades brasileiras, particularmente a UFRJ, ampliem a cooperação com instituições africanas em educação, ciência, tecnologia, saúde, cultura, comércio e meio ambiente.
“BUSCAR FEIXES DE LUZ”
Ao avaliar o papel do Brasil no mundo, Amorim retomou ideia que chama de “teoria das frestas”: mesmo em períodos de grande tensão internacional, é necessário identificar espaços de diálogo e ampliar essas brechas.
“Temos que buscar essa fresta e trabalhar para alargá-la”, afirmou.
Para ele, a realização, em sequência, das cúpulas do G20, do Brics e da COP30 no Brasil demonstra o peso adquirido pelo País no cenário internacional. Nesse contexto, apontou a paz e o desenvolvimento equitativo como desafios centrais da política externa brasileira.
A ideia dialoga com formulação apresentada por Amorim na aula magna dele na própria UFRJ, em 2024: diante da instabilidade internacional, “a paz é o novo nome do desenvolvimento”.
“QUASE-ALUNO” QUE VOLTA À UNIVERSIDADE
Ao final, Amorim retomou a história que marcou a relação dele com a UFRJ. De estudante que não pôde concluir Filosofia em razão da ruptura provocada pelo golpe de 1964, tornou-se décadas depois um dos mais reconhecidos diplomatas brasileiros e, agora, doutor honoris causa da universidade.
“Encerro o capítulo de um ‘quase-aluno’ para orgulhosamente receber o título de Doutor Honoris Causa”, afirmou.
E encerrou recorrendo a Carlos Drummond de Andrade, com os versos de Poema de Sete Faces: “Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração”.
A homenagem, assim, ultrapassou o reconhecimento da carreira diplomática. Reafirmou a concepção de política externa na qual soberania, democracia, integração regional, ciência e desenvolvimento tecnológico são instrumentos para ampliar a autonomia do Brasil diante de um mundo cada vez mais disputado.










