O milagre da eternidade laboral: como a CNI pretende nos salvar do descanso

Ato pelo fim da escala 6x1, na Avenida Paulista, em 30/06/2026 (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)


DAVI MOLINARI

Há uma ternura quase lírica no modo como os doutos analistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) olham para o tempo. Em um mundo vulgarmente apressado, onde tecnologias surgem do dia para a noite e hábitos se transformam em meses, nossos industriais preferem a solidez dos séculos. O anúncio de que o Brasil precisará de nada menos que 30 longos anos de penitência para absorver a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais é uma obra-prima da onisciência patronal.

Trata-se de uma projeção encantadora: toma-se o ritmo mais letárgico da história nacional, traça-se uma linha reta até o horizonte e decreta-se, com a devida gravidade estatística, que o descanso é uma utopia matematicamente inviável antes de 2056. A lógica é perfeita em sua imobilidade. Desconsidera-se a inteligência artificial, a automação, a reorganização dos processos ou qualquer ousadia operacional. O futuro, para a CNI, é apenas o passado de terno novo e passo lento.

Com tocante desvelo pela produção nacional, o estudo sugere que subtrair umas poucas horas do suor diário equivale a condenar as máquinas ao colapso. O trabalhador, esse ente curioso, funcionaria como uma vela de cera: diminuído o tempo de queima, diminui-se a luz na exata proporção contábil. A Islândia, a França e a Coreia do Sul, que ousaram cortar jornadas e colheram eficiência e trabalhadores menos exaustos, certamente cometeram algum erro de contabilidade que a nossa idônea federação patronal teve a caridade de nos ocultar.

Mas o verdadeiro primor do documento reside na sua veia dramática. Para que a plebe não se empolgue com a ideia vil de ter dois dias completos de descanso, os profetas da indústria desenham o apocalipse: no cenário extremo, o emprego formal desabaria vertiginosamente em até 77%. De 41 milhões de almas assinadas em carteira, restariam escassos 18,9 milhões de sobreviventes. A técnica é antiga, mas sempre elegante: semeia-se o terror do desemprego em massa para que a servidão pareça, afinal, um privilégio a ser celebrado de joelhos.

Não satisfeitos em prever o fim do mundo do trabalho, os autores ainda nos brindam com um requinte de erudição comparativa. Colocam o operário brasileiro lado a lado com o irlandês e o norueguês, concluindo, estarrecidos, que produzimos menos por hora. Esqueceu-se, por mero lapso de memória, de mencionar que a produtividade irlandesa repousa sobre a generosidade fiscal que atrai multinacionais de tecnologia e multinacionais farmacêuticas, e não sobre a resignação de seu povo em trabalhar de sol a sol na escala 6×1. Comparação desonesta? Jamais. Apenas uma licença poética do patronato.

Ao final, após diagnosticar que “nos três cenários, os trabalhadores perdem”, a CNI nos convida a aceitar nosso destino com resignação cristã. O absenteísmo decorrente da exaustão, as doenças ocupacionais e o esgotamento mental não entram nessa elegante planilha de custos. O bem-estar é tido como um luxo imprudente; a saúde, um capricho desnecessário.

O Brasil, dizem-nos, não pode se dar ao luxo de descansar agora. É preciso esperar três décadas. Até lá, cultivemos a paciência: a civilização continua logo ali, dobrando a esquina do próximo século.

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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