“Assessor presidencial, Cerimedo praticou terrorismo de Estado na Bolívia”, diz Evo

“A mulher de Cerimedo diz que ele era agente da CIA”, destaca o ex-presidente Evo Morales

“Como pode um assessor estrangeiro decidir como reprimir ou suspender serviços básicos e telecomunicações?”, questionou o ex-presidente boliviano, denunciando as gravações divulgadas pelo vice-presidente Edman Lara entre Fernando Cerimedo e o ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo

O ex-presidente boliviano Evo Morales voltou a acusar o consultor político argentino Fernando Cerimedo nesta terça-feira (9) de “terrorismo de Estado, narcoterrorismo e crimes contra a humanidade”, tendo “ordenado cortes de energia elétrica, de internet e detenções” durante a covarde repressão a protestos na localidade de San Julián, no departamento de Santa Cruz, que se estendeu por 53 dias.

As informações foram divulgadas nas redes sociais de Evo logo após vir a público a denúncia do vice-presidente Edman Lara sobre a conversa entre Cerimedo – até então assessor da Presidência – e o ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo.

“Como pode um assessor estrangeiro decidir como reprimir ou suspender serviços básicos e telecomunicações?”, questionou Morales, acusando o governo de recorrer a medidas que violam direitos fundamentais da pessoa humana.

A crueldade dos enfrentamentos resultou em dezenas de feridos baleados em estado crítico, tanto pela força estatal quanto pelos fascistas da União da Juventude de Santa Cruz. O quadro de repressão foi juridicamente respaldado pelo governo Rodrigo Paz com a modificação e a aprovação de leis de estado de exceção e estado de sítio em vigor, o que ampliou o poder das Forças Armadas para conter os protestos. Conforme Evo, a organização de grupos paramilitares teria sido custeada pelo ministro do Desenvolvimento Produtivo, Oscar Mario Justiniano.

Segundo reportagem do jornal boliviano La Razón, ouve-se uma voz identificada nas gravações que vieram à tona como a do ministro do Governo, em prol do uso imediato da repressão contra os manifestantes. “Temos que ter detidos, não podemos continuar sem detidos. Os detidos servem para tudo”, afirma. Em seguida, outra voz, atribuída a Cerimedo, responde: “Sim, sim, deter o maior número possível de pessoas, e também vamos cortar a luz e a internet em toda a cidade de San Julián”. No áudio, Oviedo sustenta que mobilizou “400 rapazes” para a desobstrução da via em San Julián.

Outros áudios revelam conselhos de Cerimedo ao mandatário e à sua primeira dama, María Elena “Bibi” Urquidi sobre como construir e manipular narrativas comunicacionais, gerir crises sociais, influenciar decisões governamentais e estabelecer medidas de exceção ou estado de sítio.

FERNANDO CERIMEDO É FUNDADOR DO PASQUIM ‘LA DERECHA DIARIO

Cerimedo, de 45 anos, é um consultor político argentino, fundador do site ‘La Derecha Diario’, que colaborou com a campanha eleitoral de Rodrigo Paz em 2025 e seguiu prestando serviços de comunicação no novo governo. Reportagens mostram que, em depoimento à Justiça boliviana, ele reconheceu ter auxiliado o presidente com “conselhos de comunicação digital”, tendo sido seu contato dentro do entorno governamental. Como braço direito, acompanhou Paz e o ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Aramayo, à reunião na cúpula “Escudo das Américas”, com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, no Trump National Doral Miami, na Flórida.

O consultor e marqueteiro está atualmente preso na Bolívia. Ele foi detido em agosto sob acusação de tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, grávida, a advogada Nadia Beller, e desde então passou a responder também a investigações por enriquecimento ilícito, encobrimento de narcotráfico e violência doméstica.

Para Evo, é fundamental que “a Justiça deva abranger cada uma das irregularidades e a corrupção denunciadas por Nadia Beller, que envolvem o presidente, sua esposa e outras autoridades”. “A mulher diz que Cerimedo era um agente da CIA. As ações dele são as de um agente do império. O jeito dele de fazer política, criando problemas, criando inimigos, polarizando”, acrescentou.

Nesta semana, a Promotoria boliviana ampliou ainda mais o caso, abrindo novas frentes de investigação contra Cerimedo por “usurpação de funções e legitimação de ganhos ilícitos”.

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