80% das delegacias das mulheres são fechadas nos finais de semana e à noite, denuncia Marina

Marina Silva participou do debate promovido pelo portal UOL - Foto: Reprodução/Uol

Candidata da Rede fez discurso contundente contra o feminicídio em São Paulo

Durante o debate entre os cinco candidatos mais bem colocados na pesquisa Datafolha ao Senado por São Paulo, realizado por UOL e Folha de S.Paulo, a candidata Marina Silva (Rede) protagonizou dois momentos centrais: o confronto direto com Ricardo Sales (Novo) sobre política ambiental e um apelo emocionado contra o feminicídio no estado.

A tensão entre Marina e Sales começou ainda no primeiro bloco, quando o candidato do Novo foi questionado sobre ser réu no Supremo Tribunal Federal por supostamente facilitar um esquema de contrabando de madeira extraída ilegalmente da Amazônia.

Mais tarde, no segundo bloco, foi a vez de Sales escolher Marina para perguntar. O candidato do Novo questionou a candidata sobre o marco legal do saneamento aprovado no governo Bolsonaro, afirmando que Marina não teria se posicionado quando o presidente Lula assinou um decreto para modificá-lo.

Marina respondeu de forma direta: “Ter um marco legal pro saneamento básico é importante, desde que não seja para atender especulação imobiliária, desde que não seja para atender lobbies que muitas vezes não são confessos”. A candidata também rebateu as acusações sobre desmatamento, afirmando que “todos os recordes de desmatamento são da Marina, 2004, 5 e 6. Recorde de queimada, Marina. A diferença é que eu não fico dizendo que o problema é dela”.

Em outro momento, Marina respondeu às críticas de Sales sobre sua atuação como ministra do Meio Ambiente no Acre: “A região norte tem apenas algo em torno de 20% de saneamento. Isso é um problema estrutural. Não é estranho que esses estados todos, não só o estado do Acre, mas vários estados daquela região, sofram a questão do saneamento básico”.

“QUANTAS MARIAS”: O DISCURSO CONTRA O FEMINICÍDIO

No quarto bloco, ao perguntar para Simone Tebet (PSB) sobre o pacto contra o feminicídio, Marina deu espaço para que a adversária falasse sobre redes de proteção. Mas foi na réplica seguinte, após ser provocada por André do Prado (PL) sobre os índices de feminicídio no Acre, que Marina fez seu pronunciamento mais contundente.

“É impressionante, né? Quando se fala de segurança pública, só se fala de número. Esquece de falar de gente”, iniciou. “Esquece de falar que os pais aqui no estado de São Paulo ficam com coração na mão enquanto seus filhos não chegam em casa. Que as mulheres aqui em São Paulo vivem com medo. Medo dentro de casa, medo no transporte coletivo, medo quando saem na rua”.

Marina então citou nominalmente vítimas de feminicídio: “É a Marina, Bianca, Yasmim, Larissa, Cleonice, Divina, Patrícia, Samara, quantas Marias. São nomes de mulheres, mulheres do estado de São Paulo, mulheres reais. Elas eram muito jovens. Bianca tinha 21 anos, Yasmim 26, Larissa 29, a idade das minhas filhas”.

A candidata continuou: “Cito os nomes, Marina, porque elas não são números. Cito nomes, os nomes para que nós possamos lembrar que eram mulheres, eram mães, eram esposas, eram filhas, mulheres que perderam a vida por quem tinha a obrigação de protegê-las e juraram protegê-las”.

Marina também criticou a estrutura de atendimento às mulheres no estado: “O estado de São Paulo tem 80% das delegacias das mulheres fechadas nos finais de semana e à noite, que é o período que as mulheres mais são violentadas. Isso é lei, é exigir e garantir cuidado e proteção”.

Ela ainda defendeu políticas estruturantes: “Nós estamos falando de mães atípicas, de mães solos, de garantir creche, de mulheres que largam tudo para cuidar dos outros, que precisam de segurança pública, que precisam de cuidado, que precisam ter na informalidade que estão apoio na qualificação e empreendedorismo e crédito facilitado para que elas tenham autonomia financeira para sair de casa quando quiserem”.

CONFRONTO COM DERRITE

Marina também saiu em defesa de Simone Tebet quando Guilherme Derrite (PP) questionou a adversária sobre a ADPF 635, que trata de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro. Tebet admitiu não saber do que se tratava especificamente, e Derrite insistiu.

Marina interveio: “É engraçado esse jogo que foi feito aqui pelo Derrite confrontando a Simone, porque ele sabe que ela é advogada. Isso se chama teste de competência de gênero, porque o tempo todo esses homens tóxicos querem nos descredibilizar. Uma advogada não tem obrigação de saber todas as coisas, todas as leis. Assim como nenhum deles aqui sabe sobre todas as coisas”.

E completou: “Nós somos mulheres com uma vida pública dedicada, competente, com resultados que o Brasil e o mundo reconhece. Não vamos nos submeter a esse joguinho de querer ficar perguntando se a gente sabe, se a gente pensa, se a gente pode”.

Nas considerações finais, Marina defendeu sua trajetória e propostas: “São Paulo tem cerca de 9 milhões de pessoas que vieram de outras regiões e lugares do mundo. Essas pessoas não devem ser consideradas como cidadãs de segunda classe. Se elas podem votar, elas também podem ser votadas. E é isso que eu sou, uma cidadã paulistana desde 1994”.

A candidata também falou sobre desenvolvimento: “Eu falo agora com as mulheres, com os jovens, com os trabalhadores, com os empresários, que sabem que eu defendo um modelo de desenvolvimento que não deixe ninguém para trás, que tem lugar para todo mundo, inclusive defender os empresários brasileiros que estão sendo atacados, principalmente de São Paulo, pelo tarifaço”.

E concluiu: “Vocês puderam ver, eu e a Simone não ficamos brigando entre nós, mas vocês viram aqui a guerra, um acusando o outro. Vamos votar pela democracia em mulheres”.

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