Rio, 40 Graus

Os vendedores de amendoim em Rio, 40 Graus (Foto: divulgação)


CARLOS LOPES

Há poucas semanas, fui convidado, pelo Centro Popular de Cultura da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (CPC-UMES), para um debate sobre Rio, 40 Graus, filme de 1955.

O debate fazia parte da série “Cinema Brasileiro de A a Z”, promovido por aquela entidade.

Foi muito interessante – e importante – a troca de ideias, da qual participaram Caio Plessmann e eu, coordenada pela presidente da UMES, Luna Martins.

Por isso, vale este breve registro, ainda que algo atrasado.

Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, é o marco inicial do que depois se chamou “Cinema Novo” – que teria como principal teórico (e não somente teórico), Glauber Rocha, e que contaria, entre outros, com realizadores como Ruy Guerra; Carlos Diegues; Alex Viany; Joaquim Pedro de Andrade; Walter Lima Jr.; Zelito Viana; Luiz Carlos Barreto; Leon Hirszman, e não nos estenderemos mais sobre os nomes de seus realizadores – até porque a lista seria, realmente, extensa.

Mais importante, aqui, é perguntar: o que foi (ou é) o “Cinema Novo”?

Em que, especificamente, ele é “novo”?

Trata-se da inauguração, no Brasil, do cinema nacional. Podemos assegurar, ainda que em termos relativos, que o cinema nacional – o cinema que expressasse toda a nação – antes não existia. Certamente, houve a Cinédia, houve a Vera Cruz, houve a chanchada. Mas nada que fosse, em termos cinematográficos, a expressão de todo o país e de seu povo, assim como já fizera a literatura, em especial a literatura nordestina, que depois serviria de base para o Cinema Novo.

Como se pode ver em Rio, 40 Graus, a população brasileira, isto é, o povo, era, ali, em 1955, enfim incorporado ao cinema.

A data era significativa: um ano após o martírio do grande presidente Getúlio Vargas.

Até então, apesar dos esforços de Humberto Mauro no Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), a partir de 1936, o cinema brasileiro era, essencialmente, uma atividade alienada, para dizer francamente, uma atividade, com algumas exceções, de brancos. Nas palavras do próprio Nelson Pereira dos Santos: “eu não via nenhum ponto de referência no cinema brasileiro anterior que fosse ao encontro da cultura nacional. A gente estava começando do nada. Em um Brasil de maioria de negros e mulatos, nossos filmes eram brancos” (v. HP 13/09/2021, Zé Kéti, o samba tem opinião).

O próprio Glauber Rocha, diria depois, sobre Rio, 40 Graus: “Explodiu o primeiro filme revolucionário do Terceiro Mundo antes da Revolução Cubana” (idem).

A favela, esse aglomerado habitacional tão característico das nossas cidades, onde reside, ainda, infelizmente, boa parte da classe operária brasileira, não fazia parte do cinema brasileiro antes de Rio, 40 Graus. É verdade que Humberto Mauro realizara, em 1935, um filme intitulado Favela dos Meus Amores, mas esta película estava – e está – perdida devido a um incêndio.

Em muitos artigos e estudos, ressalta-se muito a influência do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa no surgimento do Cinema Novo.

Achamos essa influência, antes de tudo, embora não exclusivamente, formal. Nelson Pereira dos Santos definiria, assim, a influência do neorrealismo: “identificar-se com o neo-realismo significava despojamento de linguagem, fazer cinema ainda em condições difíceis de produção, localizar o momento histórico, a realidade do povo, inclusive utilizando atores não profissionais” (v. HP 13/09/2021, Zé Kéti, o samba tem opinião).

E, realmente, Rio, 40 Graus se parece bastante, por exemplo, com Ladrões de Bicicletas, filme italiano de 1948, realizado por Vittorio De Sica.

Porém, mais importante, em nossa opinião, é a influência, sobre Rio, 40 Graus, da atmosfera do nacional-desenvolvimentismo brasileiro, desencadeado a partir da Revolução de 30. Esta influência é extremamente nítida, inclusive nos contrastes do filme: por exemplo, os cinco vendedores de amendoim da favela chocam-se, na visão do espectador, com o político corrupto ou com o latifundiário (?) urbano ou com o guarda do Jardim Botânico – ou com outras figuras, inclusive o sujeito que explora a energia que supre tanto a favela quanto a escola de samba do Cabuçu.

Como tramas paralelas, existem as histórias de Rosa (Glauce Rocha) e Pedro, o fuzileiro naval (Roberto Batalin); ou de Miro (Jece Valadão) e Alice (Cláudia Moreno).

Zé Kéti, além de autor da trilha sonora, orquestrada pelo maestro Radamés Gnatalli, é o companheiro inseparável de Miro (Jece Valadão antes de empreender sua carreira de personagens cafajestes).

Aliás, por falar em trilha sonora, ela perpassa o filme na versão orquestrada, mas aparece explicitamente ao final, na voz de Cláudia Moreno, coroada, então, rainha da escola de samba:

Eu sou o samba

A voz do morro sou eu mesmo sim senhor

Quero mostrar ao mundo que tenho valor

Eu sou o rei dos terreiros

Eu sou o samba

Sou natural daqui do Rio de Janeiro

Sou eu quem leva a alegria

Para milhões de corações brasileiros

Mais um samba, queremos samba

Quem está pedindo é a voz do povo de um país

Pelo samba, vamos cantando

Esta melodia de um Brasil feliz

A câmera sobe, e vemos, na janela de um barraco, a mãe de um dos vendedores de amendoim, exatamente o que morreu durante aquele domingo estupidamente quente.

A filmagem de Rio, 40 Graus foi heroica. A câmera foi emprestada por Humberto Mauro – e pertencia ao abandonado espólio do Instituto Nacional de Cinema Educativo.

Nas palavras de Irapuan Santos, presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro:

“… era uma posição de vanguarda, considerando-se o período da guerra fria em que se dava, quando milhares de dólares eram despejados por milionários americanos, através da CIA ou através dos Museus de Arte Moderna, para financiar a ‘arte abstrata’ que mascarasse o mundo.

“Foram estes os ingredientes do filme que mudou a história da cinematografia nacional: pouquíssimo dinheiro, a ponto de a equipe de filmagem e atores ficarem meses acampados num apartamento na Praça Cruz Vermelha, no Centro do Rio de Janeiro, alimentando-se à base de sanduíches de mortadela e macarrão, feito por eles mesmos nos dias mais fartos; o equipamento era uma câmera fora de uso e abandonada do Instituto Nacional do Cinema Educativo, emprestada por Humberto Mauro, segundo depoimento de Nelson Pereira dos Santos; atores, em sua maioria, não profissionais, escolhidos no Morro do Cabuçu, e a trilha sonora saída da cabeça de um mestre-de-obras da construção civil, o sambista Zé Kéti.

“O samba ‘A Voz do Morro’ tornou-se sucesso nacional, transformando-se numa das músicas brasileiras mais gravadas, inclusive no exterior. Evidentemente que o Coronel Menezes Cortes, então Chefe de Polícia de Café Filho, deu sua contribuição a tamanho sucesso, ao proibir a exibição do filme taxando-o de comunista, anti-nacional e contra os costumes, o que desencadeou uma grande mobilização de intelectuais, artistas e estudantes pela liberação do filme.

“O jornalista Hugo Sukman, em matéria para O Globo, em 25/04/1999, define o que foi Rio 40 Graus: ‘o primeiro filme de Nelson é a nossa ‘Roma Cidade Aberta’ tropicalizado, autônomo em termos de linguagem, que sintomaticamente, do som do samba ‘A Voz do Morro’, de Zé Kéti, arranjado por Radamés Gnatalli, apresenta a Cidade do Rio de Janeiro em Rio 40 Graus. Ou seja: define logo que o personagem principal do filme é a cidade, que vai sendo mostrada através da trajetória pelo asfalto de cinco meninos do morro atrás da sobrevivência”.”

Por fim, uma nota sobre o samba – que já era a música nacional, transmitida através do rádio, mas ainda não tinha o reconhecimento geral, que alcançou, exatamente, com este filme.

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