Lula deu recado a Trump na ONU: pare de proteger criminosos brasileiros em seu país

Lula na ONU (Foto: Ricardo Stuckert)

Ricardo Magro, lavador de dinheiro do tráfico e condenado no Brasil, vive tranquilamente em Miami, sem ser molestado pelas autoridades americanas

Sem citar diretamente o nome de Trump, o presidente Lula criticou, em discurso nesta terça-feira (22) na Assembleia Gera da ONU, a prepotência e a ingerência externa dos Estados Unidos em assuntos internos de países da América Latina.

Mais do que isso, Lula se contrapôs às narrativas descabidas do Departamento de Estado americano sobre uma suposta ineficiência da Polícia Federal no combate ao crime no Brasil. O presidente cobrou sutilmente que a Casa Branca ajude mais na repressão ao tráfico de armas americanas para o Brasil e pare de proteger criminosos brasileiros que vivem impunemente em seu território.

Sem fazer citações de nomes, Lula fez questão de dizer que espera a colaboração das autoridades dos EUA para prender pessoas como o dono do Grupo Refit, Ricardo Magro, que vive em um condomínio de luxo em Miami, na Flórida, sem ser incomodado pela polícia americana, mesmo sendo considerado um foragido do Brasil e estando na lista da Interpol.

Lula fez menção aos esforços do país para combater as organizações criminosas. “Em 2025, realizamos a maior operação contra o crime organizado da história do Brasil” declarou o presidente, em relação à operação Carbono Oculto, que tratou sobre fraudes no setor de combustíveis. “Batemos recorde de apreensão de drogas e de bens e recursos ilícitos. Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime”, acrescentou Lula.

Magro teve sua prisão determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Operação Sem Refino, deflagrada em maio num inquérito sobre fraudes e lavagem de dinheiro usando esquemas de refinos fantasmas. Além de lavar dinheiro para o crime, a Refit sonegou mais de R$ 26 bilhões em impostos, segundo a Receita Federal, O presidente Lula já fez questão de tornar público que discutiu em mais de uma ocasião a situação inaceitável de Ricardo Magro com Donald Trump.

Em maio, Lula relatou ter cobrado de Trump a extradição do dono da Refit, que vive na Flórida sem ser incomodado. “Ele [Trump] falou que queria combater o crime organizado e falei: ‘É comigo mesmo. Se quiser combater o crime organizado, me entregue os brasileiros que estão roubando lá. Brasileiro que roubou aqui está morando em Miami, me entregue’. Inclusive, aquele Ricardo Magro, aquele cara da Refit, que é o falsificador de combustível nesse país e o maior devedor do dinheiro público desse país”, declarou o presidente à época.

Em dezembro do ano passado, Lula já tinha dito em outro evento público que discutiu a prisão de Magro com o chefe da Casa Branca durante uma ligação telefônica. Sem citar o nome do dono da Refit, chegou a classificá-lo como “chefe do crime organizado brasileiro”. Mais recentemente, em fevereiro, durante viagem oficial à Índia, Lula revelou ter mencionado o empresário em três conversas distintas com o chefe da Casa Branca.

“Eu disse ao presidente [Trump] que nós estamos dispostos a trabalhar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, no tráfico de armas, na lavagem de dinheiro”, declarou o presidente Lula. “Qualquer coisa que puder colocar os magnatas da corrupção na cadeia, nós estamos dispostos a trabalhar”, destacou o presidente. “Já mandamos para ele uma relação das coisas que nós queremos fazer, já mandamos documento da Receita Federal, já mandamos fotografia. Já mandamos nomes de pessoas”, completou.

Sem qualquer intenção manifestada pela Casa Branca de uma colaboração efetiva, Lula aproveitou o discurso de abertura na ONU para mandar recados ao governo Trump, que discursou em seguida. Um dos motivos para a impunidade seletiva de Magro nos EUA está intrinsecamente ligado ao PL de Flávio Bolsonaro. Magro tinha ligações com políticos aliados de Flávio no Rio.

A Operação Sem Refino atingiu Cláudio Castro (PL), aliado próximo de Flávio que foi alvo de mandado de busca e apreensão. Segundo a Polícia Federal (PF), o então governador do Rio blindou o empresário, a quem chamava de “amigo” em mensagens obtidas pela Polícia Federal.

Se fosse séria a definição, feita pelo governo Trump, de organizações terroristas para o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), o foragido Ricardo Magro, que mora em Miami e é considerado o maior lavador de dinheiro do crime organizado no Brasil, não seria tratado tão bem e não estaria impune dentro dos Estados Unidos. O próprio Trump deixou claro em seu discurso que uma suposta preocupação americana com o narcotráfico não passou de pretexto para roubar o petróleo da Venezuela. “Os EUA fizeram um grande negócio obtendo o petróleo da Venezuela”, disse Trump.

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