“Mais cedo ou mais tarde, o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul terão de concordar sobre os princípios de uma nova ordem mundial”, afirmou o presidente russo, Vladimir Putin, na sessão plenária do Clube de Debates Valdai.
Em sua participação, nesta sexta-feira, abordou a conduta agressiva da Otan, e uma prontidão da Rússia para responder a qualquer ameaça militar.
Putin destacou os desafios relacionados ao desenvolvimento da IA e a agressão do regime nazista da ucraniana.
Durante o encontro que reuniu 120 especialistas de 40 países e teve como tema a “Responsabilidade pelo Futuro: Limites do Possível ou Possibilidades Ilimitadas?”, o chefe de Estado russo assinalou que os países devem responder a uma questão central: como preservar a paz e a segurança internacionais e evitar “os cenários mais catastróficos”, nos quais a humanidade poderia se ver à beira do fim da sobrevivência.
“As tendências preocupantes que observamos no cenário internacional nos levam, antes de tudo, a nos perguntar não como construir, de maneira mais razoável, eficaz e justa, as relações internacionais no período que se avizinha — embora tudo isso seja, naturalmente, extremamente importante —, mas sim como preservar a paz e a segurança globais”, considerou.
Putin enfatizou que a escala das mudanças atuais é “enorme” e que não é por acaso que existem tantos debates sobre o futuro. Além disso, ressaltou que as tecnologias oferecem à humanidade “muitíssimas possibilidades”, mas também representam uma “grande ameaça” e já afetam “a essência biológica do ser humano”.
Ao mesmo tempo, Putin apontou que, a longo prazo — e à medida que a hegemonia ocidental for ficando para trás —, o mundo evoluirá “para melhor”, rumo a uma ordem mundial multipolar mais estável, democrática e livre.
OS EVIDENTES DESEQUILÍBRIOS NA ESTRUTURA DA ONU
“Um grupo de países ocidentais que, sendo claramente uma minoria em escala mundial, pretende atribuir-se funções de gestão, enquanto a influência real desses Estados diminui em favor de uma maioria mundial cada vez mais independente e segura de si. Por isso, os desequilíbrios na estrutura da ONU tornam-se cada vez mais evidentes”, apontou Putin.
Além disso, ressaltou que a Rússia apoia uma reforma justa da ONU, mas considerou que ela não é possível sem um consenso interno, algo que atualmente se mostra “difícil de alcançar”.
O mandatário destacou o fato de que a organização, assim como outras instituições internacionais criadas após 1945, não refletem as realidades do mundo do século XXI.
Putin abordou ainda a questão do conflito na Ucrânia, afirmando que “a verdade é que não foi a Rússia que o iniciou; pelo contrário, a guerra foi travada contra a Rússia”. O presidente respondeu assim aos críticos que questionam Moscou por falar em paz enquanto “ela mesma começou a guerra”.
“Já disse isso muitas vezes, mas permitam-me repetir nesta reunião: onde está a verdade? A verdade é que não fomos nós que quisemos nem que começamos o conflito; foram eles que começaram a lutar contra nós.”
“O OCIDENTE TERÁ DE RECONHECER O MUNDO MULTIPOLAR”
“A ausência de regras universalmente reconhecidas, de uma compreensão do princípio da segurança igual e indivisível — ou a supressão desse princípio — frequentemente impulsiona comportamentos egoístas e, em alguns casos, isso se transforma em tentativas agressivas de obter vantagens unilaterais, agravar a confusão e tirar proveito dela em benefício próprio”, constatou o presidente russo.
Segundo o mandatário, o Ocidente “inevitavelmente terá que reconhecer as realidades de um mundo multipolar” e aprender a cooperar com os países da maioria global com base no respeito aos seus interesses fundamentais.
“Isso, naturalmente, não acontecerá rapidamente”, observou Putin, acrescentando que a situação internacional, marcada pela rivalidade e pelo confronto entre países, acabará, mais cedo ou mais tarde, em um estado de equilíbrio.
O líder russo afirmou que Moscou aposta em novas vias de cooperação mutuamente benéficas com Washington e gostaria que “os fatores que nos separam fiquem no passado” e que as relações entre os dois países abram caminho para novas perspectivas.
Confirmou também que seu país está disposto a participar de uma possível reunião trilateral com os EUA e a China.”Somos totalmente a favor”, afirmou, embora tenha ressaltado que primeiro será preciso definir “qual será a pauta”.
BRICS, MODELO DA FUTURA ORDEM MUNDIAL
O presidente destacou que as novas parcerias internacionais, incluindo o BRICS, têm “grandes perspectivas” e contribuirão para a formação de um mundo multipolar.
“Uma organização como o BRICS pode, sem dúvida, servir de modelo para construir a futura ordem mundial”, garantiu Putin, mostrando que uma das principais características dessa associação é justamente a ausência de uma potência dominante e o fato de que a interação entre seus membros se baseia na igualdade. Nesse sentido, o presidente russo vê os BRICS não apenas como um mecanismo de cooperação entre os países que o integram, mas também como uma possível referência para a configuração do futuro sistema de relações internacionais.
“Todos são iguais, não há nenhum tipo de dominação”, enfatizou ao explicar os princípios que regem o funcionamento dos BRICS, destacando que sua participação na economia mundial mantém uma tendência de alta.
A IA NÃO DEVE SUBSTITUIR O SER HUMANO
“O mundo vive um momento decisivo e um ponto de inflexão em seu desenvolvimento, e isso não se limita de forma alguma à política. A reformulação política, como sempre, é consequência de mudanças profundas”, disse, destacando que essas mudanças abrangem praticamente todas as áreas: a tecnologia e a estrutura social, o clima e a medicina, a esfera militar e a bioética, o futuro energético e a demografia, bem como a digitalização generalizada, a inteligência artificial e o surgimento de novos modelos de desenvolvimento econômico.
A lista poderia ser muito mais longa. Em conjunto, tudo isso cria as condições para uma transformação qualitativa. “Ainda não podemos avaliar de maneira inequívoca, nem em toda a sua extensão, todas as circunstâncias deste processo e as suas consequências”, afirmou, ressaltando que a inteligência artificial não deve substituir o ser humano, deve ser uma ferramenta nas suas mãos, mas que as decisões finais devem continuar sendo responsabilidade das pessoas.











