A abstenção nas favelas do Rio de Janeiro ficou muito acima da média nacional no primeiro turno das eleições de 2026. No Complexo da Maré, 28,46% dos eleitores não compareceram às urnas. Na Rocinha, o índice chegou a 26,86%. Os números chamam atenção em um estado que já apresentou uma das maiores taxas de ausência do país e onde milhares de moradores tiveram seus locais de votação transferidos para fora de seus territórios por decisão da Justiça Eleitoral.
Na Maré, seis locais de votação tiveram seus endereços alterados. As mudanças atingiram 52% dos eleitores do complexo, que reúne 15 favelas e cerca de 140 mil moradores. Parte das seções foi transferida para fora da comunidade. A alteração não era inédita: mudanças realizadas na eleição municipal de 2024 já haviam sido acompanhadas de aumento da abstenção entre os moradores.
O Parque Maré esteve entre as comunidades atingidas pela transferência. A região foi palco de algumas das operações policiais mais letais realizadas no Rio na última década e concentra uma população submetida a dificuldades de deslocamento e à violência cotidiana. Para muitos moradores, votar passou a exigir sair do território onde vivem e enfrentar maiores distâncias e filas.
No domingo, os efeitos dessas mudanças apareceram nas filas e no tempo de espera. Na Maré, cerca de 26 mil eleitores não compareceram às urnas. Em alguns pontos, o tempo de espera chegou a quatro horas. Na Rocinha, onde quase 27 mil eleitores deixaram de votar, uma das filas chegou a aproximadamente 1,5 quilômetro.
A mudança dos locais de votação foi determinada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) sob a justificativa de garantir a segurança dos eleitores em áreas sob influência do crime organizado. Ao todo, 72 locais foram alterados em 20 municípios, atingindo cerca de 202 mil pessoas. O tribunal afirmou que os novos endereços foram escolhidos fora de áreas controladas pelo tráfico ou por milícias e, sempre que possível, próximos aos locais originais.
Antes da votação, o TRE descartou a possibilidade de que a alteração provocasse aumento da abstenção. O juiz eleitoral Marcello Rubioli afirmou que a percepção naquele momento era de grande comparecimento, diante das filas observadas. Segundo ele, somente após o encerramento da votação seria possível verificar se a mudança havia provocado impacto sobre a participação eleitoral.
Os números registrados posteriormente, porém, mostram taxas de ausência elevadas justamente em comunidades onde uma parcela expressiva do eleitorado precisou mudar sua rotina para votar. Na Maré, mais da metade dos eleitores teve o endereço da seção alterado. A experiência anterior também indica que a transferência dos locais pode dificultar a participação. O caso coloca em discussão os efeitos práticos de retirar as seções eleitorais de dentro das comunidades, ainda que a medida seja apresentada como necessária por razões de segurança.
A situação também precisa ser observada considerando as diferenças existentes dentro da própria Maré. Levantamento da ONG Redes da Maré mostra que o comportamento eleitoral não é uniforme entre as comunidades que formam o complexo. No Parque Maré, onde houve forte presença de operações policiais, Marcelo Freixo teve desempenho superior ao de Cláudio Castro na disputa pelo governo estadual de 2022. Já na Praia de Ramos, onde não foram registradas operações policiais entre 2016 e 2025, Castro obteve seu melhor resultado dentro do complexo. O local de votação da comunidade não havia sido alterado desde 2022.
Esse histórico ajuda a mostrar que as favelas não formam um bloco eleitoral homogêneo. As condições de segurança, a relação dos moradores com as operações policiais e as características de cada comunidade interferem na participação e nas escolhas políticas.
Na eleição presidencial de 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro na Maré por 55% a 38% no segundo turno. Neste ano, a disputa também apresentou forte concentração de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro. Na Maré, Lula recebeu 53,78% dos votos, enquanto Flávio ficou com 39%. Na Rocinha, Lula alcançou 58%, contra 32% de Flávio.
A elevada abstenção, portanto, ocorreu em territórios nos quais a disputa presidencial apresentou diferenças importantes entre os candidatos e onde a participação eleitoral pode ser afetada por fatores concretos, como distância, transporte, filas e mudança de endereço das seções.
O Rio de Janeiro terminou o primeiro turno com 23,32% de abstenção, a segunda maior taxa entre os estados. Foram 2.997.846 eleitores que não compareceram às urnas, de um total de 12.857.648 aptos. O índice vem crescendo nas últimas eleições gerais: ficou em torno de 20% em 2014 e 2018, subiu para 22,76% em 2022 e chegou agora ao maior patamar da série recente.
Já em todo o país, mais de 33 milhões de eleitores deixaram de votar no primeiro turno. A taxa nacional ficou em 21,08%, o maior índice desde 1998. O Sudeste apresentou uma das maiores taxas regionais de ausência, próxima de 23%, enquanto o Nordeste registrou cerca de 18%.











